*Por Marcelo RossoniZezé Di Camargo resolveu falar. E falou como quem acredita que o microfone é território livre, sem pedágio nem fiscalização. Não foi uma crítica política lateral, dessas que artistas soltam entre uma música e outra para parecerem informados. Foi um pronunciamento carregado, pensado para repercutir e, sobretudo, para deixar claro que ele não gostou — nem um pouco — do convite e da presença do presidente Lula na inauguração do SBT News.O tom escolhido não foi o da discordância civilizada. Foi o do ataque. Zezé reagiu de forma agressiva ao convite e à presença do presidente Lula na inauguração do SBT News, transformando o evento em alvo de acusações e ataques verbais. Argumento elaborado passou longe. Contextualização histórica, também. O que sobrou foi a indignação performática, daquelas que dispensam nuance e apostam na palavra forte como substituto do raciocínio.No vídeo divulgado em suas redes sociais, o cantor disse observar “o que vinha acontecendo no SBT” e garantiu que aquilo “não fazia parte do seu pensamento”. Até aí, opinião pessoal. Mas Zezé resolveu não parar por aí. Subiu o tom, apertou o verbo e entregou a frase que passou a circular com vida própria: “Amo vocês, amo o SBT, tenho o maior carinho, mas acho que vocês — desculpem — estão se prostituindo. Então, não faço parte disso.”A palavra não foi escolhida por acaso. “Prostituindo” não é exatamente um sinônimo delicado de discordância. E fica ainda mais curiosa quando lançada contra uma emissora que opera por concessão pública, ou seja, depende de autorização do próprio Estado que o cantor resolveu demonizar. A contradição ficou no ar, pairando como um detalhe irrelevante — tratado com o mesmo cuidado que se dedica a uma nota fora do tom em show beneficente.A reação veio rápido. O vídeo correu as redes com entusiasmo. Parte do público vibrou, confundindo grosseria com franqueza. Outra parte apontou o machismo explícito e o ataque institucional. No Brasil atual, a agressividade virou, para alguns, prova de autenticidade.A primeira-dama Janja Lula da Silva resolveu lembrar o óbvio. Classificou a fala como machista e misógina e destacou que usar esse tipo de linguagem para atacar mulheres em posições de poder não é figura de estilo, mas sintoma. Um sintoma antigo, reincidente e bem conhecido.O SBT respondeu com sua nota padrão, aquele texto que diz tudo sem dizer nada. Reafirmou o respeito à liberdade de expressão e explicou que opiniões pessoais não refletem, necessariamente, a posição institucional da emissora. É o famoso número da televisão brasileira: abre-se o palco, liga-se o microfone, garante-se a audiência e, depois, lava-se as mãos com água morna.Como se fosse preciso reforçar o gesto, a emissora tratou de reorganizar seus sinais. Pouco depois da presença de Lula e do ministro Alexandre de Moraes na inauguração do SBT News, abriu espaço para o senador Flávio Bolsonaro no programa do Ratinho — apresentador que já demonstrou diversas vezes sua ojeriza pública ao presidente Lula. O convite foi imediato, confortável, sem perguntas inconvenientes. Soou como desagravo televisivo: uma piscadela para o público certo, no horário certo.E a internet não perdoa. Às vezes chega a ser cruel! A memória nacional resolveu colaborar. Um vídeo antigo de Zezé voltou a circular. Silvio Santos apresenta quatro números e pergunta qual deles, multiplicado por ele mesmo, resulta em 49. Zezé ri, hesita e solta a confissão eterna: “Não sou muito bom de matemática”. Pede para passar. À época, curiosidade. Hoje, metáfora pronta, dessas que dispensam legenda.Veio então a decisão editorial. O especial de Natal que seria apresentado por Zezé foi discretamente retirado da grade. Em seu lugar, entrou um episódio inédito de Chaves. Nada mais coerente. Chaves é previsível, seguro, neutro e não xinga concessões públicas. Comunica-se com clareza, sem exigir esforço interpretativo — qualidade que, aliás, sempre funcionou muito bem na obra musical de Zezé.Convém registrar: Zezé Di Camargo não é um figurante da música brasileira. É um dos grandes personagens do sertanejo, cantor de musicalidade reconhecida e compositor de sucessos que atravessaram gerações. “É o Amor” não virou hit por acaso. Suas canções se caracterizam por letras de linguagem direta, que dispensam grandes exercícios de reflexão para que a mensagem seja plenamente compreendida. Emoção pronta, sentimento explicado, refrão entregue sem bula.O problema é que, fora da música, essa fórmula costuma falhar. Clareza excessiva vira simplificação. Convicção vira ataque. E a palavra mal escolhida vira prova contra quem a pronuncia.Às vésperas do Natal, enquanto o SBT se organizava para trocar o cantor pelo menino da vila, ninguém precisou pensar muito para entender o recado. Não houve conspiração, censura ou perseguição. Houve escolha. Houve fala. Houve resposta.A televisão seguiu seu curso, como sempre segue. O episódio virou arquivo. Mas a cena ficou. Porque, diferentemente da música, onde o refrão se repete até virar sucesso, na política cada frase dita em voz alta cobra seu preço. E, desta vez, a conta não foi cantada em coro, não teve bis, nem pedido de mais uma.O microfone foi desligado. E a pergunta permaneceu, incômoda, sem melodia de fundo e sem chance de passar para a próxima: e agora, Zezé?