*Por Marcelo RossoniCompleto 80 anos em 2026. Oitenta. Quatro vezes vinte. O número assusta os jovens, espanta os apressados e inquieta até os estatísticos. Mas, para mim, é apenas uma marca simbólica — porque sigo vivo e, mais importante, ativo. Aposentado, sim, nos registros da Previdência. Mas jornalista, todos os dias. Santos ou não.Acordo cedo, como quem respeita o nascer do sol — e a insônia que vem de brinde com a experiência. Faço minha higiene com disciplina quase militar, engulo minha costumeira meia dúzia de comprimidos — como todo velho —, faço meu lanche matinal e saio de casa, sem vergonha nenhuma, para desfilar com minha cadela: Elke Maravilha.Elke é uma Spitz Alemã altiva, estrela local, com o rabo pintado de rosa-choque, que atrai mais olhares do que políticos em época de eleição. Não há passeio que passe despercebido. Crianças apontam, adultos pedem para tirar foto, turistas elogiam como se ela fosse uma escultura viva. Tem quem pergunte o nome do pet shop (ou do salão de beleza), quem fotografa para postar no Instagram e até quem diga: “Isso sim é que é uma celebridade! ”.Juntos, caminhamos por quatro quilômetros de calçadas quase cidadãs, na chamada Praia do Canto. Eu de boné, ela de atitude. Cumprimentamos gente, desviamos de buracos e seguimos com aquele ar de quem está observando tudo — porque, de fato, estamos.Na volta, limpo cuidadosamente as patinhas de Elke com o zelo de um podólogo suíço, escovo os dentinhos dela com escova própria, lavo os olhinhos com soro fisiológico que guardo na geladeira, depois lavo bem as mãos e vou direto para a cozinha preparar meu almoço.Às 12h em ponto, faço a barba, tomo um banho decente, passo meu perfume preferido. O nome dele vou omitir, mas o cheiro é coisa séria. Depois, me emboneco todo. Porque ainda tenho um compromisso com a notícia: diariamente, dirijo os destinos do portal de notícias www.vitorianews.com.br.É isso mesmo. Trabalho todo santo dia. Na sede da empresa, na Praia do Suá, coordeno pautas, leio tudo, penso manchetes, falo com repórteres, atualizo a redação e ainda cuido do faturamento, mas com o cuidado de não misturar o comercial com o editorial.Somos uma pequena redação — com a ajuda do exemplar Walter Conde, em Vitória, Joana Roazes, em Cachoeiro de Itapemirim, a Capital Secreta do Mundo, e “outros bagrinhos” recém-saídos da universidade, cheios de sonhos, revolucionários — e, talvez por isso mesmo, funcionamos melhor do que muito conglomerado de mídia.Diariamente, publicamos no mínimo 150 reportagens. Muitas delas produzidas por nossa redação; as demais, adquiridas da Agência Folhapress por meio de cessão de direitos autorais.E fazemos isso sem apelar para o sensacionalismo barato. Aqui não tem manchete de sangue, grito ou carnificina em vídeo de celular. Nosso noticiário é limpo, direto, confiável — do tipo que qualquer mãe pode ler sem precisar desviar os olhos das crianças. Informação, sim; exploração, nunca.Somos os guardiões de um canal de informação independente, sério e absolutamente inserido na vida capixaba e nacional — e que merece respeito.E é por isso que, apesar dos quase 80 anos, me considero um cidadão mais informado do que muito jovem que se informa com a vovozinha do WhatsApp, por meme, e repassa fake news em grupos.E, ainda assim — com toda essa rotina ativa, crítica, conectada, pública — nunca fui entrevistado por nenhum instituto de pesquisa eleitoral. Nenhum. Nenhum telefone tocou. Nenhum tablet me foi apontado. Nenhum “boa tarde, senhor, podemos conversar com o rapidinho? ”. Zero vezes.A única exceção, solitária como esperança em reunião de condomínio, foi uma entrevista do IBGE. Um rapaz gentil, de colete e bloquinho, me perguntou sobre o número de moradores, banheiros, geladeiras. Política? Nem uma linha. Mas, pelo menos, por um instante, fui dado. Fui número. Fui estatística.Mas nunca fui ouvido sobre minha opinião política, sobre em quem voto, sobre o que penso do Brasil. E olha que penso. E voto, apesar dos quase 80 anos. Em 2026, por exemplo, já sei em quem vou votar para senador: Luiz Paulo Velloso Lucas. Um dos melhores quadros técnicos e políticos do Brasil. Um homem sério, preparado, moderno — desses que você respeita mesmo antes do jingle começar a tocar. Um nome que honrará o mandato antes mesmo de assumi-lo.Mas você acha que alguém me perguntou isso em alguma pesquisa? Claro que não. Sou invisível. E o mais curioso é que não conheço um único entrevistado. Nem primo distante, nem ex-colega de jornal, nem vizinho de prédio ou de bairro. Parece que essas pesquisas são feitas em bunkers secretos, entre parentes de estatísticos e personagens holográficos.E eu não sou do tipo que se esconde. Muito pelo contrário: estou nas ruas com Elke, nas manchetes do portal www.vitorianews.com.br, no WhatsApp enchendo o saco dos integrantes da minha lista de transmissão, compartilhando links dos meus artigos e de notícias importantes. Tenho CPF ativo, título de eleitor regular e paciência para responder pergunta por pergunta. Não corro de ninguém. Só não apareço nas planilhas.Talvez seja um tipo de maldição democrática. Ou talvez seja só azar mesmo. Mas o fato é que sou um eleitor ativo, consciente, presente, experiente — e completamente ignorado pelas pesquisas eleitorais. Sigo fora da margem de erro. Fora da amostra. Fora do gráfico.E olha que eu não peço muito. Só queria um entrevistador. Um único. Unzinho só, que me perguntasse se acredito nas urnas eletrônicas, por exemplo, o que espero do futuro (êpa) e se sei a diferença entre populismo e picaretagem. Ah, se ele soubesse no que estava se metendo... ia sair com a entrevista da carreira. Elke latindo ao fundo e eu brindando com café passado na hora, como quem celebra o improvável.Enquanto isso, sigo minha rotina: levanto, cuido de Elke, escovo, limpo, edito, escrevo, informo, cozinho, cheiro bem e dirijo um portal de notícias com responsabilidade e amor.Cumpro meu papel cívico, sem jamais ter sido oficialmente ouvido.Mas o dia em que a campainha tocar e alguém perguntar: “O senhor tem dois minutos para responder uma pesquisa eleitoral? ” — ah, que dia! Vai ter celebração. Elke de laço, eu com a camisa do Fluminense — passada, sim, mas com cheiro de mofo, por ficar tanto tempo guardada por falta de vitórias importantes a serem comemoradas — e argumento afiado.Porque, enfim, vou virar estatística. E aí sim, poderei dizer: “Agora sim, Brasil. Agora sim, você me escutou! ”.*Marcelo Rossoni é jornalista