Chamaram-no de Messias, mas, no Senado, faltaram-lhe milagres.
Jorge Messias chegou embalado pela confiança de Luiz Inácio Lula da Silva, como quem atravessa o deserto rumo à terra prometida do Supremo Tribunal Federal. A travessia, no entanto, não tinha nuvem a guiar nem mar a se abrir. Havia planilhas, bancadas, telefonemas não atendidos e aquela liturgia silenciosa que define destinos antes mesmo de qualquer voto. Havia um obstáculo Davi Samuel Alcolumbre Tobelem, que acredita que o Messias está por vir.
Nos corredores de Brasília, onde o improviso é coreografado e o acaso costuma ter agenda, Messias já carregava uma história. Houve um tempo em que atendia por um apelido que misturava afeto e ironia: “Bessias”. A alcunha, atribuída a Dilma Rousseff, dizia muito sobre o ambiente — um lugar em que nomes são moldáveis e significados, negociáveis.
Mas o problema nunca foi fonético. Foi político.
E a política, no Senado Federal do Brasil, não se resume ao que se vê no plenário. Ela se move nas ante salas, nos jantares discretos, nos intervalos de café. Foi nesse território difuso que um nome circulou com naturalidade quase burocrática: Davi Samuel Alcolumbre Tobelem — eleito senador pelo Amapá com 196.087 votos. Número que assegura legitimidade nas urnas, mas que, em Brasília, ganha outra dimensão quando convertido em capacidade de articulação.
Antes que qualquer roteiro se tornasse público, havia quem já conhecesse o final. Alcolumbre, com a serenidade de quem lê o ambiente com antecedência, teria antecipado nos bastidores uma derrota do governo na casa de oito votos. Não era previsão. Era leitura. Em Brasília, prever o futuro é, muitas vezes, apenas reconhecer o presente com mais precisão que os outros.
Não se tratava de um veto explícito, nem de uma oposição barulhenta. Ao contrário. O que se desenhava era mais sofisticado: um consenso silencioso, daqueles que não deixam digitais, mas produzem efeitos concretos. Brasília raramente trabalha com negativas diretas; prefere os recuos induzidos, as ausências estratégicas, os apoios que nunca se confirmam.
Enquanto isso, Messias avançava como pôde. Seu nome, carregado de simbolismo, parecia prometer mais do que a política costuma entregar. Mas nomes, por mais sugestivos que sejam, não alteram correlações de força. No máximo, alimentam expectativas — e expectativa, no Senado, é moeda volátil.
Para parte dos senadores, não estava em análise apenas um jurista. Avaliava-se um perfil, uma trajetória, um conjunto de vínculos. A proximidade com o governo, inevitável em sua função, era vista por alguns como credencial; por outros, como obstáculo. Em tempos de polarização, até a biografia passa a ser lida como documento de acusação.
Havia também o fator invisível, aquele que não consta em atas nem em discursos: o humor da Casa. O Senado, mais do que uma instituição, funciona como organismo. Reage, se retrai, se expande. E, naquele momento, parecia inclinado a um gesto de contenção — daqueles que não se anunciam, mas se impõem.
Não faltaram gestos de apoio, é verdade. Nem declarações públicas que, em outro contexto, poderiam sustentar uma aprovação. Mas, em política, o que vale não é o apoio declarado, e sim o voto efetivo — ou, mais precisamente, a disposição real de sustentá-lo até o fim. Entre um e outro, costuma haver um abismo.
No fim, não houve cena dramática, nem ruptura visível. O que ocorreu foi algo mais típico de Brasília: o desfecho sem espetáculo. A narrativa que se dissolve antes de se consolidar. O projeto que encontra resistência suficiente para não avançar, mas difusa demais para ser atribuída a um único responsável.
E talvez esteja aí a lição mais dura. Não foi um homem que disse “não”. Foi um ambiente inteiro.
Um ambiente que testa, mede, calcula — e, quando necessário, recua sem alarde. Porque, no Senado, o poder raramente se afirma de forma direta. Ele se insinua, se organiza e, por fim, se impõe.
Messias, nesse cenário, não foi rejeitado por ausência de qualificação, nem por falta de padrinho político. Foi, antes, vítima de um momento — desses em que a soma das cautelas supera a força das convicções.
E assim, sem trombetas nem registros épicos, o Messias encontrou seu limite. Não no nome, não no currículo, mas na matemática fria da política.
Porque, em Brasília, milagres até acontecem. Mas, como tudo por lá, dependem de votos — e, sobretudo, de clima.
Aguardem, Lula reagirá....
Marcelo Rossoni é jornalista