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Embrapa e Plano Safra são os pilares ignorados do sucesso do agro

15/08/2025 00:02
Embrapa e Plano Safra são os pilares ignorados do sucesso do agro
*Por Marcelo Rossoni   Por mais que o agronegócio brasileiro goste de exibir seus números superlativos — recordes de produção, exportações bilionárias, protagonismo mundial na produção de grãos e proteínas —, é impossível dissociar esse sucesso de duas estruturas fundamentais, frequentemente esquecidas (ou convenientemente ocultadas) pelos porta-vozes do setor: a Embrapa e o Plano Safra. A primeira, um dos maiores orgulhos da ciência pública nacional, foi responsável por alavancar a produtividade do campo. O segundo, um conjunto de políticas de crédito e incentivo articuladas pelo Estado, garante ano após ano a sustentabilidade econômica da atividade agrícola. Sem elas, o Brasil agrícola não passaria de uma promessa. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, é um exemplo de como o investimento público em ciência gera dividendos econômicos e sociais. Fundada em 1973, em plena ditadura militar, a empresa se tornou sinônimo de inovação no campo. Desenvolveu cultivares adaptadas ao cerrado — território antes considerado improdutivo —, técnicas de plantio direto, sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta, entre outros avanços que revolucionaram a agricultura tropical. Sem a Embrapa, o milagre agrícola brasileiro jamais teria acontecido. Não fosse a inteligência acumulada em seus centros de pesquisa, o Brasil ainda dependeria da importação de tecnologias agrícolas desenvolvidas para climas temperados — absolutamente ineficazes sob o nosso sol escaldante e nossas chuvas tropicais. Em vez de safras recordes, teríamos colheitas incertas, baixa produtividade e insegurança alimentar. O que muitos empresários do agro fingem ignorar, porém, é que essa estrutura de pesquisa é pública. É financiada por todos os brasileiros. São cientistas pagos com dinheiro do Estado — e não do mercado — que desenvolvem as tecnologias que hoje sustentam o agronegócio. Essa é uma das maiores contradições do setor: enquanto vocaliza uma defesa ferrenha do “livre mercado” e da “desestatização”, usufrui diariamente dos frutos de uma empresa estatal. O mesmo se aplica ao Plano Safra, política pública lançada anualmente pelo governo federal com o objetivo de garantir crédito, seguro rural e incentivos para custeio e investimento. Em 2024, por exemplo, o plano previu R$400 bilhões em recursos para produtores rurais. Esses recursos são oferecidos a juros subsidiados, com apoio do Tesouro Nacional. Ou seja: trata-se de mais um subsídio estatal ao setor que diz querer menos Estado. É nesse ponto que a crítica se torna necessária — e, por que não dizer, urgente. Uma parte expressiva do empresariado rural brasileiro se opõe de maneira sistemática ao atual governo federal, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, por razões estritamente ideológicas. Muitos se recusam até mesmo a dialogar com ministérios que cuidam diretamente de seus interesses, como o da Agricultura e o do Desenvolvimento Agrário. A motivação não é técnica, mas política. Para esses empresários, qualquer aproximação com um governo de viés progressista é vista como rendição. Esse comportamento é não apenas contraproducente, mas francamente ingênuo. Ao hostilizarem o governo federal, esses atores colocam em risco justamente as estruturas que sustentam seus negócios. A Embrapa, mesmo com todo seu histórico de excelência, precisa de orçamento, equipamentos, pessoal qualificado. O Plano Safra exige articulação institucional, crédito subsidiado, segurança jurídica. Não se constrói tudo isso sob ataques ideológicos ou com a demonização do Estado. Ao contrário: isso exige diálogo, cooperação e compromisso com o interesse público. É preciso, portanto, que o setor rural brasileiro faça uma autocrítica profunda. O agronegócio não existe por mérito exclusivo do mercado. Ele é fruto de décadas de planejamento estatal, de ciência financiada com recursos públicos e de políticas agrícolas coordenadas pelo Estado brasileiro. Fingir o contrário é uma falácia perigosa, que ameaça as bases da segurança alimentar do país. Os empresários do agro precisam compreender que investir em pesquisa pública, apoiar políticas de crédito e dialogar com governos democraticamente eleitos não os enfraquece — ao contrário, os fortalece. É hora de superar a cegueira ideológica e reconhecer que, sem Embrapa e sem Plano Safra, não haveria sucesso, nem liderança global, nem “agro pop”. Ignorar essa realidade não é apenas injusto com as instituições que sustentam o campo. É também um tiro no pé de quem pretende continuar colhendo bons frutos.   *Marcelo Rossoni é jornalista
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