*Por Marcelo RossoniA humanidade não chegou ao século XXI por meio de simpatias caseiras, rezas coletivas ou dietas milagrosas. O salto civilizatório que elevou a expectativa de vida de 30 ou 40 anos, no início do século passado, para mais de 70 anos em boa parte do planeta, deve-se a duas conquistas simples e poderosas: vacinas e saneamento básico. Água tratada e imunização em massa salvam mais vidas do que qualquer promessa de palanque.A cólera e a febre tifoide sumiram quando as cidades aprenderam a lidar com o esgoto, e a varíola foi varrida do mapa por campanhas globais de vacinação. Ainda assim, mais de um século depois, o negacionismo insiste em se manifestar, às vezes com a força de uma epidemia. É como se a ignorância tivesse encontrado novas plataformas para circular: antes era o boca a boca no botequim, hoje são as correntes de WhatsApp com selo de credibilidade duvidoso.O episódio não é novo. Em 1904, o Rio de Janeiro vivia mergulhado em esgoto a céu aberto, com surtos de febre amarela, varíola e peste bubônica. Coube ao sanitarista Oswaldo Cruz a ingrata tarefa de vacinar a população contra a varíola. A lei tornava a imunização obrigatória, autorizando a entrada de agentes de saúde nas casas, muitas vezes acompanhados pela polícia.Não foi difícil transformar a desconfiança em revolta: multidões foram às ruas contra a medida. Ficou conhecido como Revolta da Vacina. Os mesmos que rejeitavam a seringa eram os que sepultavam parentes em caixões improvisados. A ironia é que Oswaldo Cruz acabou vencendo a disputa, não pelo carinho popular, mas pela eficácia da campanha. A varíola, que aterrorizava gerações, foi controlada. E já se passaram exatos 121 anos desde aquele levante — o tempo mudou, mas a resistência às vacinas parece teimar em não envelhecer.Avançamos no calendário, mas certas justificativas atravessam décadas sem perder vigor. Depois de tomar vacinas contra gripe, a Covid-19 e pneumonia, reclamei com uma amiga médica que, ainda assim, havia contraído uma virose. A resposta foi imediata: “Não tomei a vacina da Covid-19 porque ela contamina o útero, os ovários, e ninguém sabe o que está por vir”.Aqui cabe a explicação: não existe qualquer relação entre vacinas contra a Covid-19 e órgãos reprodutivos. A frase foi dita com a convicção de quem anuncia uma revelação divina, mas sem o menor respaldo científico. Foi uma performance digna de prêmio de criatividade, se houvesse categoria específica no Prêmio Nobel de ignorância para delírios pseudocientíficos.Dias depois, em um supermercado, ouvi outra pérola. Perguntei a uma médica conhecida, após cumprimentá-la socialmente, pelo estado de saúde de seu marido, que havia enfrentado problemas cardíacos. Ela respondeu: “Ele está bem, mas os problemas foram consequência de duas doses da Coronavac. Eu, por isso, não tomei nenhuma dose”.Mais uma vez, a tradução é simples: não há evidência científica de relação entre a Coronavac e problemas cardíacos. O que provoca infartos é a soma de fatores como hipertensão, colesterol alto e sedentarismo. Mas para essa narrativa, a culpa cabe ao frasco de vacina. Obstetra e oftalmologista aposentada, duas médicas de currículo, mas em quem não confiaria nem para aferir minha pressão arterial.O desfile de delírios não parou ali. Um amigo, levado às pressas a um hospital na Serra, foi abordado após o atendimento por três médicos. Queriam saber se ele aceitava participar de uma pesquisa sobre supostos efeitos adversos das vacinas contra a Covid-19. O convite soava mais como pescaria de depoimentos do que como ciência em estado puro.Vale lembrar: estudos sérios sobre vacinas seguem protocolos internacionais, revisões independentes e anos de acompanhamento. Não nascem de conversas improvisadas em corredores de hospital. Quem define a segurança dos imunizantes não é a anedota casual, mas a estatística robusta. E a estatística já foi clara: vacinas salvam milhões de vidas.Essas experiências pessoais me transportaram de volta aos dias mais sombrios da pandemia. O então presidente da República transformava em espetáculo sua recusa em comprar vacinas, enquanto o empresário bem sucedido João Doria, governador de São Paulo, em parceria com o Instituto Butantan, corria contra o tempo para viabilizar a Coronavac.Foi essa corrida, e não os discursos inflamados das redes sociais, que evitou um desastre ainda maior. Sem o esforço dos institutos públicos, talvez ainda estivéssemos revezando respiradores como se fossem relíquias. Não foi a retórica das lives, mas a ciência aplicada que manteve de pé milhões de brasileiros.A ironia histórica é cruel. Em 1904, o povo resistia à vacinação porque desconhecia microrganismos e sequenciamento genético e se sentia invadido em seus lares. Hoje, a resistência vem de dentro de hospitais e universidades, travestida de opinião médica. Se antes havia alguma ingenuidade, agora há apenas má vontade em aceitar o óbvio: vacinas salvam vidas.Vacinas e saneamento continuam sendo os maiores responsáveis pela longevidade humana. Foram eles que nos libertaram das covas coletivas, não discursos inflamados nem previsões astrológicas. Ainda assim, há quem trate a imunização como inimiga e água encanada como detalhe irrelevante.O paradoxo é evidente: usamos celulares de quinta geração, fazemos pagamentos por aproximação, acessamos diagnósticos digitais em segundos e, ao mesmo tempo, repetimos que vacinas provocam infartos ou contaminam o útero. A modernidade convive com crenças medievais, e a ironia se torna parte da rotina.Talvez Oswaldo Cruz, se pudesse voltar, não se surpreendesse. Ele que enfrentou barricadas para vacinar a população de uma cidade mergulhada no esgoto, veria, 121 anos depois, profissionais da saúde de jaleco branco reforçando trincheiras do obscurantismo. A diferença é que agora não é mais preciso invadir casas para aplicar a dose: basta puxar conversa na fila do supermercado para perceber que, contra a ignorância, ainda não há vacina eficaz.*Marcelo Rossoni é jornalista