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O Afeganistão dos trópicos

01/12/2025 00:17
O Afeganistão dos trópicos
*Por Marcelo RossoniO Brasil está descobrindo, pouco a pouco, que pode se tornar um Afeganistão. Não será com turbantes nem com montanhas de pedra, mas com asfalto quente, coqueiro na rotatória e um louvor suave saindo de caixas de som bluetooth. A teocracia, se vier, não terá cara sisuda, mas expressão amistosa. Virá sorrindo, de mãos dadas com a noção de que “governar em nome de Deus” é virtude e não ameaça. A ideia, que antes parecia exagero, já se move como projeto político, organizado, financiado e disciplinado.E quando a religião começa a organizar não apenas consciências, mas também endereços, a metáfora deixa de ser exagero. Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi lançado o Residencial Clube Manancial da Fé, um condomínio projetado para receber exclusivamente moradores evangélicos.Não é simplesmente um empreendimento imobiliário: é uma declaração de método. A fé deixa de ser prática íntima e passa a funcionar como critério de pertencimento urbano. A cidade se converte em extensão da igreja.A proposta é vendida como afinidade, acolhimento e segurança espiritual — mas, na prática, inaugura um modelo de território confessional. Hoje é CEP. Amanhã pode ser política pública.Esse impulso de separar o “nós” do “eles” já se expressa também na prática cotidiana. Há os que sobem o morro — o “monte”, como chamam — para orar “mais perto de Deus”, como se a altitude aprimorasse o sinal da graça. Não é apenas devoção; é geografia simbólica. A religião organiza também o espaço. Primeiro o monte. Depois o condomínio. E quando o espaço se separa, a vida se separa junto.Enquanto essas fronteiras se erguem, a rotina segue para quem sustenta o país com o próprio corpo. A faxineira do prédio onde moro chega às seis e meia, recolhe lixo, lava o saguão, troca os sacos das lixeiras e dá bom dia com dignidade. Recebe R$1.900,00 no dia cinco de cada mês, com vale-transporte, vale-refeição, uniforme e seguro básico. Do salário, separa R$190,00 para o dízimo, que é parte de Deus,  mais pequenas ofertas para “agradar o pastor”. Acredita que o gesto traz retorno. Mas o único retorno imediato é a redução da feira do mês. Com esses R$190,00, ela compraria arroz, feijão, óleo, macarrão, frango ou carne em promoção, café de marca simples, açúcar, sabão em pó e algumas verduras. Seria o básico para manter a casa funcionando. Mas esse alimento, todos os meses, vai para outra mesa: a mesa do projeto de poder que transforma fé em disciplina de voto.A fé íntima, legítima, não é o problema. Ele começa quando a fé vira estrutura de comando. As igrejas protestantes históricas formavam pastores com anos de estudo e reflexão. Já grande parte das neopentecostais forma líderes pela eficácia do convencimento e da performance. O altar virou palco. O culto virou espetáculo. O espetáculo virou faturamento. E o faturamento virou base eleitoral.A estética acompanha o movimento. A moda gospel, discreta e alinhada, feita de saias na altura recomendada e tons suaves, funciona como bandeira silenciosa. Não é roupa: é pertencimento. E pertencimento é poder.É nesse ponto que política e religião se abraçam com naturalidade. Hoje, é mais barato conseguir um pastor do que construir uma base eleitoral. Um pastor entrega milhares de votos disciplinados, orientados como expressão de fé. O fiel não vota sozinho. Vota acompanhado da voz que organiza sua esperança. E quem domina a esperança domina o destino político.Por isso tantos candidatos aprenderam a orar em público. Não é espiritualidade. É sinalização. A plateia reconhece a coreografia. Se ele ora, ele é dos nossos. E se é dos nossos, merece o voto. No Brasil, alinhamento vale mais que argumento.A separação territorial promovida pelo Residencial Clube Manancial da Fé não é apenas uma aposta de mercado. É um prenúncio. Hoje, a fé organiza o bairro. Amanhã, organiza a cidade. Depois, organiza o Estado. Não é preciso ruptura. Basta continuidade.A faxineira entrega R$190,00 acreditando que participa de algo superior. E participa mesmo: ela financia o projeto que definirá a vida dela. A fé sustenta a igreja e o pastor. Só não sustenta quem a exerce.O Afeganistão dos trópicos não precisará de imposições severas. Ele virá aos poucos, com gentileza, como quem oferece um copo de água na porta da igreja. Até que um dia, quase sem perceber, o país estará de joelhos.Não porque foi forçado.Mas porque ensinam, pacientemente, que ajoelhar é bonito.

  *Marcelo Rossoni é jornalista

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