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Generais não marcharam por um capitão

02/08/2025 08:57
Generais não marcharam por um capitão
*Por Marcelo RossoniO Brasil atravessou, nos últimos anos, um dos períodos mais tensos de sua história democrática recente. A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, em 2019, trouxe para o centro do governo uma retórica de confronto institucional, nostalgia da ditadura militar e questionamentos recorrentes à legitimidade do processo eleitoral. O auge dessa escalada foi o 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas radicais invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Para muitos, aquilo foi o desfecho de uma tentativa de golpe que vinha sendo gestada há meses. No entanto, apesar das articulações e da mobilização popular, o golpe não se concretizou. E um dos fatores cruciais para essa contenção foi a postura ambígua — mas, no final, prudente — das Forças Armadas. Como sintetizou um observador atento: o golpe não se perpetrou porque general não se arriscaria para manter no poder um capitão.Essa frase, que circula entre analistas políticos e militares da reserva, revela mais do que uma ironia de patente. Ela aponta para um elemento estruturante da relação entre os militares e o poder político: a hierarquia, o corporativismo e a autopercepção da caserna como garantidora da estabilidade institucional. Bolsonaro, embora egresso do Exército, deixou a corporação pela porta dos fundos, após um processo disciplinar nos anos 1980. Sua carreira política foi construída com base no discurso militarista, mas sem o respaldo efetivo da alta oficialidade — ao menos não de forma unânime e comprometida.Durante seu governo, Bolsonaro ampliou significativamente a presença de militares da ativa e da reserva na administração pública. Estima-se que mais de 6 mil militares ocuparam cargos civis entre 2019 e 2022, o maior número desde a redemocratização. Ministérios estratégicos, como Saúde e Minas e Energia, foram entregues a generais. A retórica bolsonarista buscava associar-se à imagem de ordem, disciplina e patriotismo atribuída às Forças Armadas. No entanto, essa aproximação revelou fissuras internas: enquanto setores da reserva embarcaram no projeto de poder do presidente, a ativa manteve uma postura mais cautelosa, ciosa de não comprometer a imagem da instituição.Ao lado da militarização do governo, uma outra força silenciosa e poderosa foi sendo ativada: a mobilização religiosa. Fiéis de igrejas evangélicas foram estimulados por pastores com posturas políticas radicalizadas, muitos dos quais se comportavam como verdadeiros aiatolás em seus púlpitos, transformando a fé em ferramenta de guerra cultural. Esses líderes religiosos fomentaram uma narrativa de “batalha espiritual” entre o bem e o mal, em que Bolsonaro era apresentado como o escolhido por Deus e seus adversários, especialmente da esquerda, como agentes do maligno. A linguagem religiosa foi instrumentalizada para produzir engajamento cego, com orações públicas contra as urnas eletrônicas, jejuns pelo retorno do capitão ao poder e pregações inflamadas contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Tal envolvimento ajudou a criar um ambiente emocionalmente carregado, em que política e religião se fundiram num messianismo autoritário. O ponto de inflexão se deu nas eleições de 2022. Derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro não reconheceu formalmente o resultado. Refugiou-se no silêncio, incentivou dúvidas sobre as urnas eletrônicas e permaneceu nos Estados Unidos enquanto seus apoiadores organizavam manifestações golpistas. Durante esse período, surgiram evidências de que alguns militares de alta patente, tanto do Exército quanto da Aeronáutica, foram consultados ou pressionados a apoiar uma ruptura institucional. Havia, segundo investigações da Polícia Federal, planos para a decretação de um estado de sítio e a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas esses planos não saíram do papel.A razão para isso é multifacetada. Em primeiro lugar, as Forças Armadas, apesar de algumas demonstrações de simpatia ao bolsonarismo, não funcionam como um bloco monolítico. Há divergências internas, disputas de prestígio e uma forte preocupação com a preservação da imagem da instituição. Em segundo lugar, após quatro anos de governo, muitos oficiais perceberam que o projeto de Bolsonaro era personalista e improvisado, sem uma estratégia de Estado clara — um risco alto demais para um apoio golpista. E, por fim, pesou o cálculo institucional: uma ruptura democrática isolaria o Brasil internacionalmente, provocaria sanções e colocaria os militares sob risco de responsabilização judicial.Esse freio interno foi decisivo. Em meio ao caos do 8 de janeiro, a reação das Forças Armadas foi, no mínimo, ambígua. No Quartel-General do Exército, em Brasília, acampamentos golpistas foram tolerados por semanas. Generais demoraram a se pronunciar, e o comando da Força evitou confronto direto com os manifestantes. Ainda assim, não houve adesão ativa à tentativa de golpe. O generalato, em sua maioria, optou por não embarcar na aventura autoritária do capitão reformado. Era o limite institucional que, mesmo com todas as pressões, não foi transposto.A consequência dessa contenção é paradoxal. Por um lado, evitou-se o pior: a ruptura do regime democrático e a instalação de um governo de exceção. Por outro, revelou-se o grau de fragilidade das instituições diante de uma liderança disposta a corroê-las por dentro. A participação de militares no governo Bolsonaro não foi neutra nem inocente. Ela ampliou a politização da caserna e colocou em xeque a distinção entre o poder civil e o militar. Da mesma forma, o engajamento político de lideranças evangélicas — muitas das quais abandonaram a prudência pastoral em nome de um ativismo de guerra cultural — evidenciou o risco de instrumentalização da fé como arma política.O governo Lula, em seu terceiro mandato, tem buscado reposicionar as Forças Armadas como instituições de Estado, não de governo. Isso inclui a nomeação de comandantes comprometidos com a legalidade democrática, a revalorização do Ministério da Defesa como instância civil e o fortalecimento da atuação do Congresso e do Judiciário na supervisão da política militar. No campo religioso, há também esforços para reabrir canais de diálogo com setores evangélicos moderados, isolando os extremistas que atuaram como pontes para o golpismo.A lição que fica do episódio golpista fracassado é clara: a democracia brasileira resistiu, mas não sem abalos. Ela depende, ainda, da vigilância constante da sociedade civil, da firmeza das instituições e da clareza dos limites constitucionais. Generais não marcharam com o capitão, mas não por convicção democrática plena — e sim por cálculo, hierarquia e autopreservação. O futuro da democracia depende de mais do que isso: exige compromissos, não apenas freios.*Marcelo Rossoni é jornalista
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