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Do cafetão de plástico ao PIX libertador

27/08/2025 11:13
Do cafetão de plástico ao PIX libertador
*Por Marcelo Rossoni   Os cartões de crédito e débito podem ser descritos como o cafetão mais eficiente que o capitalismo já produziu. Não produzem bens nem serviços tangíveis, não assumem riscos produtivos, mas oferecem a intermediação financeira: um serviço que tem valor, mas cuja remuneração se tornou desproporcional, capturando fatias expressivas da renda de quem realmente trabalha — o comerciante que vende e o consumidor que paga. As taxas falam por si. No débito, variam entre 1,2% e 2,5%. No crédito à vista, ficam entre 2,5% e 5%. No parcelado, alcançam 6% ou mais, e se o lojista quiser antecipar o recebimento, paga ainda mais. Isso significa que, em uma venda de R$100,00 no crédito à vista, o comerciante pode receber apenas R$96,50. Se parcelar em prazos longos, a perda pode ultrapassar R$12,00. Um verdadeiro imposto privado sobre o consumo, recolhido diretamente na boca do caixa, como se o cafetão tomasse sua parte antes mesmo de o trabalhador chegar em casa. Enquanto isso, do outro lado da relação, quem aplica dinheiro em renda fixa descobre a assimetria. Um investidor em CDBs ou Tesouro Selic recebe entre 0,8% e 1% ao mês, enquanto a poupança paga pouco mais de 0,5% em períodos de juros altos. Ou seja, o banco captura de 3% a 6% de cada venda de forma imediata, mas quando alguém lhe empresta dinheiro via aplicação, a devolução é lenta, fracionada e muito menor. A lógica é clara: quem produz e vende paga caro pelo acesso ao sistema, enquanto quem financia o mesmo sistema é remunerado de maneira tímida. A intermediação se revela, assim, mais lucrativa do que a própria atividade produtiva. Esse modelo, que ganhou corpo nos anos 1950, quando cartões de crédito eram vistos como símbolo de status e modernidade, já não se sustenta. Tornou-se obsoleto, ineficiente e excessivamente caro para a sociedade. E foi justamente do Sul Global, onde menos se esperava, que veio o golpe fatal. O Brasil, durante décadas considerado mero consumidor de inovações importadas, criou o PIX, um sistema de pagamento instantâneo, gratuito, seguro e inclusivo. Em poucos anos, ele se tornou o principal meio de transferência e pagamento do país, devolvendo recursos a comerciantes e consumidores e mostrando que a tecnologia pode romper com a intermediação predatória. A analogia é inevitável. A prostituta descobriu que podia trabalhar sem cafetão. O comerciante percebeu que podia receber integralmente pelo que vendeu. O consumidor entendeu que poderia transferir e pagar sem entregar porcentagens ao atravessador. E, como sempre, quando o intermediário perde espaço, o escândalo começa. Não é coincidência que a disciplina Moeda e Bancos, estudada em cursos de Administração e Economia e que moldou gerações de economistas no Espírito Santo sob mestres como o meu sogro, o professor Mário Ferreira do Sacramento, catedrático da UFES, já apontasse para essa assimetria. Clientes, bancos e intermediários sempre se relacionaram de forma desigual. A diferença é que agora a tecnologia mostrou que essa relação desigual não é uma lei da natureza. Pode ser quebrada. E foi nesse cenário que o atual ocupante do trono do império estadunidense, Donald Trump, decidiu agir. Não para defender o consumidor americano, mas para proteger as corporações de cartões e adquirentes, que por décadas lucraram alto no mercado brasileiro. Ao ver o PIX dominar as transações, acusou o Brasil de favorecer o sistema estatal e prejudicar empresas estrangeiras. Em seguida, iniciou uma investigação formal e impôs tarifas pesadas sobre exportações brasileiras, misturando ideologia, política comercial com a tentativa de salvar um modelo de negócios que já entrou em colapso. A disputa revela que não se trata apenas de economia, mas de geopolítica. O PIX não é apenas uma ferramenta de pagamento mais prática: simboliza a possibilidade de um país emergente afirmar sua soberania financeira e tecnológica. Mostra que a inovação não precisa nascer sempre no Norte, e que o Sul também pode criar soluções disruptivas capazes de redefinir setores inteiros. É exatamente isso que incomoda. De um lado, há o velho modelo dos cartões, sustentado por taxas elevadas e uma lógica ultrapassada dos anos 1950. De outro, o PIX, uma infraestrutura estatal moderna, inclusiva e barata, que elimina intermediários e redistribui ganhos para a sociedade. O futuro do dinheiro, portanto, não se resume à tecnologia. É também uma escolha entre modelos de sociedade. Um baseado na captura privada de renda, como fazem os cartões, e outro centrado no benefício coletivo, como propõe o PIX. A reação desesperada do império não é sinal de força, mas de fraqueza. Porque quando até a prostituta decide que não precisa mais do cafetão, não há tarifa, sanção ou ameaça que faça a relação voltar a ser como era.   *Marcelo Rossoni é jornalista
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