E havia um carro de entrega estacionado no meio da rua
23/09/2025 07:31
*Por Marcelo RossoniDizem que morar na Praia do Canto é um privilégio. O bairro ostenta um dos metros quadrados de construção mais caros do país e é vitrine da sofisticação capixaba, com restaurantes badalados, apartamentos que disputam cada palmo de vista para o mar e carros importados circulando como bicicletas. O orgulho do morador vem acompanhado, claro, do IPTU mais salgado do município — verdadeiro pedágio para ter o CEP mais valorizado da cidade. Mas, como todo lugar com muita história e movimento, a Praia do Canto tem seus desafios. O bairro, ao contrário do que muitos pensam, não sofre com falta de vagas para estacionamento. Há muitas — a maioria regulamentada e paga. O que exige do motorista não é paciência, mas a carteira, já que estacionar por ali tem custo.A exceção é a icônica Avenida Saturnino de Brito, onde o estacionamento ainda é livre. Não por acaso, é nessa mesma avenida que se alinham alguns dos endereços mais disputados da cidade: apartamentos amplos, de frente para o mar, com vista eterna — e valorização garantida.As calçadas, com seus desníveis discretos e remendos improvisados, transformam um simples passeio em um exercício de atenção. Batizadas de “cidadãs”, ainda esperam cumprir seu papel com mais dignidade. Para quem tem mobilidade reduzida, empurra um carrinho de bebê ou se locomove em cadeira de rodas, o trajeto às vezes exige um pouco mais de cuidado — mas nada que tire o charme do bairro.Já o trânsito tem lá suas cenas típicas de cidade grande com alma de vila. Não é raro ver um carro de entrega estacionado em fila dupla no meio da rua, enquanto o entregador corre para cumprir sua rota apertada. Pequena infração que virou rotina — talvez por falta de uma orientação mais presente ou de espaços reservados com mais critério. E quem passa por ali já sabe: buzina não resolve, mas respirar fundo ajuda.A sensação de segurança também oscila conforme o horário. Durante o dia, o bairro pulsa, cheio de vida. À noite, fica mais reservado, exigindo do pedestre atenção ao caminhar — nada muito diferente de outras áreas urbanas com grande circulação.O que preocupa, mesmo, são os furtos pontuais de fios: o cobre virou artigo disputado, e até os cabos de fibra óptica — que não têm valor comercial — acabam sendo danificados por usuários em busca de qualquer coisa que pareça aproveitável. Quando falta luz ou internet, o bairro todo sente.Na semana passada, o autor deste texto foi vítima de uma tentativa de assalto. Para azar do meliante — e talvez sorte do cronista — a abordagem foi interrompida por um cruzado de direita no pé do ouvido. Um gesto involuntário, movido mais pelo reflexo do medo do que por qualquer ambição pugilística. O assaltante, que provavelmente esperava um celular, encontrou um soco. Fugiu sem o aparelho e com uma nova história para contar. E o cronista, ainda ofegante, ficou ali, entre a adrenalina e a ironia: pagar o IPTU mais caro da cidade e ainda precisar improvisar uma defesa pessoal na esquina.A delegacia, que poderia ser um ponto de referência da tranquilidade, parece seguir horário de funcionamento próprio. Nos fins de semana, desaparece como restaurante requintado que fecha às segundas. Perguntar o nome do delegado é quase um jogo de adivinhação. Há quem diga que ele existe, sim, mas só aparece na folha de pagamento.Enquanto isso, o bairro mantém seu charme e suas peculiaridades. Um exemplo? O ritual do desfile noturno. Motoristas de carros passam lentamente pelas avenidas mais movimentadas, vidros abaixados, mesmo com o ar-condicionado funcionando perfeitamente. Não é por calor, claro — é para exibir a máquina e, quem sabe, serem vistos naquela curva de status onde o estilo importa tanto quanto o motor.E o IPTU, claro, nunca atrasa. O boleto chega pontualmente, mesmo que a iluminação da rua atrase um pouco ou que a calçada desafie a passada. O morador paga com esperança, torcendo para que um dia o serviço público acompanhe o valor do carnê. Até lá, vai desviando de um buraco aqui, reorganizando a internet ali, e sorrindo com a leve ironia de quem escolheu viver num dos bairros mais desejados da cidade.No fim das contas, morar na Praia do Canto é também um exercício de otimismo. Acredita-se que o imposto é investimento, que os problemas são passageiros, que o charme do bairro vale cada centavo. A Praia do Canto, arrabalde chique de Vitória, continua sendo o lugar onde o metro quadrado é ouro, o fio de cobre também, e a esperança — essa sim — continua firme, segurando o poste da EDP, já com a ferragem exposta e enferrujada à mostra, a calçada e a paciência.*Marcelo Rossoni é jornalista