Por Marcelo Rossoni
O cinema brasileiro já produziu de tudo um pouco. Chanchada, drama familiar, filme de cangaço, comédia urbana, documentário político, obra-prima silenciosa e até blockbuster — expressão usada para designar produções de enorme apelo popular e grande repercussão comercial. Mas talvez ainda faltasse uma superprodução destinada a transformar Jair Messias Bolsonaro em personagem de tela grande.
Não qualquer tela. Uma dessas telas largas, épicas, preparadas para cavalo branco, violino melancólico, bandeira tremulando e orçamento capaz de fazer corar produtor de Hollywood.
Segundo reportagens divulgadas no Brasil e no exterior, Flávio Bolsonaro teria buscado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro recursos milionários para financiar um filme “heroico” sobre o pai.
Heroico, nesse caso, é palavra de muitas utilidades. Serve para designar coragem, bravura, sacrifício e, pelo visto, também uma impressionante elasticidade orçamentária.
Inicialmente falou-se em cifras próximas de R$134 milhões. Depois, as próprias informações divulgadas indicariam que os valores efetivamente repassados ao projeto giraram em torno de R$61 milhões — quantia que, ainda assim, colocaria a produção entre as mais caras já associadas ao cinema brasileiro.
Para efeito de comparação, Ainda Estou Aqui, premiado internacionalmente e vencedor do Oscar, teria sido produzido com orçamento muito inferior.
Três vezes um Oscar já é um exagero respeitável. Se fosse seis vezes maior, talvez nem fosse mais filme. Seria uma emenda parlamentar com trilha sonora.
A ideia seria escalar Jim Caviezel, ator que interpretou Jesus Cristo em A Paixão de Cristo.
A escolha tem uma delicadeza involuntária. Depois de anos sendo tratado como “mito”, Bolsonaro finalmente poderia chegar ao cinema interpretado por um especialista em martírio.
O roteiro praticamente pedia closes dramáticos, câmera lenta e música de sofrimento ao fundo.
Mas o enredo ganhou contornos ainda mais curiosos quando Flávio Bolsonaro afirmou, em entrevista concedida em São Paulo, no dia 19 de maio, que esteve pessoalmente com Daniel Vorcaro — então já alvo de prisão preventiva, tornozeleira eletrônica e investigações financeiras de grande repercussão — para encerrar a “parceria” relacionada ao projeto.
Na mesma ocasião, o senador reconheceu que parte de eventual arrecadação futura do filme poderia ser destinada à devolução de recursos às autoridades.
A declaração produz um efeito involuntariamente cinematográfico.
Porque recuperar R$61 milhões no cinema brasileiro não é exatamente tarefa para figurante. A Bilheteria não chega limpa ao produtor. Distribuidores, exibidores, publicidade, impostos e custos operacionais consomem boa parte da arrecadação.
Na prática, Dark Horse teria de permanecer durante meses em cartaz, mobilizando milhões de espectadores pagantes e alcançando um desempenho reservado a raríssimos fenômenos de bilheteria nacional.
Algo mais próximo de Copa do Mundo, final de novela e campanha eleitoral funcionando ao mesmo tempo.
E aí surge uma dúvida quase doméstica, dessas que nem precisam de CPI para existir: se a intenção era apenas comunicar o encerramento de uma parceria, por que um encontro pessoal? Em tempos de mensagens criptografadas, videochamadas e aplicativos instantâneos, bastaria talvez uma ligação objetiva ou um e-mail protocolar.
Mas a política brasileira raramente desperdiça uma oportunidade de produzir cenas desnecessariamente teatrais.
As próprias reportagens também acrescentaram outro detalhe curioso: a produtora citada no projeto e sua proprietária não teriam no currículo a produção de um longa-metragem sequer.
Nada impede alguém de estrear no cinema. Todo grande diretor teve um primeiro filme. O curioso é começar já tentando produzir um épico político milionário, com ambição internacional e pretensão de monumento histórico.
O problema é que a realidade costuma ser uma roteirista cruel.
Jair Messias Bolsonaro não chega a esse enredo como líder invicto ou estadista luminoso. Chega cercado por investigações e transformado em símbolo de uma direita que tenta converter derrota em perseguição, processo em epopeia e tornozeleira em medalha de resistência.
A expressão “presidente presidiário”, embora dura, talvez seja justamente a chave satírica dessa narrativa.
O Brasil já teve presidente operário, presidente sociólogo, presidente militar e presidente acidental. Agora parece surgir a tentativa de fabricar o presidente mártir — embalado para exportação, com fotografia sofisticada e ambição de santinho cinematográfico.
Não se trata apenas de cinema. Trata-se de narrativa.
Quando a política perde o chão, procura o palco. Quando perde o voto, busca a câmera. Quando perde a inocência, encomenda um roteiro.
O curioso é que Ainda Estou Aqui venceu justamente pelo caminho oposto. Não tentou canonizar ninguém. Contou uma história humana, dolorosa, silenciosa e íntima.
Não precisou gritar. Não bateu continência para bandeira estrangeira nem declarou amor em inglês para presidente estadunidense de cabelo alaranjado.
Apenas contou.
Já o projeto bolsonarista parece nascer com vocação de altar. Não quer apenas narrar. Quer absolver. Não quer apenas emocionar. Quer canonizar.
E é justamente aí que mora a sátira involuntária.
Porque toda propaganda política se leva tremendamente a sério. O humor nasce quando a solenidade tropeça no próprio exagero.
Um filme dessa dimensão talvez nem precisasse de crítica. Bastaria o contador.
Afinal, que cena justificaria tanto dinheiro? A motociata filmada por drones? O cercadinho presidencial em iluminação dourada? As transmissões ao vivo transformadas em épico audiovisual?
O roteiro teria trabalho. Não por falta de acontecimentos. Mas por excesso de constrangimentos históricos.
Talvez o primeiro ato mostrasse o jovem capitão incompreendido pelo sistema, olhando o horizonte entre um soluço e outro. No segundo, surgiriam os grandes inimigos: a imprensa, o Supremo, as urnas eletrônicas, a vacina, os fatos, a gramática e, finalmente, a realidade.
No terceiro, viria a queda.
Mas não uma queda qualquer. Uma queda com violinos melancólicos, imagens aéreas e depoimentos emocionados de quem enxergou grandeza onde outros viram apenas método político.
O cinema permite tudo. Permite até que um personagem derrotado pela história tente renegociar sua biografia na bilheteria.
Mas existe uma diferença delicada entre cinebiografia e maquiagem de cadáver político.
E propaganda, mesmo milionária, continua sendo propaganda.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.