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O fio do bigode de Arnaldinho

04/05/2026 08:42
O fio do bigode de Arnaldinho

Por Marcelo Rossoni

Há expressões que sobrevivem ao tempo não pela utilidade prática, mas pela força simbólica que carregam. O tal “fio do bigode” é uma delas.

Os mais antigos — e também os mais calejados — tratavam essa imagem como algo mais do que um simples dito popular. Era, na essência, um contrato invisível. Não havia papel, assinatura ou testemunha. Havia palavra. E, naquela lógica, a palavra não se negociava duas vezes.

Compromisso assumido era compromisso cumprido.

Bastava um olhar firme, um gesto contido e, claro, um bigode respeitável para encerrar qualquer acordo. Curiosamente, era um tempo com menos registros e mais consequências. Menos exposição e mais responsabilidade.

O mundo mudou.

Vieram os filtros, os estrategistas de imagem, os roteiros cuidadosamente ensaiados. A política, que nunca foi ingênua, tornou-se ainda mais calculada. Ainda assim, o bigode — curioso sobrevivente dessa transformação — permanece. Já não como garantia absoluta de caráter, é verdade, mas como símbolo. E, no fundo, política continua sendo isso: um jogo de símbolos que frequentemente dizem mais do que discursos inteiros.

É nesse ambiente que o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), decidiu ensaiar o seu próprio capítulo — digamos — capilar.

Apareceu recentemente com um bigode ainda em formação. Discreto, quase cauteloso. E, praticamente no mesmo movimento, anunciou apoio à pré-candidatura de Ricardo Ferraço (MDB) ao governo do Espírito Santo.

Pode ser coincidência estética. Pode.

Mas, em política, coincidências costumam ser apenas decisões que ainda não foram assumidas publicamente.

O gesto, à primeira vista, transmite definição. Sinaliza direção. Mas a política raramente se resolve em linha reta. Muitas vezes, o que se declara é apenas a superfície visível de uma engrenagem mais ampla — aquela que se move longe das câmeras e mais próxima das conversas reservadas.

E foi justamente nesse terreno que o enredo ganhou novos contornos.

Durante o Carnaval — período em que a política finge descansar, mas observa tudo com atenção redobrada — Arnaldinho tratou de compor uma imagem que, à primeira leitura, parecia apenas festiva.

No Sambão do Povo, em Vitória, lá estava ele. Ao lado de Lorenzo Pazolini (Republicanos), em uma fotografia cuidadosamente espontânea.

Vale uma breve pausa.

O Sambão do Povo não é apenas um espaço de desfile. Foi concebido na gestão de Hermes Laranja, no final dos anos 1980 — período em que Vitória passava por transformações urbanas importantes. Para muitos, Laranja foi um administrador eficiente, responsável por intervenções estruturais relevantes na capital.

Hoje, seu nome ocupa aquele lugar curioso reservado a certos ex-gestores: não desaparece completamente, mas tampouco permanece em evidência. Um tipo de esquecimento gradual, comum na política — onde a memória é seletiva e o presente costuma ser mais urgente do que o passado.

Fechado o parêntese, voltemos à cena.

Dois prefeitos. Sorrisos calibrados. Um ambiente de festa. E, ao fundo, uma obra carregada de simbolismo político.

Para o olhar desatento, um registro carnavalesco. Para quem acompanha os bastidores, algo um pouco mais elaborado.

Porque, convenhamos: em política, raramente alguém posa por acaso. E, em ano pré-eleitoral, o acaso costuma ser ainda mais escasso.

Arnaldinho, já mencionado como possível aliado em diferentes composições, apareceu ali em sintonia com Pazolini — outro nome que orbita, com maior ou menor intensidade, o debate sucessório estadual.

Não era apenas uma foto.

Era um gesto. Um sinal. Talvez um teste.

É nesse ponto que entram as chamadas “más línguas” — figuras permanentes do folclore político. Não ocupam cargos, mas dificilmente carecem de informação. Ou, ao menos, de versões bem construídas.

Segundo esses observadores de bastidor, a aproximação não teria sido fruto de uma coincidência carnavalesca. Haveria algo mais estruturado por trás da cena.

No centro dessa narrativa aparece Paulo Hartung (PSD), ex-governador por três mandatos e conhecido por um estilo que privilegia o silêncio estratégico.

Hartung, para quem acompanha sua trajetória, raramente joga para a plateia. Seu método é outro: articulação discreta, movimentos indiretos e, sobretudo, tempo político — aquele que não se mede em dias, mas em oportunidades.

Diz-se, nos corredores, que quando ele não fala, é justamente quando mais está dizendo.

Se houve, de fato, essa engenharia, é impossível afirmar com precisão. Mas, na política, a percepção muitas vezes ganha mais força do que o próprio fato. E, uma vez instalada, passa a influenciar o jogo.

O que se vê, de forma concreta, é um Arnaldinho que evita movimentos bruscos, mas também rejeita a imobilidade.

Ele circula. Observa. Calcula.

Apoia um nome aqui, aparece ao lado de outro ali. Constrói pontes — ainda que algumas sejam, por natureza, provisórias. Mantém portas entreabertas. E, talvez mais importante, evita se comprometer cedo demais com um único desfecho.

É uma estratégia conhecida, embora raramente admitida com franqueza.

Para alguns, isso é habilidade política. Capacidade de adaptação. Leitura de cenário.

Para outros, soa como cautela em excesso. Ou, dependendo da lente, oportunismo — palavra frequentemente usada na política com generosidade e, nem sempre, com precisão.

O fato é que Arnaldinho parece confortável nesse papel.

Não faz movimentos espalhafatosos. Não aposta em gestos teatrais. Mas também não se omite quando julga necessário se posicionar. Atua no espaço intermediário — aquele onde a política, de fato, acontece.

E o bigode, neste contexto, deixa de ser detalhe.

Transforma-se em metáfora.

Ainda incompleto, como quem testa o próprio formato, ele traduz um momento de transição. Já não representa ausência, mas ainda não é afirmação plena. Está ali, em construção — assim como o próprio posicionamento político que o acompanha.

No fim das contas, a política capixaba segue seu curso habitual: feita de gestos discretos, sinais indiretos e mensagens que nem sempre são ditas de forma explícita.

Fotografias aparentemente casuais. Alianças cuidadosamente desenhadas.

E, nesse ambiente, o velho “fio do bigode” talvez já não carregue o peso absoluto de outros tempos. Mas continua sendo uma imagem poderosa.

E, como toda imagem relevante na política, não precisa ser explicada em excesso.

Basta aparecer.

No momento certo.

No lugar certo.

E, de preferência, ao lado das pessoas certas.

Marcelo Rossoni é jornalista

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