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It’s our oil

08/01/2026 18:38
It’s our oil

Algumas obsessões geopolíticas não envelhecem. Apenas trocam de discurso. A mais persistente delas é a relação dos Estados Unidos com países que, por acaso ou teimosia histórica, sentam sobre grandes reservas de recursos estratégicos. No caso da Venezuela, essa obsessão ganhou nome, voz e tuítes quando Donald Trump resolveu falar alto demais sobre petróleo.

Trump nunca foi adepto da sutileza. Ao defender abertamente o controle americano sobre as reservas venezuelanas, acabou formulando, em versão imperial, uma adaptação involuntária do velho lema brasileiro eternizado pelo escritor Monteiro Lobato. Lá era uma reivindicação nacional. Aqui virou diretriz externa: o petróleo é nosso — só que deles.

A partir daí, o discurso moral entra em cena como figurino. Democracia, combate às drogas, estabilidade regional. Termos amplos, elásticos e extremamente úteis. Funcionam como embalagem para decisões que não nascem em assembleias nem em relatórios humanitários, mas no subsolo.

Essa encenação não começou na Venezuela.

Em 20 de dezembro de 1989, tropas americanas desembarcaram no Panamá, sob o selo tranquilizador da operação Just Cause. O nome dispensava explicações. Se era “causa justa”, qualquer pergunta passava a soar indevida.

O alvo era o general Manuel Noriega, figura conhecida dos serviços de inteligência americanos durante anos. Enquanto serviu, foi tolerado. Quando deixou de servir, ganhou nova identidade: narcotraficante, corrupto e ameaça à democracia continental. Um pacote retórico pronto para consumo.

O combate às drogas dominou o noticiário. O Canal do Panamá, peça central do comércio mundial e do poder estratégico dos EUA, apareceu apenas como coadjuvante tímido. Não era o protagonista ideal para aquela narrativa.

Após dias de bombardeios e cerco, Noriega terminou escondido na Nunciatura Apostólica do Vaticano, na Cidade do Panamá. Ali permaneceu até se render, em 3 de janeiro de 1990, cercado por tropas americanas e por um simbolismo difícil de ignorar: um chefe de Estado acuado num espaço diplomático, aguardando o desfecho inevitável.

Foi levado aos Estados Unidos, julgado e condenado. O Panamá seguiu em frente. O Canal permaneceu seguro. A pedagogia foi aplicada.

Trinta e seis anos depois, o enredo reaparece com cenário diferente, mas figurino idêntico.

Em 3 de janeiro de 2026, a Venezuela assume o papel de ameaça hemisférica. O personagem principal agora é Nicolás Maduro. O vocabulário é tão familiar que dispensa legenda: narcoestado, tráfico, ditadura, colapso democrático.

A personalização do problema volta a ser central. Não se discute estrutura econômica, nem disputa monetária, nem energia. Discute-se o homem. Remove-se o homem. Resolve-se o “problema”.

Os dados inconvenientes ficam, como sempre, fora do enquadramento. A Venezuela responde por uma fatia modesta da cocaína consumida nos Estados Unidos. Não há provas de que Maduro lidere organizações terroristas internacionais. Mas a precisão nunca foi critério decisivo para grandes cruzadas morais.

O que realmente mudou foi o incômodo estratégico. Caracas passou a vender petróleo fora do dólar, a buscar caminhos financeiros alternativos e a flertar com um mundo em que o lema não declarado — o petróleo é nosso — já não funciona com a mesma autoridade.

Esse detalhe, claro, raramente aparece nos discursos oficiais.

Talvez por isso o bloqueio à Venezuela venha acompanhado de um aparato impressionante: porta-aviões nucleares, caças F-35 furtivos, sistemas de vigilância de última geração e armamento digno de guerras entre potências globais. Diante disso, surge uma dúvida quase ingênua: qual seria a quantidade de cocaína que Nicolás Maduro estaria exportando para consumo para uma legião de viciados americanos para justificar tamanho empenho militar?

Se a lógica fosse proporcional, a Venezuela teria de abastecer sozinha toda a América do Norte — com sobra para exportação. Caso contrário, trata-se apenas do uso de tecnologia bélica de ponta para enfrentar um problema que jamais foi resolvido, nem com metade desse arsenal, dentro do próprio território americano.

O método, porém, segue coerente.

Primeiro, um aliado ou tolerado torna-se inconveniente. Depois, constrói-se um vilão moralmente absoluto. Em seguida, crimes universais ocupam o centro do discurso. Por fim, a intervenção surge como necessidade ética. O debate estrutural desaparece.

Panamá e Venezuela estão separados por 36 anos e quase pelo mesmo dia do calendário. A coincidência pode ser acidental. A repetição do método, não.

Nada disso absolve Noriega ou transforma Maduro em símbolo democrático. Apenas expõe algo mais simples: a moral, nesses casos, funciona melhor como narrativa do que como causa.

E quando a narrativa insiste tanto no mesmo refrão, talvez seja porque a letra nunca mudou. No fundo, ela continua bastante clara — e perigosamente antiga: It ‘s our oil!

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