*Por Marcelo Rossoni
Em O Poderoso Chefão – Parte III, Havana brilha como cenário de glamour e corrupção: mafiosos brindam, negociam cassinos e assinam contratos de hotéis como quem troca figurinhas.
O filme, inspirado no romance homônimo de Mario Puzo (Nova York, 1920), filho de imigrantes sicilianos, revela a complexidade das relações de poder, lealdade e influência familiar — e, se olharmos para a Havana dos anos 1950, também serve como metáfora perfeita: os mafiosos transformaram a ilha num autêntico puteiro americano tropical, onde luxo, jogos de azar e cabarés conviviam com a política submissa de um ditador complacente.
Mario Puzo, também autor de Os Sicilianos (1984) e O Último Don (1996), consolidou-se como referência na literatura criminal, e sua visão do poder em família ajuda a compreender, com certa ironia, como elites estrangeiras e nacionais conspiravam para transformar Cuba numa Disneyland da ganância.
A vida real era ainda mais caricata. Cassinos de Meyer Lansky, cabarés de Santo Trafficante Jr. — chefe da máfia ítalo-americana em Havana e herdeiro do império criminoso da família na Flórida —, hotéis extravagantes e até um telefone de ouro maciço dado pela ITT, poderosa empresa de telefonia dos EUA, ao presidente Fulgêncio Batista. Para os turistas de Las Vegas, Cuba era Disneylândia adulta com coquetéis caros e prostitutas; para os cubanos, apenas a prova de que seu país havia se tornado um parque temático da lascívia alheia, e Fulgêncio Batista era o gerente simpático, mas totalmente submisso. Tudo isso sob o lema não escrito: “A diversão americana acima de tudo e de todos — e de qualquer moral local”.
Os negócios seguiam roteiro previsível: Miami mandava, Havana obedecia. Mafiosos, empresários e turistas compravam moralidade a prazo, enquanto a população local só podia assistir. A máfia, sufocada pelo FBI nos Estados Unidos, encontrou em Cuba o playground perfeito, onde cassinos e bordéis floresciam como se fossem atrações turísticas oficiais. Cuba se transformou numa espécie de resort da corrupção americana, com mesas de pôquer, champagne e prostitutas como parte do pacote turístico. Era um país gerido para a diversão dos estrangeiros, e não para seus habitantes — um parque temático em que a única atração realmente local era a frustração cotidiana.
Então chegaram os barbudos da Sierra Maestra. Fidel Castro e Che Guevara desceram das montanhas prometendo liberdade, mas entregaram aos cubanos uma revolução que se parecia mais com um aperto de mão firme do que com um abraço caloroso. Chutaram Fulgêncio Batista e seu playground da máfia e instalaram a ditadura do proletariado. A troca foi simples: cafetão fora, bedel severo dentro — sempre com charuto em punho e microfone dobrado.
Fidel não perdeu tempo: confiscou hotéis, cassinos, indústrias e plantações. O resultado? Embargo americano imediato. Washington reagiu como quem descobre que alguém mexeu na conta bancária: fechou portas, cortou cabos, proibiu rum e até soluções criativas de sobrevivência. A ilha passou a ser um alvo econômico, social e cultural, e a hipocrisia americana se revelou em toda a sua glória: reclamar da tirania comunista enquanto celebrava criminosos exilados.
A ironia histórica ficou ainda mais evidente com o talento de Fidel para virar o jogo. Inspirado na Inglaterra, que despejou criminosos da prisão de Newgate — a famigerada penitenciária de Londres de onde a Coroa enviava prisioneiros para colonizar os Estados Unidos no século XVIII —, Fidel exportou seus piores cidadãos para os EUA. Agentes infiltrados organizavam fugas espetaculares: assassinos, ladrões, psicopatas e toda sorte de perturbados mentais atravessaram o mar rumo à Flórida.
A cena era de uma comédia: Cuba se livrando de sua pior escória, enquanto jornais americanos cobriam cada fuga como uma epopeia heroica. Criminosos aplaudidos, recepção com tapete vermelho e manchetes emocionadas. Fidel, certamente, ria no Palácio da Revolução: havia limpado a ilha e ainda exposto a hipocrisia do vizinho rico.
Ao mesmo tempo, os dissidentes que se opunham à Revolução frequentemente enfrentavam punições severas: muitos foram presos ou enviados a campos de trabalho, e alguns — especialmente aqueles envolvidos em conspirações contra o governo — foram fuzilados em Havana, no paredón, como exemplo público da intolerância do regime a qualquer oposição.
Enquanto isso, os cubanos que ficaram aprenderam a sobreviver com criatividade olímpica. Sem combustível, pedalavam bicicletas. Sem remédios, inventaram sistemas de saúde preventiva. Sem dinheiro, mantinham carros dos anos 1950 em circulação como se fossem novos. A penúria virou esporte nacional, a criatividade virou moeda de resistência, e a escassez transformou-se em identidade cultural.
Cada crise era uma aula de improviso: médicos formavam-se rapidamente para atender à falta de remédios; engenheiros transformavam velhos motores em milagres sobre rodas; cozinheiros criavam pratos nutritivos com ingredientes que mais pareciam cenografia de novela.
Cuba tornou-se um paradoxo ambulante: de um lado, censura, vigilância e falta de liberdades; do outro, saúde e educação que fariam corar qualquer país rico. Enquanto vizinhos latino-americanos competiam para criar bilionários, Cuba exportava médicos — e ironicamente, o embargo que pretendia sufocar a ilha transformou-a em símbolo de resistência. Davi batendo boca com Golias, pequeno país sambando na cara da maior potência do planeta.
O bordão de que Cuba era “playground da máfia” já não colava. Mas a caricatura permaneceu, reinventada: para uns, utopia socialista; para outros, grande presídio tropical. Mas impossível era ignorar a ilha que, empurrada contra a parede por mais de meio século, nunca se ajoelhou de vez.
Hoje, turistas em Havana Velha circulam em carros dos anos 1950 — fósseis sobre rodas mantidos milagrosamente vivos — e tiram selfies com o Che em murais descascados. O passado não passou: ele circula, buzinando, soltando fumaça azul e lembrando que a ilha segue quente, barulhenta, caótica e resistente.
Se ontem foi “playground da máfia” e depois “trincheira socialista”, hoje Cuba é a prova viva de que nenhum bloqueio consegue matar a criatividade de um povo. E, no tabuleiro da geopolítica, às vezes a peça mais miúda deixa a rainha em xeque — especialmente quando a rainha tropeça nos próprios saltos altos de hipocrisia.
Brasileiros, aprendam com o exemplo cubano.
Trump vem aí!
Tic, tac, tic, tac, tic...
*Marcelo Rossoni é jornalista