*Por Marcelo Rossoni
No Brasil, o crime tem códigos de vestimenta. Há o infrator que usa chinelo e vira estatística, e há o que usa terno italiano — e vira “surpresa do mercado”. O país aprendeu a viver com essa dicotomia como quem convive com um hábito inevitável. É assim que rombos monumentais se instalam na paisagem econômica sem grandes alardes, protegidos pelo brilho do colarinho branco — expressão que designa crimes financeiros cometidos por gente de alto padrão.
O caso das Lojas Americanas é o mais didático entre eles. A empresa, símbolo do varejo e dos corredores iluminados de fim de ano, revelou em seus balanços um Everest de dívidas. E Everest, aqui, não é exagero: a montanha passou de R$50 bilhões.
Parte do problema era atribuída a “inconsistências contábeis” — eufemismo para manipulação de números — que, somadas, formavam uma cratera. O Ministério Público denunciou ex-executivos, e investidores descobriram que a contabilidade criativa — expressão usada para práticas de aparência legal, mas que distorcem a realidade — era mais profunda do que as promoções de Black Friday.
Se o escândalo das Americanas parecia enorme, o do Banco Master adicionou outro ingrediente: a audácia. A Polícia Federal apontou a emissão de títulos falsos — documentos financeiros que deveriam representar dívidas reais, mas que não tinham lastro — somando um rombo de R$12 bilhões. E aqui surge a pergunta que ecoa no setor: onde estava a fiscalização do Banco Central — órgão federal que supervisiona bancos e deveria impedir esse tipo de desvio?
Talvez estivesse assistindo, com certa reverência, às apresentações impecáveis dos executivos da Faria Lima — avenida de São Paulo que virou símbolo do mercado financeiro e da elite corporativa, onde fundos, gestoras e startups dividem o mesmo ar condicionado.
Aquele ambiente em que relatórios são tratados como dogmas e planilhas, como escritura sagrada. O Master crescia rápido, brilhava, entregava números que pareciam saídos de um sonho corporativo. E ninguém ousava estragar a festa perguntando demais. No Brasil, desconfiar de executivos é quase uma descortesia.
E quando se achava que o mapa dos absurdos estava completo, veio a Operação Carbono Oculto. O nome, poético, ocultava uma engenharia monumental: R$52 bilhões circularam por postos de combustíveis, fundos de fachada e uma fintech — empresa de tecnologia financeira — que funcionava como banco paralelo, expressão usada para indicar operações de movimentação de dinheiro sem autorização legal.
Segundo a investigação, parte do esquema mantinha vínculos com o PCC, facção criminosa que nasceu nos presídios de São Paulo e expandiu suas atividades para diversas áreas.
O emaranhado envolvia lavagem de dinheiro, sonegação e uso de empresas fantasmas. Uma estrutura que só se sustenta quando há descuido, indulgência ou aquela fé cega na aparência de formalidade. Aqui, a criatividade criminosa ultrapassou a burocracia: a organização montou um sistema próprio, como se fosse um Estado dentro do Estado.
Somados, os três casos ultrapassam R$114 bilhões. É dinheiro que poderia erguer hospitais, financiar pesquisas, ampliar creches, transformar cidades inteiras. Mas no Brasil, ele se esvai pelos corredores polidos do mercado financeiro, onde a lógica costuma ser a mesma: quem veste bem, não pode estar fazendo algo feio. O mito da respeitabilidade é tão forte que até números gritantes parecem pedidos de desculpas educados.
A resposta oficial aos escândalos segue um ritual conhecido. Notas técnicas, anúncios de “aperfeiçoamento regulatório”, entrevistas sóbrias e um silêncio posterior que funciona quase como cortina. Cria-se um clima de normalidade, como se tudo fosse apenas um tropeço. Enquanto isso, o cidadão comum, aquele que paga juros altos e enfrenta a fila do banco, se pergunta por que a mão dura do Estado cai com tanta firmeza sobre pequenos delitos, mas trata com luvas de pelica os crimes de colarinho branco.
Recordei, ao escrever sobre isso, de Pereira Passos — prefeito do Rio no começo do século XX, famoso por grandes reformas urbanas e também por remoções forçadas. Ele acreditava que a aparência da cidade era parte essencial da ordem. A mesma lógica se aplica ao setor financeiro: o importante é parecer sólido. O resto, ajusta-se depois — ou se esconde.
E assim seguimos. Sempre com novos escândalos, novos rombos, novos discursos resgatados do arquivo. A cada capítulo, repete-se a mesma coreografia. O colarinho, porém, permanece imaculado — um símbolo da capacidade brasileira de transformar fraudes gigantescas em episódios elegantes, quase discretos. Até o próximo estouro.
Porque, no fim, a lição permanece a mesma: no Brasil, o problema nunca foi a sujeira. Foi o brilho do colarinho que impede de enxergar.
*Marcelo Rossoni é jornalista