*Por Marcelo RossoniHá quem diga que a civilização começou quando o primeiro ser humano trocou o grito pela palavra. Em Vitória, no entanto, parece que estamos voltando à era dos tambores. Um quiosque, na orla de Camburi — cartão-postal da capital e vitrine do suposto turismo de qualidade que a cidade quer exibir —, tem se transformado, noite após noite, em laboratório acústico de decibéis abusivos, ritmos indecifráveis e equipamentos sonoros capazes de acordar golfinhos no meio da baía.Bem em frente ao Hotel Pier Vitória, um dos mais modernos empreendimentos hoteleiros da cidade, funciona o quiosque queinferniza a vida dos hóspedes e transforma o descanso em suplício. À medida que a madrugada avança, o que era para ser lazer se converte em tormento: caixas de som ensurdecendo o bairro, vozes exaltadas, confusão de mesas e, não raro, hóspedes do hotel — exaustos, irritados e sem uma noite de sono — fazendo o check-out antes da hora, deixando o hotel e, em alguns casos, até sem pagar a conta. E quem os culpa? O prejuízo é do empresário, mas a razão, evidentemente, está com quem não aguenta mais.No início da Avenida Dante Michelini, o empresário Nérleo Caus de Souza e seus sócios — aqueles que acreditaram no discurso do “Vitória rumo ao futuro” — investiram milhões na construção do hotel. Empregos gerados, impostos recolhidos, conforto de padrão internacional. Tudo nos conformes da tal “vocação turística” que figura nas campanhas institucionais. Faltou apenas um detalhe: a convivência civilizada com o entorno.O empresário, coitado, não quer que o quiosque toque música de ninar neném, nem defende o silêncio monástico de um mosteiro beneditino. O que ele espera, modestamente, é algo dentro dos padrões de civilidade — uma palavra que, na orla de Camburi, parece ter sido banida do dicionário.Os quiosques instalados ao longo da praia — localizados na Avenida Dante Michelini e também em outros pontos da capital, segundo os registros oficiais — pertencem a um único empresário, que obteve o direito de explorar os espaços por meio de um legítimo processo licitatório promovido pela Prefeitura de Vitória. Tudo dentro da lei, como convém a uma cidade moderna. O problema é o que vem depois: o microfone aberto, o amplificador no talo e a crença de que som alto é sinônimo de alegria popular.Enquanto o turista estrangeiro procura a vista do mar, o hóspede do hotel procura o controle remoto — não para mudar de canal, mas para ver se o barulho é parte da programação da TV. As janelas duplas, que prometiam isolamento térmico e acústico, agora funcionam como barreiras simbólicas entre o mundo do descanso e o do desvario.O empresário já tentou de tudo. Acionou o 156 da Prefeitura, enviou vídeos, registrou horários, descreveu as madrugadas em que o grave do som fazia vibrar as taças do restaurante. Em troca, recebeu a resposta padrão: “sua solicitação foi registrada e encaminhada ao setor responsável”. Um setor que, presume-se, tem o dom da invisibilidade — porque ninguém o viu nem ouviu agir.A ironia é que o mesmo poder público que multa motoristas por som automotivo alto nas avenidas parece sofrer de surdez seletiva quando o barulho vem de quiosques oficialmente licenciados. Talvez a diferença esteja no CNPJ: um toca ilegalmente, outro paga o ISS. No fim, ambos fazem o mesmo concerto — desafinado e insistente.O empresário do hotel não é homem de microfone. Prefere o tom discreto das negociações e o ruído calculado das planilhas. Eu o conheço há mais de meio século. É um homem de bem, mas a paciência tem limite — e o dele, aparentemente, foi rompido no último fim de semana, quando um show improvisado transformou a orla num festival paralelo, sem curadoria e sem decibelímetro. Agora, prepara-se para buscar na Justiça o que a boa-vontade administrativa não entregou: o direito de exercer uma atividade econômica sem ser soterrado pelo barulho do vizinho.O curioso é que ninguém está pedindo o silêncio absoluto — essa utopia urbana que só existe em filmes de ficção. Pede-se apenas que o som tenha limite, que o público tenha respeito e que o poder público tenha ouvidos. Uma tríade simples, mas aparentemente revolucionária.Há quem argumente que o barulho é parte da cultura local, expressão popular, alegria espontânea do capixaba. Pode ser. Mas cultura nenhuma se sustenta no direito de incomodar o outro. Civilização é, afinal, o acordo coletivo de que todos possam existir — e dormir — no mesmo espaço.Em outros tempos, o progresso se media pelo número de fábricas, de automóveis, de antenas. Hoje, talvez o verdadeiro avanço esteja na capacidade de uma cidade conviver com o próprio ruído. Quando o poder público aprende a ouvir, a sociedade começa, enfim, a falar.O empresário do hotel — que acreditou no discurso da “Vitória sustentável, turística e acolhedora” — ainda insiste em manter o bom humor. “Não quero que toquem a música de ninar, Nana, neném / Que a Cuca vem pegar / Papai foi na roça / Mamãe foi trabalhar”, diz, “só que deixem os hóspedes dormir como gente civilizada.”O pedido é singelo, quase poético. E talvez seja esse o ponto mais alto de toda a história: num tempo em que o silêncio virou luxo, pedir civilidade soa como o último grito — o mais civilizado deles.*Marcelo Rossoni é jornalista