O analfabeto religioso fica entre a Cruz e a Estrela de Davi
26/06/2025 00:10
*Por Marcelo RossoniBertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemão, nascido no final do século XIX, já alertava: “o pior analfabeto é o analfabeto político. Aquele que não entende nada de política, que não sabe o preço do feijão, da farinha, do aluguel, e que, por ignorância ou descuido, permite que o pior dos homens — o político desonesto — prospere. ” Mas se Brecht vivesse hoje, talvez fosse obrigado a revisar sua sentença. Porque, ao lado do analfabeto político, floresceu uma nova criatura do pântano da ignorância: o analfabeto religioso. E este, meus amigos, carrega uma bíblia, contendo os livros do Novo Testamento, numa mão, uma bandeira de Israel na outra, e um ressentimento pronto para inflamar os debates.O analfabeto religioso é uma figura curiosa. Veste-se com zelo, como quem vai para uma guerra santa. Sabe de cor os versículos que lhe convêm — especialmente os que falam em castigo, fogo e abominação. Mas ignora por completo a história, a teologia, o contexto cultural, e até mesmo as diferenças entre Antigo e Novo Testamento. Sua devoção é uma colagem precária de versículos pinçados e “memes” de WhatsApp. E entre os símbolos que ostenta com fervor, destaca-se uma curiosa contradição: a bandeira de Israel tremulando orgulhosamente ao lado da cruz de Cristo.Aqui começa o espetáculo da ironia. A obsessão de certos evangélicos brasileiros com Israel beira o fetiche. Jerusalém tornou-se a Meca gospel, destino de viagens missionárias com mais “selfie” do que oração. A estrela de Davi virou acessório de fé, pendurada no retrovisor do carro entre o crucifixo e a fitinha de “Jesus é fiel”. Para o analfabeto religioso, apoiar Israel virou sinônimo de estar do lado certo da história, uma espécie de selo espiritual de aprovação divina. Eles gritam "Shalom!", mas não sabem a diferença entre um rabino ortodoxo e um pastor neopentecostal. Muitos não fazem ideia de que o judaísmo não reconhece Jesus como o Messias — um pequeno detalhe teológico que, para quem acredita em salvação apenas através de Cristo, deveria ser, no mínimo, desconfortável.Mas não. O analfabeto religioso prefere a emoção ao pensamento. Apoiar Israel, para ele, é mais performático do que coerente. É como ir ao churrasco de domingo com camiseta do Che Guevara sem saber qual foi o papel dele na revolução cubana. Uma atitude que mistura fé, ignorância e uma pitada generosa de ideologia mal digerida.Assim como o analfabeto político, que desconhece o sistema que o governa, o analfabeto religioso ignora o fundamento da fé que professa. Ambos compartilham uma fé cega: um no político salvador, outro no Messias de Instagram. E se unem na mesma trincheira do negacionismo — rejeitam a ciência, a crítica, a leitura e o diálogo. Preferem a certeza do púlpito à dúvida da biblioteca.O analfabeto político vota contra os próprios direitos porque acredita que o inimigo é o comunismo. O analfabeto religioso jejua pelo Brasil, enquanto torce para que chova fogo do céu sobre os "infiéis" que discordam dele. O primeiro elege Messias de terno. O segundo aclama o Messias que transforma água em vinho, mas se recusa a dividir o vinho com quem pensa diferente.É claro que há fé genuína, estudo sério das Escrituras e um ecumenismo maduro que promove o respeito entre tradições. Mas isso não interessa ao analfabeto religioso. Para ele, religião é guerra cultural. É uma trincheira moral. É palco de uma cruzada onde só os seus são salvos. A Bíblia vira arma — e o amor ao próximo, rodapé.A aliança com Israel, portanto, não é teológica, é simbólica. Representa a busca por um aliado contra o “inimigo interno”: o progressismo, o feminismo, o marxismo cultural, a ciência. Israel é usado como totem — um fetiche político-religioso, onde o judaísmo é esvaziado de conteúdo e transformado em slogan. Pouco importa se os judeus ortodoxos veem Jesus como um falso profeta. Para o analfabeto religioso, isso é detalhe. O que conta é que Israel é “do bem”, enquanto o mundo secular — e, principalmente, a esquerda — é do mal.O resultado é um sincretismo grotesco: festas judaicas celebradas em templos evangélicos por pastores que mal sabem pronunciar “Yom Kipur”, mas que falam com autoridade sobre o papel de Israel no Apocalipse. Profetizam guerras, exaltações e castigos, como se fossem consultores espirituais do Mossad. Enquanto isso, ignoram por completo os ensinamentos mais básicos do próprio Cristo: o perdão, a compaixão, o cuidado com o pobre.Brecht teria material de sobra. Porque se o analfabeto político é o responsável por permitir que a injustiça prospere, o analfabeto religioso é seu arauto espiritual. Justifica o intolerável com versículos, abençoa a violência com orações, e ainda acredita estar fazendo a vontade de Deus.O que mais espanta nesse analfabetismo religioso não é apenas o desconhecimento — é a recusa deliberada em conhecer. Porque conhecer implica dúvida. E duvidar exige coragem. É mais fácil repetir o que o pastor diz do que ler os textos bíblicos com atenção. É mais confortável acreditar que Israel é o “irmão mais velho na fé” do que encarar a verdade: há um abismo entre o cristianismo evangélico brasileiro e o judaísmo rabínico.Um abismo que nem mil bandeiras costuradas podem esconder.O analfabeto político, dizia Brecht, não ouve, não fala, não participa. E no fim, vota no corrupto. O analfabeto religioso ora, canta, marcha — mas sem saber para onde. No fim, apoia políticas que negam o Cristo que dizem seguir. Crucificam-no de novo, em nome da fé. E como no tempo de Pilatos, lavam as mãos.Talvez seja hora de atualizar Brecht: “o pior analfabeto é o religioso. Porque reza contra os pobres, canta contra o amor, e marcha contra o próprio Deus que diz adorar.