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Fé negociada, riqueza questionada, e Spinoza com seu Deus

26/09/2025 00:37
Fé negociada, riqueza questionada, e Spinoza com seu Deus
*Por Marcelo RossoniNa minha última contagem, a Rodovia Serafim Derenzi, em Vitória (ES), abrigava nada menos que 26 igrejas evangélicas ao longo de sua extensão. Em média, uma a cada 300 metros. Em um país onde farmácias se multiplicam como formigas e botecos são parte da paisagem afetiva, essa densidade de templos chama atenção.O curioso, porém, não é apenas a quantidade, mas o conteúdo: promessas de prosperidade, curas milagrosas, restauração de casamentos, solução de processos judiciais e, não raro, a garantia de uma vaga reservada no céu — tudo isso disponível, claro, mediante contribuição voluntária, que de voluntária tem pouco. Prega-se um Deus que, aparentemente, terceirizou sua agenda espiritual para um grupo seleto de empresários da fé. A salvação, agora, aceita cartão ou PIX.Esse fenômeno não é novo, mas vem ganhando camadas cada vez mais sofisticadas. Pastores com perfis públicos nas redes sociais, lives de orações com chave Pix fixada na tela, testemunhos editados como comerciais de TV e, claro, as famosas “campanhas” financeiras — em que o fiel é instruído a “semear” uma quantia em dinheiro que será recompensada com juros e correção divina.O dízimo virou investimento, e Deus, uma espécie de gerente de banco celestial. A lógica é clara: você dá, Ele devolve. E se não devolver, o problema é você, que não teve fé suficiente. O problema nunca é o sistema, apenas a sua crença. Parece justo, não?No entanto, essa transação celestial levanta questões que vão além do escárnio fácil. Porque não se trata apenas de rir da credulidade alheia — o que seria, aliás, uma forma arrogante de ateísmo. Trata-se de perceber como a fé virou um produto de massa, embalado em linguagem de autoajuda, com gosto de coaching e cheiro de marketing multinível. E diante disso, talvez valha a pena revisitar um nome esquecido nas homilias modernas: Baruch de Spinoza, filósofo do século XVII, nascido em Amsterdã em 24 de novembro de 1632, filho de uma família de judeus sefarditas portugueses que fugiram da Inquisição e se estabeleceram nos Países Baixos.Spinoza foi educado na tradição judaica, mas logo começou a questionar os dogmas e a autoridade das Escrituras. Suas ideias — entre elas a de que Deus não era um ser pessoal, e de que os textos bíblicos deveriam ser lidos com olhar crítico, histórico e filosófico — lhe renderam a excomunhão definitiva da comunidade judaica aos 23 anos.Ele foi alvo de um herem, termo hebraico que designa uma espécie de maldição ou banimento religioso, equivalente a uma excomunhão total. O herem aplicado a Spinoza foi dos mais severos já registrados: proibido de ter contato com qualquer membro da comunidade, considerado morto em vida, e amaldiçoado em público por líderes religiosos. Um cancelamento do século XVII, sem redes sociais — mas com bastante ódio. O herem seria algo semelhante à LeiMagnitsky daquela época.Após sua expulsão, Spinoza recusou cargos acadêmicos e viveu de forma modesta como polidor de lentes ópticas, profissão que provavelmente lhe causou a tuberculose que o matou precocemente, aos 44 anos, em Haia, no dia 21 de fevereiro de 1677. Durante esse tempo, produziu uma obra densa, rigorosa e ousada. Em sua filosofia, Deus não é um senhor barbudo no céu anotando pecados e contabilizando ofertas. Para Spinoza, Deus é a própria Natureza — uma substância única, infinita, eterna, que é causa de si mesma e de tudo o que existe. Tudo o que somos e tudo o que vemos é Deus se manifestando.Ele sintetizou essa ideia na fórmula latina "Deus sive Natura", que significa literalmente “Deus, ou seja, a Natureza”. Um conceito simples, mas revolucionário: Deus não está fora do mundo, observando de longe. Deus é o mundo — suas leis, sua matéria, sua lógica interna. Não há milagres, não há castigos, não há privilégios: há apenas consequências naturais de causas naturais. A espiritualidade, para Spinoza, não está em esperar o impossível, mas em compreender o que é real.Difícil imaginar Spinoza pregando em um desses púlpitos com telão de LED, enquanto alguém ao fundo dispara em glossolalia — termo usado para descrever o “falar em línguas”, típico de cultos pentecostais, quando o fiel entra em estado de êxtase e vocaliza sons ininteligíveis, considerados por muitos como uma linguagem espiritual inspirada pelo Espírito Santo. A espiritualidade racional — e radical — do filósofo holandês não combina com campanhas do tipo “7 dias para o milagre do carro novo”. Ele jamais venderia a ideia de um Deus que recompensa com dinheiro quem “tem fé o suficiente para sacrificar seu salário”. Para Spinoza, o sacrifício mais nobre é o da ignorância.É claro que a fé popular tem sua função social. Ela organiza, consola, dá sentido ao caos. O problema não está em acreditar, mas no que se faz com essa crença. A instrumentalização da fé, sua conversão em negócio e sua transformação em moeda de troca espiritual é o que mais se aproxima, eticamente, de um estelionato divino. Quando pastores passam a agir como CEOs de empreendimentos religiosos e tratam fiéis como acionistas emocionais, a figura de Deus se apequena — não por essência, mas por uso.Esse fenômeno, muitas vezes chamado de teologia da prosperidade, sustenta que a fé verdadeira se manifesta por meio do sucesso material: quanto mais abençoado, mais rico; quanto mais rico, mais “provado” está o seu pacto com Deus. Assim, a pobreza vira sinal de pecado ou de falta de fé. É uma lógica perversa, mas altamente lucrativa — especialmente para os que ficam no topo da pirâmide espiritual.Spinoza, por outro lado, propõe um caminho mais difícil, porém mais honesto: entender Deus como a ordem das coisas, não como o jeitinho para driblá-las. O universo não gira em torno do seu desejo, nem da sua oferta. Ele gira porque é isso que ele faz, obedecendo a leis que não dependem da fé, mas da estrutura do próprio ser. Isso pode parecer seco, mas também pode ser libertador. Afinal, se não há um plano secreto, tampouco há uma dívida espiritual pendente. Não é preciso comprar o céu. E, francamente, se ele estivesse mesmo à venda, já teria sido parcelado em 12 vezes sem juros.Num país onde há mais igrejas do que livrarias e onde a teologia da prosperidade parece ter mais adesão que o SUS, talvez seja mesmo hora de resgatar vozes como a de Spinoza. Não para destruir a fé alheia, mas para lembrar que fé não precisa ser ingênua, nem servir de desculpa para enriquecer às custas da esperança dos outros. Pensar é um ato espiritual também. E um Deus que não teme perguntas talvez seja o único realmente digno de ser chamado assim.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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