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Guerra dos bonés e o resgate dos piratas do Atlântico 

24/07/2025 00:02
Guerra dos bonés e o resgate dos piratas do Atlântico 
*Por Marcelo Rossoni
Se a história nos ensinou alguma coisa, é que piratas do Atlântico prosperavam à sombra de bandeiras — sejam elas da Inglaterra, Espanha ou de Portugal — à espreita de navios carregados de especiarias, ouro prata e pau-brasil. Pois bem, em pleno século XXI, essas imagens ecoam de novo, desta vez em forma de tarifas protecionistas de até 50 % sobre os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. Com efeito imediato em commodities como café, suco de laranja, carne bovina, soja e papel, a medida evoca mais do que velhas histórias marítimas: é uma extorsão econômica à moda corsária.No centro do furacão, em 9 de julho de 2025, o presidente Donald Trump anunciou taxação de 50 % sobre importações brasileiras, a vigorar em 1º de agosto, justificando a manobra como resposta ao “perseguido político” Jair Bolsonaro e comparando o julgamento a uma “caça às bruxas”. A reação da diplomacia tupiniquim foi rápida: em Brasília, Lula declarou que “o Brasil não aceitará qualquer forma de tutela” e prometeu retaliações proporcionais, respaldadas pela recém aprovada Lei de Reciprocidade Comercial. Alerta nas planícies exportadoras: o agronegócio bolsonarista treme. Também estão de pernas bambas e diarreia os setores como aço e alumínio, já sob tarifas menores, sentem as reverberações.É uma tempestade perfeita: suco de laranja tem suas exportações previstas caindo de 1 bilhão para meros 261 milhões de litros, e a carne processada pode ver 17.000 toneladas a menos sendo embarcadas. Os produtores contemplam gráficos em queda — literalmente — nas margens de lucro. A política “pré-canalha” comercial dos EUA soa tão brusca quanto um canhão de proa, e o efeito na renda e no emprego acende luzes vermelhas por aqui.Se os escolhidos para governar importam mais do que suas ações, o que dizer das vestimentas? Por toda parte, surgem os símbolos: o boné vermelho “MAGA” desponta no estilo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que usou a peça como se fosse crachá político — e, coincidentemente ou não, pouco antes de uma suposta articulação com o STF para liberar Bolsonaro a viajar aos EUA e discutir tarifas diretamente com Trump. O episódio transborda: trata-se de risco de disrupção institucional, ao dar sinais de interferência partidária sobre o Judiciário — colocando a custo do interesse público uma suposta vantagem diplomática para o ex-presidente.Em resposta, do outro lado da arena, os bonés azuis estampam “O Brasil é dos brasileiros”. Tricotados no movimento petista, eles contestam a estética Make America Great Again (MAGA) com insinuações de soberania nacional, construindo, enfim, um duelo simbólico que abrange não apenas os valores, mas também seus adereços. E como se não bastasse a guerra dos bonés, São Paulo ganhou mais um episódio ridículo: o prefeito Ricardo Nunes, agora Richard, mandou iluminar a sede da prefeitura com as cores da bandeira americana — nada menos que vermelho, branco e azul –, num gesto que lembra manifestação de apoio simbólico aos Estados Unidos e atraiu tanto elogios quanto críticas. Se a intenção era demonstrar parceria diplomática, o efeito foi o oposto para muitos que viram no ato uma espécie de condecoração visual a um país que impõe tarifas que equivalem a castigo econômico.Enquanto isso, na arena federal, Lula adota postura mais equilibrada: evita o confronto direto — ainda que firme —, mantém contato com Washington, mas reafirma que o Brasil não será cabresto de pressões externas. Enaltece-se a independência das instituições e defende-se a Lei da Reciprocidade com a leviandade de quem sabe que, desta vez, o termo “reciprocidade” não é mero enfeite, mas a resposta à altura ao que foi classificado pelo governo brasileiro como “extorsão simbólica — e real.”Entre aplausos em cafés, sítios e faixas de estrada, parte da opinião pública saudou as tarifas como “excelente medida de alinhamento ideológico” — sinalizando admiração pela “visão trumpista” ou fidelidade a Bolsonaro. O problema? Ignorância política líquida e negligência com a lógica real do comércio internacional: não se trata de posição partidária, mas de impacto real em renda, empregos, geração de valor. Em se tratando de tarifas de 50 %, a retórica ideológica não apaga a matemática.Se no passado os corsários exigiam propinas em alto-mar, hoje Trump exige “propinas comerciais” em forma de tarifas. Tarcísio, com seu boné com a inscrição trompista Make America Great Again (MAGA), tentou negociar nos bastidores do STF — quase como um lobo de gabardine num covil de leões —, enquanto o prefeito de São Paulo apelou à simbologia luminosa para abraçar possíveis favores ou afagos dos ignorantes que percebem o que está por vir. Tudo isso reforça: a política do mundo de hoje não difere muito daquela vista nos navios saqueadores do Atlântico.No fim das contas, o que está em jogo não é só disputa comercial, mas narrativa simbólica: quem manda na história — e quem manda no futuro do Brasil. E, como poderia dizer um hipotético velho capitão de um robusto galeão espanhol, é preciso mais do que bonés e bandeiras iluminadas para governar sem naufragar. Afinal, a próxima tempestade, quando vier, não será na cobertura do boné, seja ele na cor vermelha ou azul— e sim na conta bancária, no emprego e no legado real que fica — e não no palco simbólico.Enquanto um bando de vira-latas aplaude, o outro lado ensaia o grito: Yankee go home!

 

*Marcelo Rossoni é jornalista
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