Por Marcelo Rossoni
Em 17 de março de 1861, a península itálica deixou de ser apenas um mosaico de reinos, ducados e territórios sob influência estrangeira para se transformar em um Estado unificado. O novo país surgia do movimento histórico conhecido como Risorgimento, processo político que reuniu diferentes regiões sob uma mesma coroa e deu origem ao moderno Estado italiano.
A conquista política, entretanto, não trouxe prosperidade imediata. A Itália que emergia daquela unificação era um país pobre, marcado por profundas desigualdades regionais, uma economia rural frágil e milhões de camponeses sem acesso à terra.
Em muitas regiões — especialmente no sul — a vida era dura. Faltavam empregos, terras cultiváveis e perspectivas de ascensão social. Para incontáveis famílias, restava apenas uma alternativa: partir.
Essa atmosfera de transformação e decadência social foi retratada com extraordinária sensibilidade no romance Il Gattopardo, escrito por Giuseppe Tomasi di Lampedusa e posteriormente adaptado para o cinema no clássico O Leopardo, dirigido por Luchino Visconti.
Ambientado na Sicília durante o processo de unificação italiana, o filme reúne um elenco memorável: Burt Lancaster, no papel do príncipe Fabrizio de Salina; Alain Delon, interpretando o jovem Tancredi; e Claudia Cardinale, como Angelica.
A obra, considerada um dos grandes clássicos do cinema europeu, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1963 e permanece como uma das representações mais elegantes do período da unificação italiana.
Entre os momentos mais celebrados da produção está a longa sequência do baile no palácio aristocrático, frequentemente citada por críticos como uma das cenas mais memoráveis da história do cinema.
Hoje o filme pode ser encontrado em plataformas digitais de aluguel ou streaming, como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play Movies, onde costuma estar disponível para locação.
Em uma das passagens mais marcantes da obra, Tancredi pronuncia uma frase que atravessou décadas e se tornou um dos diálogos mais célebres da história do cinema:
“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”
Da frase nasceu uma expressão que se tornaria famosa na política italiana: gatopardismo — termo utilizado para descrever mudanças aparentes que, na prática, preservam as estruturas de poder existentes.
Mas enquanto a aristocracia discutia o destino da nova Itália, milhões de italianos enfrentaram uma realidade muito mais dura.
Sem trabalho, sem terra e sem perspectivas, passaram a olhar para o mar.
Assim teve início uma das maiores diásporas da história moderna.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, milhões de italianos deixaram aldeias e pequenas cidades rumo a outros continentes. Navios carregados de famílias partiram em direção às Américas em busca de uma vida possível.
O Brasil tornou-se um dos principais destinos desse movimento humano.
Entre aproximadamente 1870 e 1920, cerca de 1,5 milhão de italianos desembarcaram no país. Muitos foram trabalhar nas lavouras de café em São Paulo. Outros foram direcionados para colônias agrícolas no sul do Brasil. No Espírito Santo, os primeiros grupos chegaram em 1874 e ajudaram a formar comunidades que ainda hoje preservam fortes traços da herança cultural italiana.
Entre esses emigrantes estava Carlo Baptiste Rozzoni, meu avô. Ele passou por Santa Teresa antes de se estabelecer em Sagrada Família, localidade que posteriormente daria origem ao município de Itaguaçu, no Espírito Santo. Ali construiu sua família ao se casar com Melânia Casagrande Frizzera, uma dos 23 filhos do também imigrante italiano Camilo Frizzera.
Histórias como essa repetiram-se milhares de vezes.
Esses imigrantes trouxeram mais do que braços para o trabalho. Trouxeram valores familiares, técnicas agrícolas, hábitos comunitários e uma cultura que acabou se enraizando profundamente em diversas regiões brasileiras.
Hoje estima-se que cerca de 30 milhões de brasileiros tenham algum grau de ascendência italiana — a maior comunidade de origem italiana fora da própria Itália.
No meu caso, a cidadania italiana sequer chegou a ser uma possibilidade jurídica. Minha descendência italiana se dá por linhagem feminina, e eu nasci antes de 1948. Pela legislação italiana tradicional, filhos de mulheres italianas nascidos antes dessa data não transmitiam automaticamente o direito à cidadania. Apenas aqueles nascidos após 1948 passaram a ter esse reconhecimento.
Confesso que isso jamais me causou incômodo. No fundo, a cidadania representaria apenas um certo status simbólico — e talvez um passaporte de capa grená que facilita a circulação pela Europa.
Mas o vínculo com a Itália nunca dependeu de documentos.
Já estive no país diversas vezes com minha família. Conheço bem as mais importantes localidades do norte próspero da Itália, suas cidades organizadas e sua história preservada em cada praça, em cada igreja, em cada rua de pedra que parece guardar séculos de memória.
Em uma dessas viagens, quando estávamos em Roma, levei minha família para jantar em um dos lugares mais emblemáticos da gastronomia romana: o tradicional Il Vero Alfredo, considerado um verdadeiro ícone da culinária italiana e conhecido mundialmente pelo famoso fettuccine Alfredo.
Curiosamente — e contrariando o que muitos imaginam — jantar ali pode sair mais barato do que em vários restaurantes da Praia do Canto, em Vitória. Acredite.
Experiências como essa apenas reforçam algo simples: o vínculo com a Itália não se mede por um passaporte.
De vez em quando me perguntam por que falo tanto da Itália ou por que gosto tanto daquele país.
A resposta é simples.
Meu coração é de lá.
Talvez por isso o debate sobre negar reconhecimento aos bisnetos de italianos espalhados pelo mundo não seja apenas uma questão jurídica.
Para muitos de nós, trata-se também de memória, identidade e pertencimento.
Porque, mesmo quando os documentos não existem, as raízes continuam existindo.
Há nisso uma certa ironia histórica. O país que um dia viu milhões de seus filhos partir agora discute limitar o reconhecimento de seus descendentes espalhados pelo mundo.
A lembrança do velho ensinamento de Tancredi, no clássico O Leopardo, volta então à memória — a ideia de que, muitas vezes, mudanças aparentes servem apenas para preservar aquilo que já existia.
Talvez a história esteja apenas repetindo uma antiga lógica italiana.
Mesmo assim, para quem carrega essa herança familiar, a ligação com a Itália continua existindo.
Porque, no fim das contas, documentos podem até faltar.
Mas as raízes permanecem.