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Fuga ou resgate, eis a questão!

07/11/2026 08:37
Fuga ou resgate, eis a questão!

Por Marcelo Rossoni

“To be, or not to be, that is the question.”  Foi assim que William Shakespeare, no terceiro ato, primeira cena de Hamlet, colocou na boca do príncipe da Dinamarca uma das mais célebres indagações da literatura universal. Ser ou não ser, eis a questão. Hamlet estava atormentado pela dúvida, dividido entre suportar as adversidades e enfrentar aquilo que o destino lhe reservara. Não lhe ocorreu procurar um aeroporto. Naquela época, naturalmente, não existiam aviões executivos.

Quatro séculos depois, Flávio Bolsonaro, candidato derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 25 de outubro, resolveu um problema semelhante de maneira bastante prática. Deixou o Brasil, atravessou a América do Sul e desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, acompanhado da mulher e das duas filhas.

A viagem, realizada entre os dias 27 e 28 de outubro, teria sido apenas mais um deslocamento internacional de uma família brasileira, não fosse uma particularidade: Flávio estava proibido pelo Supremo Tribunal Federal de deixar o país. Seus passaportes brasileiros haviam sido cancelados e uma ordem judicial determinava a entrega dos documentos, inclusive os de outras nacionalidades.

Na segunda-feira, 26, ele afirmou publicamente que permaneceria no Brasil, entregaria os passaportes e enfrentaria as investigações. Na quarta-feira estava na Flórida.

Mudou de ideia, evidentemente.

O que ainda não se sabe inteiramente é como conseguiu executar a mudança com tamanha rapidez e quem, afinal, participou da operação.

Há várias versões. Algumas razoavelmente documentadas, outras alimentadas pelas circunstâncias e outras, ainda, pertencentes ao território das especulações. A história tem tantos personagens, aeronaves, veículos e documentos que, se fosse apresentada a um produtor de Hollywood, provavelmente receberia a recomendação de reduzir o elenco.

Comecemos pela Argentina.

Segundo o jornal Clarín, a saída de Flávio teria contado com apoio de pessoas próximas ao presidente Javier Milei. Santiago Caputo, assessor influente do governo argentino, esteve em Puerto Iguazú, cidade de onde partiu a aeronave que transportou o senador para o Equador e, posteriormente, para Miami.

O periódico argentino foi além. Relatou que Milei teria determinado a participação de seu assessor e que representantes norte-americanos atuaram nos preparativos, inclusive na contratação de aviões particulares. Uma das reportagens mencionou até aeronaves extras, preparadas para eventuais dificuldades.

Se tudo isso for confirmado, não estaremos diante de uma simples viagem de turismo.

Mas convém não confundir informação publicada com conclusão definitiva. A presença de um assessor presidencial no aeroporto não prova, isoladamente, que seu governo organizou a operação. Talvez o assessor tenha se dirigido ao aeroporto apenas para cumprimentar um passageiro importante em trânsito. É necessário esclarecer quem solicitou a ajuda, quem autorizou os procedimentos e, sobretudo, quem pagou a conta.

A propósito, alguém pagou.

E passagens dessa natureza não costumam aparecer nas promoções das companhias aéreas.

Os Estados Unidos também entraram na história. Reportagens do The New York Times e do The Wall Street Journal atribuíram a Jason Miller, ligado ao círculo de Donald Trump, participação nos preparativos do avião que transportou Flávio. Eduardo Bolsonaro teria mantido contatos com integrantes dessa articulação.

O secretário de Estado Marco Rubio apareceu em outra versão, divulgada pelo investidor Simón Levy, que lhe atribuiu a coordenação da operação. Rubio negou que o governo americano tivesse facilitado a viagem. Trump, por sua vez, autorizou a entrada de Flávio e de sua família nos Estados Unidos.

É perfeitamente possível distinguir duas situações: oferecer acolhimento a um político estrangeiro e organizar sua saída de um país onde existe uma ordem judicial impedindo que viaje.

