Em plena ditadura militar, o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues lançou, com a acidez que o consagrou, uma expressão que atravessaria décadas: a “esquerda festiva”. Eram, para ele, os jornalistas, artistas, os cabeludos, e intelectuais que denunciavam os generais entre drinques e colunas de jornal, mas que jamais pisavam no chão batido das periferias. Com seu conservadorismo ruidoso, Nelson via nesses personagens um teatro ideológico confortável, encenado por quem jamais abandonava os salões da Zona Sul do Rio de Janeiro.Conheci Nelson nos anos 1970, quando trabalhava em O Globo. Todo dia, por volta das quatro da tarde, ele passava pela redação e, como quem não quisesse nada, filava um cigarro de um maço que eu deixava displicentemente ao lado da máquina de escrever. Tirava apenas um — nunca dois — e ia fumar no banheiro, onde se recolhia por alguns minutos, como se ali fosse seu confessionário. Era uma figura silenciosa, mas quando escrevia, deixava sua marca com a força de um raio. Suas crônicas misturavam futebol, teatro, sexo e política como ninguém. E sua crítica à “esquerda festiva” vinha carregada de ironia, mas também de um diagnóstico incômodo: a militância de salão, feita por quem amava mais o aplauso que o risco.Hoje, o Brasil é outro, mas a crítica resiste — apenas trocou de forma. De um lado, a esquerda que sobrevive nos coletivos universitários, nos festivais de cinema e nos stories engajados nas redes sociais. Fala em corpos dissidentes, justiça climática — causas reais, inegociáveis. Mas muitas vezes faladas em jargões que alienam, numa linguagem mais voltada à autoafirmação do que à comunicação com o Brasil profundo. A performance substitui o trabalho político, e o gesto simbólico vale mais que a construção lenta e contraditória da transformação social.Do outro lado, a “direita gourmet” marca presença. Não é a extrema-direita raivosa e antissistema, mas sim uma nova classe de liberais bem-apessoados, que orbitam personalidades como João Doria e seus encontros impecavelmente organizados, que tem a frequente presença daquele ex-presidente do Banco Central, defensor de uma proposta indecente: o congelamento do mísero salário mínimo pelo período de seis anos. É a direita de brunch e painel, que fala de meritocracia entre cafés especiais, e vê a desigualdade como um problema de gestão — não como uma ferida histórica. Elegante no trato e fluente em inglês, defende cortes de gastos com a suavidade de quem lê o Financial Times com os pés na areia de Trancoso.A esquerda festiva, que prefere charutos cohiba para se colocar no mesmo plano do comandante Fidel, usufruindo do melhor produto cubano, e a direita gourmet, por mais que se opunham no plano do discurso, compartilham o mesmo ponto cego: o distanciamento do Brasil real.Ambas pensam o país a partir de seus próprios espelhos. Uma acredita que “hashtags” e camisetas com slogans revolucionários bastam. A outra imagina que o futuro se resolve com planilhas, indicadores e CEOs inspiradores. Nenhuma das duas parece disposta a ouvir a voz dos que realmente carregam o país nas costas — e que raramente são convidados para as festas ou os fóruns onde se decide o rumo da política nacional.Nelson Rodrigues, com sua verve demolidora, provavelmente teria criado hoje uma expressão complementar para essa direita de gravata fina e pensamento empacotado: talvez a “direita prosecco”, ou a “direita lifestyle”, que não suja as mãos, mas limpa os próprios discursos com as mãos lavadas do mercado. Ele, que nunca teve medo de chamar a classe média de "burra", talvez enxergasse nessa elite bem-falante apenas uma nova encarnação do velho medo de mudança — agora vestido com palavras importadas.A verdade incômoda é que, enquanto a política for pensada de dentro das bolhas, não há discurso que chegue ao coração do povo. O Brasil que madruga para trabalhar, que vive com o auxílio emergencial, segue ausente da imaginação política desses dois pólos. E é nesse vácuo que crescem os populismos, os ressentimentos e as respostas autoritárias. Porque, no fim das contas, quem não é ouvido, grita. E quem não é representado, vota no grito.A esquerda festiva se olha no espelho e se acha virtuosa. A direita gourmet se olha no espelho e se acha competente. Mas o espelho, por definição, só reflete quem já está diante dele. O Brasil real continua fora do quadro.Tim, tim!