Sábado, 15 de Agosto de 2026 | 06h31m
Vitória News — Um jornal de verdade
Círculo do Poder

O facismo é a rebelião contra o pensamento

26/06/2026 15:10
O facismo é a rebelião contra o pensamento

Por Marcelo Rossoni


Existe um equívoco recorrente quando se tenta compreender o fascismo. Muitos imaginam que ele seja apenas uma doutrina política organizada, um conjunto de ideias encadeadas por uma lógica rigorosa. A história, porém, sugere algo mais complexo. O fascismo pode até vestir o uniforme da ideologia, mas sua verdadeira força nasce em outro lugar: no campo das emoções, dos impulsos e dos desejos mais primitivos da vida coletiva.

Ele não convence porque demonstra. Convence porque desperta sentimentos. Alimenta medos, estimula ressentimentos, cria inimigos e oferece respostas fáceis para problemas difíceis. Sua linguagem não procura explicar o mundo, mas simplificá-lo até que toda complexidade desapareça.

Talvez por isso o fascismo manifeste profunda desconfiança diante daquilo que exige reflexão. A filosofia, a literatura, a arte, a poesia, a música, a história e até mesmo a ciência passam a ser vistas com suspeita quando estimulam a autonomia intelectual. Não porque essas atividades representem algum perigo material imediato, mas porque ensinam o indivíduo a pensar por conta própria.

Pensar é um exercício de abstração. É reconhecer que a realidade nunca cabe inteiramente em um slogan. É admitir que os seres humanos são contraditórios, que os problemas sociais possuem múltiplas causas e que nenhuma resposta honesta nasce da intolerância. O pensamento exige tempo, dúvida e disposição para rever certezas. O autoritarismo, ao contrário, necessita de convicções absolutas.

É justamente nesse ponto que o professor, o pesquisador, o jornalista, o escritor ou o artista passam a incomodar. Não porque detenham qualquer poder militar ou econômico, mas porque trabalham com ideias. Produzem perguntas onde o autoritarismo deseja apenas obediência. Formam cidadãos quando o projeto autoritário prefere súditos.

Uma sociedade democrática vive da capacidade de discutir. O fascismo prospera quando a discussão é substituída pelo grito. A democracia aceita a divergência como parte natural da vida pública. O fascismo transforma a divergência em ameaça, convertendo o adversário político em inimigo moral. A partir daí, o debate deixa de ser necessário, pois basta eliminar quem pensa diferente.

Esse mecanismo explica por que regimes fascistas, em diferentes momentos históricos, perseguiram universidades, queimaram livros, censuraram jornais, controlaram escolas e tentaram submeter a produção cultural aos interesses do Estado. O objetivo nunca foi apenas controlar instituições. Era controlar a imaginação das pessoas.

Quando a imaginação desaparece, desaparece também a capacidade de projetar futuros diferentes. O indivíduo deixa de sonhar, de criar, de experimentar novas possibilidades de convivência. A vida reduz-se ao imediato, ao medo permanente e à busca incessante por culpados.

Nesse ambiente, o sofrimento do outro perde importância. A violência deixa de ser exceção para tornar-se linguagem política. O opositor deixa de ser um cidadão com direitos e transforma-se em um obstáculo que precisa ser removido: neutralizado. A desumanização torna-se um processo gradual, quase imperceptível, até que a exclusão pareça natural.

Talvez a característica mais perigosa do fascismo seja exatamente essa: ele não exige que todos compartilhem uma filosofia sofisticada. Basta compartilhar um sentimento. Basta acreditar que alguns seres humanos valem menos do que outros. Basta aceitar que determinadas pessoas não merecem a mesma dignidade, a mesma voz ou a mesma proteção.

Por isso, o verdadeiro antídoto contra qualquer forma de autoritarismo não reside apenas nas instituições. Está também na educação, na cultura, na capacidade de cultivar empatia e no hábito permanente de pensar. Ler um romance, emocionar-se com uma canção, compreender um poema, estudar história ou discutir filosofia são experiências que ampliam nossa percepção da condição humana. Elas nos lembram que nenhuma sociedade permanece livre quando abandona o pensamento crítico.

O fascismo não começa necessariamente com tanques nas ruas ou discursos inflamados. Muitas vezes, ele se anuncia de forma mais discreta, quando a inteligência passa a ser ridicularizada, quando a cultura é tratada como inutilidade, quando o conhecimento é substituído pela desconfiança e quando o ódio parece oferecer respostas mais sedutoras do que a razão.

Toda vez que uma sociedade perde o gosto pela reflexão, abre-se espaço para que a força ocupe o lugar do argumento. E quando isso acontece, o maior risco não é apenas a perda da liberdade política. É a perda da própria humanidade.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


Compartilhe este post