A segunda hipótese, caso comprovada, teria consequências diplomáticas muito mais sérias.

E a CIA?

Não poderia faltar.

A agência de inteligência americana surgiu nas conversas como possível participante de uma operação clandestina. Fala-se em agentes infiltrados no Brasil, apoio logístico, informações reservadas e recursos utilizados para superar os obstáculos encontrados pelo senador.

O Clarín mencionou a atuação de representantes americanos em território argentino. Isso, porém, não equivale a demonstrar que pertenciam à CIA. Até agora, não há prova pública de que a agência tenha organizado ou executado qualquer parte da viagem.

Não seria a primeira vez que uma história envolvendo governos estrangeiros despertaria suspeitas sobre serviços secretos. Mas existe uma distância considerável entre suspeitar e demonstrar. O jornalismo não pode preenchê-la com imaginação.

A própria passagem pela Argentina oferece perguntas suficientes.

Uma investigação apresentada pelo Fantástico, da TV Globo, revelou que o nome de Flávio apareceu três vezes no sistema migratório argentino, em poucos minutos, associado a documentos diferentes. Dois registros foram posteriormente cancelados. Permaneceu válido aquele relacionado ao passaporte italiano.

Os registros examinados pela reportagem trouxeram outro detalhe. Uma segunda van teria atravessado a fronteira aproximadamente sete minutos antes daquela associada à família Bolsonaro. Entre seus ocupantes estavam um antigo integrante do serviço de inteligência israelense e um advogado que já havia atuado na defesa de Jair Bolsonaro. A presença dessas pessoas não comprova participação em qualquer operação clandestina, embora seja uma coincidência suficientemente curiosa para merecer esclarecimento.

Tenho, entretanto, uma teoria diferente sobre essa movimentação. É apenas uma suspeita pessoal, sem documentos que a comprovem, mas não consigo afastá-la.

Lembram daquela história do coelho solto na floresta para atrair os predadores? Enquanto todos se ocupavam em perseguir o pobre animal, alguma coisa acontecia longe dos olhos dos caçadores. Pois bem. Imagino uma situação semelhante, com uma diferença: no lugar do coelho, um comboio de SUVs pretos, saindo de Brasília em direção à Argentina.

A família de Flávio pode realmente ter feito o percurso por estrada. Não vejo nisso nenhuma contradição. Minha dúvida é se o senador estava entre os passageiros. Parece-me pouco provável que alguém impedido judicialmente de deixar o Brasil aceitasse correr o risco de ser reconhecido durante uma viagem terrestre tão longa, justamente quando sua movimentação despertava enorme interesse.

Suspeito que possa ter escolhido um caminho mais discreto: uma aeronave particular, decolando de algum aeródromo do Centro-Oeste, enquanto a atenção permanecia voltada para os veículos que seguiam rumo à fronteira. Não afirmo que tenha sido assim. Faltam provas. Mas seria uma maneira engenhosa de fazer muita gente procurar na estrada alguém que já poderia estar voando.

E, convenhamos, um comboio de carros pretos chama muito mais atenção do que um avião que decola discretamente de uma pista particular.

É uma hipótese. As investigações dirão se tem algum fundamento. Por enquanto, o coelho continua correndo pela floresta.

Há ainda a situação da Polícia Federal brasileira. A instituição informou não existir registro oficial da saída de Flávio pelos postos de controle migratório do país. Esclareceu também que a proibição de viajar não autorizava automaticamente sua prisão ou vigilância permanente.

Portanto, não se pode simplesmente atribuir aos policiais uma omissão deliberada. É preciso investigar quais informações estavam disponíveis, como funcionaram os controles de fronteira e de que maneira documentos brasileiros cancelados foram utilizados no exterior.

No meio de tantas versões, o próprio protagonista resolveu oferecer a sua.

