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Do padrão libra ao dólar furado

13/08/2025 00:02
Do padrão libra ao dólar furado
*Por Marcelo RossoniEra uma vez um império onde o sol nunca se punha e onde uma certa moeda, a libra esterlina, brilhava com mais intensidade do que qualquer pepita de ouro. Os bancos em Londres eram templos sagrados do capitalismo, e seus senhores, tão refinados quanto inflexíveis, não hesitavam em cobrar juros até de colônias em ruínas. Mas veio a Segunda Guerra Mundial — e junto dela, a conta.Em 1944, com as bombas ainda ecoando na Europa, 44 países se reuniram na pacata cidade americana de Bretton Woods, no estado de New Hampshire, para redesenhar a economia global. Era preciso botar ordem no galinheiro. E foi aí que, numa típica jogada de faroeste, o xerife do novo mundo sacou mais rápido: o dólar.A libra, coitada, cansada e desacreditada, teve que entregar a estrela de xerife. A Inglaterra, que havia resistido à blitz nazista, não tinha forças para resistir ao charme do Tio Sam. Em vez de gritar “império ou morte! ”, preferiu aceitar um empréstimo de bilhões de dólares, gentilmente oferecido pelos EUA, que vinham salvando o mundo com uma mão e reconstruindo sua hegemonia com a outra.Nascia assim o sistema de Bretton Woods, com o dólar atrelado ao ouro e todas as outras moedas atreladas ao dólar. Uma espécie de Santo Graal monetário, no qual a moeda americana passava a ser a referência suprema — ou, como alguns diriam, o novo gold standard (padrão ouro) com chapéu texano.A libra esterlina, por sua vez, foi elegantemente aposentada. Um pouco de gratidão pela ajuda na guerra, um pouco de realismo político e muita falta de alternativa. Afinal, os britânicos sabiam que a monarquia poderia continuar desfilando chapéus excêntricos em eventos internacionais, desde que não tentasse mais dominar o planeta via câmbio fixo. O Império Britânico? Virou lembrança de almanaque.Durante décadas, o dólar reinou absoluto: meio de pagamento, reserva de valor, régua de medição e, para muitos países em crise, motivo de aflição. Mas todo império tem seu auge — e seu faroeste crepuscular. E é aí que entra nosso dólar furado, com trilha sonora dramática e mocinhos que já não confiam tanto no xerife.Tal qual no filme estrelado por Giuliano Gemma, os tiros começam a voar quando se percebe que aquele que parecia invencível talvez não seja à prova de balas. Dívida pública americana na estratosfera, inflação interna mal resolvida, taxas de juros que desequilibram o planeta e — cereja do bolo — sanções econômicas impostas a torto e a direito, transformando o dólar em arma diplomática. Os BRICS, esse conjunto improvável de potências emergentes, começaram a fazer contas. “Por que continuar usando uma moeda controlada por um país que não nos ouve, mas vive nos cobrando? ” — Pensaram em russo, mandarim, português, hindi e zulu. E assim surgiu a ideia de criar uma moeda própria, só para transações internas, para escapar das garras do dólar justiceiro.O projeto ainda não tem nome oficial — mas nos bastidores, fala-se em R5, uma referência às iniciais das moedas dos países fundadores (Real, Rublo, Rúpia, Renminbi e Rand). Uma proposta ousada, quase cinematográfica, onde os ex-coadjuvantes do sistema financeiro tentam escrever seu próprio roteiro.Há obstáculos de enredo: os países dos BRICS têm políticas econômicas diferentes, níveis de estabilidade variados e, vamos ser honestos, desconfiança mútua em proporções industriais. Ainda assim, o simbolismo é poderoso. Se Bretton Woods foi a cerimônia de coroação do dólar, talvez estejamos hoje assistindo ao começo de seu julgamento moral — aquele momento do filme em que o protagonista percebe que está cercado e que a cidade já não o vê como herói.Diferente de 1944, quando a Grã-Bretanha entregou o trono sem dar um pio (em troca de ajuda para pagar as contas), os BRICS não queriam herdar o império, nem dominar a economia global com uma nova moeda imperial. Eles querem, na medida do possível, descentralizar o poder. Tentar viver num mundo onde ninguém tenha que pedir permissão para comprar ou vender arroz porque Washington decidiu sancionar um vizinho.Ainda é cedo para saber se a tal moeda dos BRICS vai sair do papel ou se continuará sendo apenas um manifesto contra o dólar. Mas a simples existência do projeto já indica que o reinado verde pode estar com os dias contados — ou ao menos seriamente contestado.O dólar pode continuar sendo o protagonista do sistema financeiro global, claro. Mas como todo bom personagem de western, já não cavalga sozinho. E talvez, como no clássico dólar furado, descubra que o inimigo não está apenas do lado de fora, mas dentro de casa — no caso, o próprio desgaste da confiança mundial em uma moeda que parece cada vez mais, bem furada.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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