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O descanso chega para o aposentado, mas com desconto

24/11/2025 00:51
O descanso chega para o aposentado, mas com desconto
*Por Marcelo RossoniQuando o benefício vira boleto, o brasileiro descobre que o tempo de descanso também precisa ser financiado.Roubar aposentado é a última fronteira da desfaçatez. É quando o país admite, sem corar, que nem o descanso merece descanso. E o pior não é o crime em si. É a naturalidade com que ele se repete, mês após mês, ano após ano, governo após governo, como se fosse parte da paisagem. Como se fosse normal.A aposentadoria, no Brasil, é aquele momento em que o cidadão enfim respira, olha para o horizonte e descobre que o horizonte, na verdade, tem tarifa. O cidadão que atravessou décadas de trabalho, contribuiu com a Previdência e sonhou com um descanso ao sol acaba recebendo um demonstrativo de pagamento que parece um livro de suspense. E não um suspense bom, tipo Hitchcock. Suspense de boleto fantasma.Ninguém sabe ao certo em que momento o aposentado virou cliente fiel de tantas associações de nomes pomposos e funções imprecisas. Mas há um marco. Em 2001, no fim do governo Fernando Henrique Cardoso, o INSS autorizou que mensalidades de entidades de aposentados fossem descontadas diretamente do benefício, mediante simples declaração apresentada pela própria entidade. Boa intenção, péssimo mecanismo. A porta ficou entreaberta.Entre 2003 e 2010, durante o governo Lula, essa porta virou portão. As associações se multiplicaram como quem descobre ouro no quintal. Em 2005, o Tribunal de Contas da União carimbou o diagnóstico: fraude sistemática nos descontos. Estava lá, publicado, numerado, carimbado. E, como de costume, arquivado na gaveta onde o Brasil guarda tudo aquilo que sabe, mas prefere não ver.Em 2011, já sob Dilma Rousseff, o INSS reconheceu publicamente que mais de um milhão de aposentados tinham descontos indevidos em um único ano. Criaram manuais, portarias, exigências. No papel, tudo certo. Na prática, as associações apenas trocaram de nome, diretoria e endereço. Continuaram cobrando.No governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o problema voltou a crescer. O portão escancarou. Houve denúncias formais, relatórios da CGU e manifestações de aposentados. Mas nenhuma providência efetiva foi tomada. A administração tratou como assunto menor, como quem olha goteira no telhado e diz: “depois a gente vê”. Enquanto isso, o pinga-pinga virou infiltração.Essas entidades floresceram como goiabeira, que não é a da senadora Damares, em quintais sem cerca. Bastava uma prancheta, um telefonema, um papel que ninguém lembrava de ter assinado. E o desconto vinha. Firme. Religioso. Automático. Essa história toda me fez lembrar do meu amigo, irmão,  Eustáquio Palhares. Jornalista de fibra, dos que carregam no peito o brilho amassado das redações que já fizeram o Espírito Santo e o país pensar. Eustáquio anda meio aborrecido comigo. Diz que meus textos têm viés ideológico, que há um quê de esquerda na minha ironia. Eu digo a ele que não é ideologia. É só a incapacidade pessoal de fingir que não estou vendo o óbvio. É apenas lucidez. Aproximo-me dos 80 anos em 2026. Se eu estiver deste lado do céu, ele estará na festa. Se eu já tiver tomado o rumo do Oriente Eterno, espero que lá também sirvam café.E vê-lo assim, tão atento à coerência das palavras, me obriga a esclarecer uma coisa de uma vez só: há quem diga que meus textos têm viés, como se a mente, ao envelhecer, tivesse que escolher um lado para continuar pensando. Não confundam lucidez com bandeira. Não confundam memória com alinhamento. Aos quase 80, não tenho mais tempo para agradar a plateia nem para fingir neutralidade ornamental. Se há injustiça, eu aponto. Se há mentira, eu digo. O resto é silêncio dos que preferem não ver, ou melhor ouvir. Chamem de viés, se quiserem — eu continuo chamando de ver com os olhos abertos.Dito isso, sigo reconhecendo nele a estatura que tem. Foi ele quem, com elegância e pulso firme, fez de A Tribuna, um tabloide, subir aos seus melhores dias. Depois vieram outras fases, outras direções, outros entusiasmos, nem sempre felizes. Fora da redação, nos reencontramos em reuniões fechadas — afinal, somos filhos da Viúva, e Eustáquio é meu afilhado .Mas voltemos aos aposentados. Eles financiam, sem saber, uma espécie de clube de benefícios invisível: sem sede útil, sem serviço, sem entrega. Uma plataforma de streaming sem catálogo. E sem botão de cancelar.No interior, a descoberta de um desconto desconhecido vira assunto de bairro. A dona Maria comenta com o seu João, que pergunta ao vizinho, que consulta o gerente do banco, que olha para o teto e diz que “vai verificar”. A novela segue como procissão sem santo.O governo observa tudo à distância. Reconhece, promete, regula, remenda. E devolve ao aposentado a tarefa de resolver sozinho aquilo que não foi ele quem causou.Há quem diga que o Brasil é um país genial. Criamos a moqueca capixaba, música que o mundo admira, artesanato de conchas, festas de congo e rodas de capoeira. Mas também criamos a mensalidade compulsória para uma associação que ninguém lembra de ter conhecido. Nosso barroco não está só nas igrejas. Está nos carimbos, nos anexos, nos convênios que nunca acabam.Ainda assim, seguimos. O aposentado convive com o desconto como quem convive com infiltração em parede antiga: sabe que está ali, sabe que não vai se resolver sozinho, sabe que chamar alguém pode até piorar. E segue a vida. Paga a conta, ajeita os óculos, faz o almoço, varre o quintal.No fim, o descanso chega. Claro que chega. Só que, como sempre, com desconto.

  *Marcelo Rossoni é jornalista.

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