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Idiota, agradeça aos Bolsonaros

01/08/2025 00:01
Idiota, agradeça aos Bolsonaros
*Por Marcelo Rossoni

A partir de hoje, 1º de agosto, muitos produtos brasileiros que chegarem aos portos dos Estados Unidos serão recebidos com um aperto caloroso de 50% em tarifas. O aço enferruja antes de sair do navio, e a carne — bom, essa nem cruza a alfândega sem ser retalhada em impostos. E você aí, patriota convicto, que vestiu verde e amarelo e sonhou com um Brasil soberano, pode parar de culpar o "sistema", o STF, o Lula, a esquerda, a imprensa, os comunistas ou a Madonna. Não foi nenhum desses que assinou o aperto. Foi um Bolsonaro. Mais precisamente, o garoto propaganda da sabotagem nacional: Eduardo, o filho Zero Três. Aquele que, diferentemente do que parece, ainda é deputado federal (embora esteja mais nos Estados Unidos do que no plenário).

Com sua conhecida aptidão para política externa — que já incluiu comparações ao AI-5 e flertes com a ideia de ser embaixador nos EUA com base no inglês fluente e nas fritadas de hambúrguer —, Eduardo Bolsonaro resolveu dar mais um passo no jogo de xadrez internacional. Só que, como é tradição familiar, jogou com as peças do adversário e mordeu a própria rainha. Conseguiu o que poucos diplomatas jamais sonharam alcançar: uma retaliação tarifária massiva, vinda diretamente da Casa Branca, assinada com o selo “Make Bolsonaro Free Again”. Não é todos os dias que um deputado brasileiro convence o presidente dos Estados Unidos a sancionar o Brasil inteiro só para salvar o pai de uma cadeia.

A história é mais simples do que parece. Trump, em sua segunda encarnação presidencial, viu uma chance de pagar uma dívida política com o clã Bolsonaro — aquele mesmo que o tratou como salvador, patriarca espiritual e modelo de governo. Enquanto Jair é julgado por tentativa de golpe, fraude eleitoral e por quase transformar o Brasil numa república das bananas (sem o direito de exportá-las), Eduardo se mudou para Washington como um verdadeiro diplomata informal da impunidade. Deu entrevistas, participou de fóruns trumpistas, apertou a mão de Steve Bannon com mais frequência do que a de qualquer eleitor paulista, e espalhou aos quatro ventos a ideia de que o Brasil vive uma ditadura judicial e que Bolsonaro é vítima, não réu.

Deu certo. Ao menos no plano da desgraça. Trump ouviu o apelo, tomou as dores e decidiu, com seu habitual espírito de estadista, que o melhor caminho para proteger a “democracia” era taxar todos os produtos importados por eles. Porque nada grita “liberdade” como ferrar com os exportadores do país que você quer ajudar. Resultado: uma tarifa de 50% sobre tudo que tenha carimbo brasileiro. Se o seu agronegócio era “pop”, agora virou “pó”.

E é aí que entra a parte mais deliciosa da ironia: o agronegócio, tão bravo, tão patriótico, tão devoto. Aqueles mesmos senhores do campo, com a boca cheia de soja e os bolsos cheios de isenção, que vibravam com as motociatas, gritando “mito, mito” quando viam Bolsonaro passar no asfalto rachado, agora mordem a língua e engolem o prejuízo. O mesmo setor que jurava que “não existe agro sem Bolsonaro” está prestes a descobrir que pode não existir agro sem acesso ao mercado americano. E que mito, nesse caso, virou sinônimo de tiro no próprio pé — um tiro disparado de Harley-Davidson.

Claro, não se trata de um bloqueio econômico formal. Isso exigiria mais seriedade. Trata-se de uma represália travestida de política comercial, embalada no pacote retórico da perseguição política. Trump justificou os impostos dizendo que o governo Lula persegue Bolsonaro, e que as instituições brasileiras — leia-se Supremo Tribunal Federal — são intolerantes com opiniões diferentes. Já Eduardo, entre um podcast e outro, celebrou discretamente. Afinal, se o Brasil sangra, mas o pai respira, valeu o preço.

O problema é que ninguém mais achou que valeu. O Itamaraty soltou nota de repúdio. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, que não é exatamente um reduto lulista, classificou a medida como “inaceitável e irracional”. O Congresso, em raro momento de união, debateu até mesmo se Eduardo violou o decoro parlamentar ao fazer lobby contra o próprio país em nome da família. Nas redes sociais, a revolta só não foi maior porque muitos ainda acreditam que o verdadeiro inimigo é o sancionado Alexandre de Moraes e não o sujeito que está literalmente usando influência internacional para provocar uma crise diplomática.

Você, aí, que acreditou na narrativa da salvação nacional, pode agora colher os frutos. Ou melhor, ver os frutos apodrecerem nas prateleiras dos galpões de exportação. Pode agradecer enquanto vê o dólar subir, a inflação ameaçar dar um pulinho no mercado, e os EUA trocando fornecedores brasileiros por argentinos, colombianos ou vietnamitas. Pode agradecer também enquanto empresários apertam os cintos, demitem, e a cadeia produtiva treme. Afinal, tudo isso faz parte do plano maior: salvar o mito. Não importa se o país vai junto pro buraco — desde que o bunker tenha ar-condicionado e Wi-Fi em Miami.

Talvez o mais irônico de tudo seja ver o próprio Bolsonaro, que sempre se vendeu como defensor da soberania nacional, virar símbolo de uma intervenção externa grotesca. É como se, no fim das contas, a soberania só valesse enquanto favorecesse a família. Quando não serve mais, chama o Trump, aciona o exército digital e que se dane o Brasil. E o mais triste é ver que ainda há quem bata palmas. Gente que se diz patriota enquanto assiste ao enfraquecimento da economia nacional como se fosse revanche. Gente que acha que a cadeia não pode receber um ex-presidente, mas o país inteiro pode receber uma rasteira internacional.

E aqui estamos. Em 1º de agosto de 2025, o dia em que a lealdade ao clã Bolsonaro custou caro. O dia em que se viu, com todas as letras, que o Brasil virou refém de uma disputa judicial pessoal. O dia em que um deputado federal brasileiro, eleito com dinheiro público, trabalhou mais pelos interesses de outro país do que pelo seu. Mas claro, tudo em nome da família, da pátria e da liberdade.

Então, se você sentir no bolso o preço dessa “patriotada”, se vir sua empresa perder contratos, se notar que seus produtos encalharam, faça um favor a si mesmo: não culpe os outros. Não diga que foi o governo, nem os juízes, nem a China, nem a esquerda. Não diga que foi azar ou geopolítica. Seja justo. Honesto. Direto. Olhe para cima, respire fundo e diga: obrigado, família Bolsonaro. Porque, idiota, a culpa é deles. Mas quem vai pagar — de novo — é você.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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