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Em Minas Gerais, as barragens de rejeitos são ameaças eternas

27/02/2026 08:59
Em Minas Gerais, as barragens de rejeitos são ameaças eternas

Por Marcelo Rossoni


Minas Gerais entrou em 2026 com a repetição de uma cena que se tornou desconfortavelmente familiar. Vazamentos e extravasamentos em estruturas ligadas à mineração voltaram a atingir cursos d’água na região central do Estado, envolvendo sistemas de contenção de água e sedimentos em áreas minerárias de municípios como Congonhas e Ouro Preto. Não houve rompimento catastrófico nem vítimas fatais, mas houve carreamento de material, suspensão de atividades, interdições pontuais e um esforço imediato para enquadrar os episódios como eventos operacionais controlados. A insistência nessa classificação diz muito sobre o modelo de gestão do risco adotado no setor.

Os vazamentos recentes não ocorreram em barragens clássicas de rejeitos, mas em estruturas auxiliares. A distinção técnica, embora relevante do ponto de vista da engenharia, perde força quando observada sob a ótica ambiental e social. Para populações que vivem a jusante dessas áreas, a diferença entre lama tóxica e água carregada de sedimentos é menos importante do que a repetição do medo. A água turva nos rios, a interrupção de captações e o reaparecimento de protocolos emergenciais ativam memórias ainda abertas desde Mariana e Brumadinho.

O caráter recorrente desses episódios afasta a explicação da fatalidade. Fatalidades são eventos isolados, imprevisíveis. O que se vê em Minas é um padrão de funcionamento no limite: estruturas que operam sob tensão permanente, fiscalização que reage mais do que previne e decisões empresariais orientadas por margens de custo aceitáveis. Quando há morte, fala-se em tragédia. Quando há apenas vazamento, fala-se em incidente. Em ambos os casos, o risco já estava presente.

O rompimento de Brumadinho foi o ponto de inflexão que expôs, de maneira incontornável, a falência da narrativa do acaso. A responsabilização criminal de executivos e a discussão judicial sobre a aceitação consciente do risco colocaram o desastre no campo das escolhas humanas, não dos acidentes naturais. A tragédia não ocorreu porque uma estrutura falhou sem aviso, mas porque alertas foram relativizados, laudos foram tratados como escudos e a operação seguiu até o colapso.

Mariana, quase uma década depois, ainda ecoa. O desastre deixou de ser apenas um caso brasileiro e passou a ser discutido em instâncias internacionais, o que reforça a compreensão de que não se tratou de um evento local mal explicado, mas de um problema de governança corporativa e institucional. A permanência dos danos ambientais e a lentidão das reparações aprofundaram a percepção de que o sistema interno não foi suficiente para dar respostas plenas às vítimas.

É nesse cenário que os vazamentos recentes ganham importância analítica. Eles demonstram que, apesar dos discursos pós-Brumadinho, o modelo de controle permanece frágil. O Estado de Minas Gerais, responsável pelo licenciamento e pela fiscalização direta, reage quando a água escapa, mas raramente antecipa a pressão que se acumula nos sistemas. A dependência econômica da mineração em diversos municípios cria um ambiente em que o rigor preventivo é constantemente pressionado pela necessidade de manter a atividade funcionando.

No plano federal, o quadro não é mais alentador. A política nacional de segurança de barragens avançou no papel, mas segue apoiada em um sistema de autodeclaração e auditorias contratadas pelas próprias empresas. Os vazamentos de janeiro escancararam essa contradição: todas as estruturas estavam formalmente regulares até o momento em que deixaram de conter o que deveriam conter. A regularidade burocrática não impediu o dano ambiental.

A controvérsia envolvendo o Supremo Tribunal Federal reforça a dimensão política do problema. Ao sustentar que acordos firmados no Brasil poderiam impedir vítimas e entidades de recorrer a tribunais internacionais, o STF buscou afirmar a suficiência do sistema interno. A decisão, no entanto, foi interpretada como um movimento de contenção institucional, mais preocupado em encerrar litígios do que em ampliar garantias. Em um contexto de enorme assimetria entre grandes corporações mineradoras e comunidades atingidas, restringir caminhos jurídicos não fortalece a soberania; enfraquece a proteção.

Os acordos de reparação são necessários e produzem efeitos concretos, mas não resolvem o núcleo do problema. Eles tratam consequências, não causas. Transformam crimes e falhas estruturais em cronogramas de obras, programas e desembolsos. Enquanto isso, a lógica de tolerância ao risco permanece praticamente intacta.

Os vazamentos recentes mostram que a história ainda está sendo escrita. Eles não são anomalias, mas sinais de continuidade. A lama pode não ter descido com a violência de antes, mas o sistema que a produz segue operando com a mesma lógica. Tratar esses episódios como incidentes menores é perder a chance de aprender com o passado.

Não se trata de azar, excesso de chuva ou imprevisibilidade técnica. Trata-se de escolhas repetidas, feitas sob o silêncio de quem deveria impedir que a água voltasse a escorrer. E escorreu de novo. 

Marcelo Rossoni é jornalista


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