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O agro não anda muito pop no BB

05/09/2025 00:52
O agro não anda muito pop no BB
Por Marcelo RossoniO agronegócio, que durante anos se vendeu como a locomotiva pujante da economia brasileira, agora dá sinais de que talvez a locomotiva precise de um empurrãozinho — ou de um bom advogado especializado em recuperação judicial. O Banco do Brasil, maior financiador do setor, divulgou números que soaram quase como um puxão de orelha: R$12,73 bilhões em dívidas do agro já estão com mais de 90 dias de atraso. E, para piorar, esses calotes puxaram para baixo o lucro da instituição: uma queda de 60% no segundo trimestre.Não se trata de um tropeço qualquer. Segundo a própria presidente do banco, Tarciana Medeiros, “é o maior nível de inadimplência já visto no agro na história do Banco do Brasil”. E se há uma instituição que entende de agro, é justamente o BB, que durante décadas se vendeu como o braço financeiro de uma produção que não para de crescer nos números oficiais, nas safras recordes e nas campanhas publicitárias embaladas pelo bordão “o agro é tech, o agro é pop, o agro é tudo”.Pois bem, pelo visto, o agro também é devedor.Mais da metade desses atrasos — cerca de 52% — está concentrada em produtores do Sul e do Centro-Oeste, justamente regiões vistas como o coração do agronegócio brasileiro. São áreas que, nas últimas décadas, protagonizaram o discurso da modernidade no campo: maquinário de última geração, drones sobrevoando lavouras, sementes geneticamente modificadas para resistir a pragas, e exportações que transformaram o Brasil em celeiro global. Mas quando a fatura chega, parece que a modernidade dá lugar ao bom e velho hábito do fiado.E não é que o agro também anda se sofisticando no quesito “dar calote”? Segundo os dados, dos R$12,73 bilhões em atraso, R$2,27 bilhões já migraram para o território das recuperações judiciais. É quase um novo nicho de mercado: se antes o setor se vangloriava de ser resiliente, agora se aperfeiçoa em recorrer ao Judiciário para renegociar dívidas. O Brasil pode até não ser referência mundial em inovação tecnológica, mas em criatividade para lidar com passivos financeiros, aí sim não tem quem segure.E convém deixar claro: essa inadimplência histórica não tem absolutamente nada a ver com tarifaços ou guerras comerciais — aquelas cartilhas protecionistas tão defendidas pelo ídolo deles, Donald Trump, sempre com aplausos do clã Bolsonaro e de sua tropa ruralista. Não se trata de retaliação americana, nem de queda de braço geopolítica. Aqui, o beijo é outro: o beijo doce dos empréstimos subsidiados, com juros camaradas, que engordam o caixa dos grandes produtores, multiplicam fortunas e, ainda assim, resultam em calote.Para o Banco do Brasil, a situação é, no mínimo, constrangedora. Afinal, o banco sempre usou o agronegócio como vitrine para mostrar a força de sua carteira de crédito. Enquanto outros setores patinavam, o agro era a joia da coroa: previsível, estável, garantido pelas safras e pelo apetite insaciável dos importadores de soja, milho e carne. Agora, o que se vê é uma realidade menos dourada: dívidas bilionárias, inadimplência recorde e lucros em queda. No meio desse cenário, fica a pergunta: onde foi parar o superávit tão decantado? Afinal, o agro não vive repetindo que sustenta a balança comercial do país, que garante dólares frescos e que é o responsável por boa parte do PIB? Se é assim, como explicar esse descompasso entre o discurso de potência e a prática de quem não consegue pagar as contas no banco?A resposta pode estar em um velho conhecido do setor: o risco. A agricultura brasileira é, sim, grandiosa, mas também altamente vulnerável às variações climáticas, às oscilações de preço no mercado internacional e às mudanças no câmbio. Uma seca aqui, uma geada ali, uma queda no preço da soja em Chicago, e pronto: o castelo de previsibilidade desmorona. Mas mesmo levando em conta tais fatores, os números apresentados agora pelo Banco do Brasil extrapolam o aceitável. Não é apenas uma safra ruim; é um modelo que começa a mostrar rachaduras.Enquanto isso, a propaganda oficial continua. O agro segue ocupando espaços nobres na TV, exaltando sua importância para a economia e se colocando como sinônimo de modernidade e prosperidade. Mas, como bem lembrou a divulgação dos resultados do BB, propaganda não paga boleto. E no final das contas, quem está bancando essa inadimplência é o próprio banco público, ou seja, todos nós, contribuintes, que sustentamos o sistema financeiro nacional.É curioso notar também como o setor reage diante da crise. Empresários urbanos em dificuldade costumam ser tachados de incompetentes. Microempreendedores endividados são vistos como mal planejados. Mas quando o agro, esse gigante midiático, dá o calote, a narrativa é sempre suavizada: culpa do clima, culpa do câmbio, culpa da guerra lá fora. Nunca é má gestão, nunca é excesso de confiança, nunca é o luxo de expandir além da capacidade real.O fato é que a inadimplência histórica registrada agora escancara um ponto incômodo: o agro brasileiro, apesar de seu gigantismo, não é imune às mesmas fraquezas que derrubam outros setores. Pelo contrário: às vezes, justamente por se achar invencível, acaba tropeçando no próprio salto.O Banco do Brasil terá de lidar, daqui para frente, com uma clientela que se acostumou a ter crédito farto e juros subsidiados, mas que agora mostra dificuldade em honrar compromissos. A questão é saber até onde vai a paciência da instituição — e, por tabela, da sociedade. Porque se o agro é tão essencial quanto gosta de proclamar, é razoável esperar que cumpra com suas obrigações financeiras.No fim, a imagem que fica é paradoxal. O setor que se autointitulou pop, tech e tudo mais agora soa como aquele vizinho que vive ostentando carro novo, mas nunca paga o condomínio em dia. É moderno, é internacional, é inovador — mas na hora de abrir a carteira, prefere deixar a conta para depois.E assim o Banco do Brasil, guardião do crédito rural, amarga um trimestre para esquecer, com lucro despencando e inadimplência batendo recordes. Quem diria que a locomotiva do PIB brasileiro estaria patinando nos trilhos do calote? Talvez seja hora de atualizar o slogan: o agro é pop, é tech, é tudo — mas também é devedor.

*Marcelo Rossoni é jornalista

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