Na quinta-feira, 5 de novembro, Flávio declarou ao The New York Times que organizou tudo sozinho, sem ajuda de governos ou de outras pessoas. Acrescentou que levará para o túmulo os detalhes de sua saída do Brasil.

É uma revelação extraordinária!

Um homem que afirma ter organizado sozinho uma viagem internacional cercada de circunstâncias tão incomuns considera indispensável manter em segredo a maneira como conseguiu realizá-la.

Talvez esteja preservando colaboradores. Talvez deseje evitar dificuldades para terceiros. Talvez simplesmente prefira alimentar o mistério.

Não sabemos.

Sabemos, entretanto, que uma entrevista concedida em Miami não esclarece as contradições apresentadas por registros migratórios, reportagens internacionais e declarações de autoridades.

Flávio sustenta que sofre perseguição política. Nega irregularidades e tem o direito de contestar as investigações, apresentar sua defesa e recorrer das decisões judiciais. São garantias constitucionais que precisam ser respeitadas, inclusive quando o investigado é adversário do governo.

A questão política, porém, é outra.

Durante a campanha presidencial, apresentou-se como líder capaz de conduzir o país, enfrentar adversários e defender seus seguidores. Depois da derrota, anunciou que permaneceria em território brasileiro para comandar a oposição.

Pouco depois, estava a milhares de quilômetros.

Seus partidários podem chamar o episódio de resgate. A palavra sugere que alguém, em situação de perigo, foi retirado por terceiros para um lugar seguro. Seus adversários preferem fuga, expressão menos gloriosa e bastante mais incômoda.

A Justiça terá seus próprios critérios para avaliar os acontecimentos. A Polícia Federal ainda precisa concluir a investigação sobre o descumprimento das determinações judiciais.

Mas a avaliação política não depende exclusivamente dessas conclusões.

Um líder pode ser derrotado. Pode enfrentar processos, injustiças e até perseguições. A história registra inúmeros exemplos de homens que precisaram abandonar seus países para preservar a própria vida. O exílio, nessas circunstâncias, não constitui covardia.

O que merece exame é a distância entre o discurso e a conduta.

Quem promete ficar, enfrentar os problemas e conduzir seus seguidores assume um compromisso que não desaparece simplesmente porque a situação se tornou desagradável.

A coragem política não se mede pelo volume da voz nos palanques. Muito menos pela quantidade de bandeiras agitadas pelos admiradores. Mede-se, também, no instante em que o discurso deixa de ser conveniente.

Flávio Bolsonaro poderá tentar organizar a oposição brasileira a partir de Miami. Os recursos tecnológicos permitem reuniões, discursos e transmissões em tempo real. Não precisará sequer enfrentar os inconvenientes de uma conexão telefônica internacional.

Talvez tenha sucesso.

Mas continuará existindo uma pergunta que nenhuma transmissão pela internet conseguirá eliminar: se pretendia liderar a resistência política no Brasil, por que foi embora justamente quando anunciou que ficaria?

Volto a Shakespeare.

Hamlet conhecia o medo, as hesitações e as consequências de suas escolhas. Sua grandeza literária nasceu precisamente desse conflito humano. Não era um personagem destituído de dúvidas. Era alguém obrigado a conviver com elas.

Na política, entretanto, a dúvida não deveria servir de pretexto para transferir aos outros o peso das decisões que um líder prometeu assumir.

Fuga ou resgate? Eis a questão.

As investigações poderão esclarecer quem preparou os aviões, quem facilitou os deslocamentos, quais governos efetivamente participaram e de onde saiu o dinheiro.

Até lá, permanece uma constatação incômoda.

Flávio Bolsonaro prometeu ficar. Foi embora.

Hamlet precisou de cinco atos para consumar sua tragédia.

O senador resolveu a sua em menos de dois dias.

E, ao contrário do príncipe dinamarquês, desembarcou em Miami.


Marcelo Rossoni é jornalista, escritor, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


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