Terça-feira, 20 de Outubro de 2026 | 17h01m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Círculo do Poder

O Cavaleiro da Esperança

22/12/2025 00:07
O Cavaleiro da Esperança
*Por Marcelo RossoniEm 1987, já com os cabelos brancos de quem viu o Brasil dar mais voltas do que a Coluna que um dia liderou, Luiz Carlos Prestes falava à juventude com a serenidade de um professor paciente diante de uma turma desatenta. “Companheiros, eu estou travando uma luta para esclarecer”, dizia, como quem anuncia uma missão impossível: convencer o país a desaprender o anticomunismo — essa “imbecilidade”, segundo ele, que teimava em sobreviver mesmo depois de a Guerra Fria ter esfriado.O apelido que o eternizou — “O Cavaleiro da Esperança” — nasceu longe dos palanques, nas páginas de um livro escrito em 1942 pelo consagrado escritor baiano Jorge Amado, então exilado na Argentina e militante comunista.A obra, publicada em plena ditadura do Estado Novo, foi rapidamente proibida pela censura de Getúlio Vargas, que via em Prestes não um personagem literário, mas uma ameaça à ordem pública. Mesmo assim, o título atravessou o tempo e tornou-se sinônimo do homem que, aos olhos da esquerda, encarnava a pureza revolucionária, o idealismo incorruptível e a obstinação de quem acreditava poder mudar o país a passos de marcha.O “Cavaleiro da Esperança” de Jorge Amado era mais que um retrato: era uma mitologia política. Transformava o líder da Coluna Prestes — aquela marcha épica que cruzou 25 mil quilômetros do Brasil entre 1924 e 1927 — em símbolo da resistência e da fé socialista.A ditadura o proibiu, mas não conseguiu impedir que o mito circulasse clandestinamente, em edições de bolso e exemplares mimeografados, lidos à luz de lampiões ou escondidos sob colchões de militantes.Mas o herói romântico de outrora já não empunhava armas, apenas ideias — e nem todas encontravam eco. Falava como quem sabia que a História o havia transformado em peça de museu antes da hora, mas ainda assim insistia em polir a vitrine. Pedia à juventude que estudasse “a teoria do proletariado”, que se libertasse da ideologia burguesa que, segundo ele, começa no berço: “A criança aprende a competir antes de aprender a dividir o brinquedo.”Prestes não poupava a imprensa, o rádio e a televisão, que via como “armas terríveis” nas mãos do capital. E havia nisso um contraste curioso — enquanto denunciava o poder da mídia, sua fala ecoava em fitas cassete de má qualidade, distribuídas por militantes nostálgicos, num Brasil já tomado pelas novelas, pelos comerciais de cigarro e pelas promessas do Plano Cruzado. “Eles olhavam pra mim como se fosse um salvador”, recordou, sobre sua chegada ao Galeão, recebido por oito mil jovens. “Mas eu disse: aqui não há nenhum salvador. A salvação está em vocês mesmos.” Era a fala de um homem que, por décadas, foi tratado como mito — e que agora pedia apenas para ser mortal.No fundo, Prestes sabia que lutava contra o tempo. Falava em “empregar todos os recursos dos últimos anos de vida” para fortalecer as forças revolucionárias, mas o país já marchava em outra direção — rumo ao consumo, à redemocratização e às privatizações por vir. Enquanto ele pedia à juventude que lesse Marx, o Brasil descobria Michael Jackson, o rock nacional e as prestações do crediário.Prestes, é claro, não viveu para assistir à plenária do antigo PCB, quando, após a queda da União Soviética, o partido resolveu trocar de nome — como quem muda de roupa para esconder as manchas do passado. Rebatizou-se Partido Popular Socialista (PPS), e mais tarde Cidadania, nome simpático e genérico, daqueles que caberiam em qualquer cartório.Mas o pecado capital veio com a mudança do nome. A metamorfose parecia um rito de sobrevivência: do leninismo à social-democracia, da foice e martelo ao centrão parlamentar. O velho partido, que um dia sonhou com a revolução proletária, acabou emprestando legenda para eleger Marcos do Val senador — e aí, convenhamos, nem o materialismo dialético explica.O gesto soaria como piada cruel se não fosse o epitáfio político de uma sigla que já teve Luiz Carlos Prestes como farol ideológico. Assim, o “Cavaleiro da Esperança” tornou-se, involuntariamente, um espectro constrangido da própria história. Morreu acreditando que a juventude redimiria o país pelo estudo e pela consciência de classe, sem imaginar que décadas depois seu antigo partido serviria de trampolim para um ex-instrutor de tiro transformado em influenciador de direita.No fim, restou o capricho da História: onde Prestes via “a luta de um contra todos”, o Brasil aperfeiçoou a fórmula — “cada um por si, e o algoritmo por todos.”

  *Marcelo Rossoni é jornalista

Compartilhe este post