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O dólar sobe, a bolsa cai - e a explicação sempre vem depois

19/12/2025 11:05
O dólar sobe, a bolsa cai - e a explicação sempre vem depois
*Por Marcelo Rossoni   O pregão de 17 de dezembro foi exemplar. Não pelos números — esses já entraram na rotina —, mas pela coreografia. O dólar subiu, a bolsa caiu e, como manda o protocolo, o mercado “reagiu”. Reagiu a quê, exatamente, fica sempre para o parágrafo seguinte. Nos dados frios, não há mistério. A moeda americana encerrou o dia na casa de R$5,52, em alta firme, no maior nível em meses. O Ibovespa caiu cerca de 0,8%, fechando perto dos 157 mil pontos. Fim do pregão. Fecha-se a torneira das negociações e abre-se, com entusiasmo, a temporada das explicações. Convém registrar uma ressalva metodológica: este texto se limita exclusivamente aos resultados do mercado financeiro observados no pregão de 17 de dezembro e às narrativas construídas naquele dia pelos principais veículos de comunicação. Trata-se de um recorte pontual, não de uma análise estrutural. Ainda assim, suficiente para produzir uma profusão de certezas. A partir dos mesmos números, cada veículo apresentou sua própria versão do enredo. Na TV Globo, o movimento foi atribuído ao aumento da chamada “aversão ao risco”, uma expressão elegante que costuma servir para explicar praticamente tudo. O dólar sobe porque o investidor busca proteção; a bolsa cai porque o investidor fica cauteloso. O mercado, nesse enquadramento, parece um senhor prudente, avaliando cenários globais com serenidade. Na BandNews, o mercado apareceu mais nervoso. A alta do dólar e a queda da bolsa foram associadas ao ambiente político doméstico e ao horizonte eleitoral de 2026. O investidor teria ficado inseguro, preferindo esperar e, por isso, retirado recursos. O mercado surge quase como um organismo sensível, capaz de reagir hoje ao que talvez aconteça amanhã. O Estadão preferiu um enquadramento fiscal. Falou-se em prêmio de risco, esse personagem invisível que cresce quando convém e desaparece quando atrapalha. Se o risco sobe, o dólar sobe junto; se o risco sobe, a bolsa cai. Tudo muito lógico, muito técnico e, convenientemente, explicado depois. Já a Folha de São Paulo optou pelos tradicionais “ruídos políticos”, expressão ampla, flexível e extremamente útil. O dólar sobe por causa deles; a bolsa cai pelo mesmo motivo. O leitor entende que algo não vai bem, ainda que esse algo permaneça difuso. Quatro veículos. Quatro narrativas. Um único pregão. Aqui, o mercado ganha contornos quase místicos. Ele “gosta”, “não gosta”, “se anima”, “se assusta”. É tratado como entidade sensível, dotada de humor próprio, embora seja, na prática, a soma de interesses muito concretos de bancos, fundos, corretoras e investidores institucionais. O mercado vira personagem, o personagem vira explicação, e a explicação dispensa responsáveis. Enquanto isso, os grandes investidores já tinham feito o que precisavam fazer. Fundos multimercado, bancos, corretoras e investidores institucionais — aqueles que realmente movem volumes capazes de deslocar o câmbio e o índice — não esperam a explicação do telejornal. Operam antes, rápido e, muitas vezes, em bloco. A especulação, nesse ambiente, não é desvio moral: é método consagrado, sofisticado e altamente lucrativo. Há ainda um elemento pouco visível ao público: os algoritmos e robôs de alta frequência, programados para comprar e vender em frações de segundo, explorando oscilações mínimas. Esses sistemas não leem manchetes, não acompanham coletivas e não se interessam por narrativas. Reagem a sinais matemáticos e ampliam movimentos que, depois, ganham explicações humanas no noticiário. O investidor com pouca experiência entra quase sempre atrasado. Lê que o dólar subiu “por causa da política”, que a bolsa caiu “por cautela” e imagina que existe uma relação direta e didática entre causa e efeito. Não existe. O movimento vem primeiro. A narrativa vem depois, organizada para parecer inevitável, racional e pedagógica. Quando o dólar dispara, surge o Banco Central como personagem recorrente. Aparecem os leilões de dólar e os swaps cambiais, termos técnicos que soam tranquilizadores. O swap cambial não é venda de dólar físico. Trata-se de um contrato financeiro que funciona como um seguro contra a alta da moeda. Se o dólar sobe, quem comprou o swap recebe a diferença. Quem costuma comprar esse seguro não é o investidor com pouca experiência, mas bancos, corretoras, fundos e grandes empresas. Existe ainda o swap reverso, usado quando o Banco Central quer conter a queda do dólar. Em ambos os casos, o objetivo oficial é reduzir a volatilidade. Na prática, o mercado observa, testa os limites do BC e ajusta suas apostas. Os leilões à vista seguem lógica semelhante. Os dólares ofertados não chegam ao cidadão comum. Vão para instituições financeiras, que concentram liquidez, informação e tempo de reação. Enquanto isso, o investidor com pouca experiência tenta decifrar se o dólar subiu por causa do cenário externo, do risco fiscal, da política ou do humor do mercado. A resposta mais honesta costuma ser menos nobre: subiu porque muita gente grande apostou que subiria — e ganhou com isso. Ao final do pregão de 17 de dezembro, o dólar permaneceu alto, a bolsa terminou em baixa e as explicações ficaram perfeitamente alinhadas, cada uma fiel à sua lente editorial. Economistas de plantão preencheram o espaço restante com gráficos, adjetivos e previsões cautelosas, sempre prontas para serem revistas no dia seguinte. O mercado, indiferente a tudo isso, já olhava para o próximo pregão. O investidor com pouca experiência, entre a manchete e o extrato, seguia tentando entender um jogo em que as regras nunca aparecem no noticiário — apenas no balanço de quem sempre chega antes.   *Marcelo Rossoni é jornalista
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