Por Marcelo Rossoni
Na política, como na vida, existem atalhos que levam ao destino e outros que terminam em uma rua sem saída. Apoios políticos costumam abrir portas, aproximar aliados e render fotografias sorridentes. O problema é que existe uma etapa da jornada sobre a qual nenhum líder exerce controle absoluto: o momento em que o eleitor fica sozinho diante da urna.
Talvez por isso a sucessão estadual de 2026 mereça uma observação mais cuidadosa do que aquela oferecida pelas análises apressadas dos bastidores.
Uma coisa é votar em Paulo Hartung.
Outra, bastante diferente, é votar no candidato apoiado por Paulo Hartung.
A afirmação parece simples, mas ajuda a compreender uma das questões centrais que começam a surgir no horizonte político capixaba.
Isso não diminui a importância do ex-governador. Nem a de Lorenzo Pazolini.
Na verdade, acontece exatamente o contrário.
Poucos personagens da política estadual construíram uma trajetória comparável à de Paulo Hartung. Economista formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, iniciou sua caminhada pública ainda nos anos da redemocratização. Foi deputado estadual, deputado federal, prefeito de Vitória, senador da República e governador por três mandatos.
Durante mais de quatro décadas esteve presente nos momentos decisivos da política capixaba. Participou de disputas, enfrentou crises, formou governos e ajudou a escrever capítulos importantes da história administrativa do Estado.
O tempo passou, os cargos ficaram para trás, mas a influência permaneceu.
Seu nome continua circulando com desenvoltura pelos corredores da política, pelas salas empresariais e pelos ambientes onde decisões relevantes costumam ser tomadas. Em uma época em que algumas lideranças desaparecem na mesma velocidade com que surgem, Hartung segue ocupando um espaço raro: o de figura cuja opinião ainda provoca repercussão antes mesmo de ser anunciada.
Mas o cenário atual possui uma peculiaridade.
O principal nome da oposição não é um estreante tentando encontrar um lugar ao sol nem alguém dependente de um sobrenome político para se tornar competitivo.
Lorenzo Pazolini chegou a esse ponto por um caminho próprio.
Formado em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo, passou pelo Tribunal de Contas do Estado antes de ingressar na Polícia Civil como delegado. Mais tarde veio a experiência parlamentar como deputado estadual. Depois, a Prefeitura de Vitória.
Foi ali que sua projeção deixou de ser municipal.
Ao longo de sua administração, a capital passou por transformações urbanas perceptíveis. Obras, recuperação de espaços públicos, melhorias na infraestrutura, investimentos em educação e modernização administrativa contribuíram para consolidar uma imagem de gestor eficiente.
Naturalmente, nenhum governante atravessa uma gestão sem críticas. Isso simplesmente não existe. Mas mesmo os adversários costumam reconhecer que Vitória mudou de aparência durante esse período.
E talvez seja exatamente por isso que a sucessão estadual não possa ser tratada como uma disputa entre um gigante político e um candidato dependente de circunstâncias favoráveis.
O quadro é mais complexo.
Hartung representa uma das biografias mais influentes da política capixaba contemporânea.
Pazolini representa uma liderança que alcançou protagonismo a partir de uma trajetória construída em etapas sucessivas no serviço público, na atividade policial e na administração municipal.
São histórias diferentes.
São gerações diferentes.
São estilos diferentes.
E justamente por isso a comparação desperta interesse.
Nos bastidores há quem aposte no peso das alianças. Outros acreditam que a avaliação das gestões terá papel mais relevante. Alguns enxergam um confronto entre experiência e renovação.
Pode ser!
Mas a política tem um velho costume de debochar das certezas produzidas pelos especialistas.
Os mais antigos talvez se lembrem de quantas vezes a política capixaba resolveu ignorar previsões consideradas infalíveis. Algumas análises envelheceram mais rápido que sorvete deixado ao sol de janeiro na Praia de Camburi.
Não foram poucas!
Em praticamente toda eleição aparece alguém disposto a explicar por que determinado candidato seria imbatível, por que certa aliança teria tornado a disputa irreversível ou por que o resultado já estaria definido antes mesmo do início da campanha.
Normalmente, a urna escuta tudo em silêncio.
E depois faz o que bem entende.
Talvez seja por isso que os políticos mais experientes tratem pesquisas com respeito, mas nunca com devoção. Pesquisa é fotografia. E fotografia registra apenas um instante. Não revela necessariamente o que acontecerá alguns meses depois.
A política se parece mais com um filme.
E filmes costumam guardar surpresas para os minutos finais.
No fim, existe um personagem que continua sendo o verdadeiro dono da história.
O eleitor.
É ele quem ouve os discursos, acompanha as pesquisas, observa alianças, compara currículos e mede resultados.
Mas também é ele quem frequentemente produz resultados capazes de surpreender candidatos, marqueteiros e institutos de pesquisa ao mesmo tempo.
Pelo menos na maior parte das vezes.
Porque a política brasileira possui algumas peculiaridades.
Existem eleitores que formam opinião na associação de moradores. Outros preferem as conversas do condomínio, da padaria, do grupo de amigos ou da mesa de almoço de domingo.
Esse eleitor costuma ser difícil de colocar em currais.
Currais, vale lembrar, foram feitos para organizar rebanhos. O eleitorado, ao menos em teoria, deveria ser um pouco mais imprevisível.
Mas eis que a realidade aparece para complicar a teoria.
Existe um universo eleitoral onde a campanha nem sempre começa no diretório partidário, no instituto de pesquisa ou na agência de publicidade.
Às vezes ela faz uma parada estratégica no púlpito.
Nesse ambiente, apoios religiosos podem se tornar tão valiosos quanto alianças partidárias. Mudam os personagens, mudam os cenários e mudam os instrumentos de influência. O fenômeno, porém, continua surpreendentemente parecido.
Naturalmente, ninguém entrega seu voto por procuração. A urna permanece secreta, segura e auditável. A escolha continua individual.
Mas imaginar que determinadas lideranças religiosas não exercem influência relevante sobre parcelas expressivas do eleitorado seria um exercício de ingenuidade política digno de estudo acadêmico.
Por isso, enquanto alguns estrategistas passam madrugadas analisando pesquisas e cruzando números, outros talvez estejam atentos a uma pergunta muito mais simples.
O que pensa o pastor?
Dependendo da resposta, determinados sermões poderão produzir mais efeitos eleitorais do que muitos programas partidários cuidadosamente elaborados por especialistas.
É uma realidade que Paulo Hartung conhece.
É uma realidade que Lorenzo Pazolini conhece.
E é uma realidade que qualquer candidato competitivo ao trono do Palácio Anchieta precisará levar em consideração.
Talvez por isso a frase inicial continue fazendo sentido.
Uma coisa é votar em Paulo Hartung.
Outra, bastante diferente, é votar no candidato apoiado por Paulo Hartung.
Entre uma situação e outra existe um território onde nem a influência dos ex-governadores, nem a força das administrações bem avaliadas, nem a criatividade dos marqueteiros exercem soberania absoluta.
Esse território pertence ao eleitor.
E ele continua sendo o personagem mais imprevisível da política brasileira.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.