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Daqui pra frente, tudo vai ser diferente

13/07/2025 09:35
Daqui pra frente, tudo vai ser diferente
Com tarifa punitiva e ingerência política, os Estados Unidos rompem um ciclo de alianças históricas com o Brasil. Resta ao país decidir se continua submisso ou assume seu lugar no mundo com soberania.
*Por Marcelo Rossoni
A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras representa muito mais do que um ataque comercial. É uma mensagem política clara e agressiva: a aliança histórica entre os dois países, forjada ao longo do século XX, entrou em colapso. A retaliação econômica, que atinge em cheio setores estratégicos como o agronegócio e a indústria de base, simboliza a quebra de confiança e o fim de qualquer ilusão sobre uma parceria privilegiada.A decisão do mandatário americano é mais do que uma taxação. É um bloqueio comercial!Como se não bastasse o abalo econômico, o episódio foi agravado por uma carta enviada pelo presidente Donald Trump ao governo brasileiro. Nela, Trump expressa “profunda insatisfação” com os processos em curso no Supremo Tribunal Federal contra Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe e uso da máquina pública para fins autoritários. Trump, que busca se posicionar no cenário político norte-americano, chegou a afirmar que o Brasil “corre o risco de se transformar numa república autoritária disfarçada de democracia”, caso insista em responsabilizar judicialmente o ex-presidente. A carta, considerada uma afronta à soberania nacional, foi devolvida pelo Itamaraty — atitude correta e necessária diante de tamanha interferência.O gesto norte-americano e a reação brasileira evidenciam uma encruzilhada. Durante décadas, o Brasil manteve um relacionamento de dependência com os EUA, muitas vezes moldando suas posições diplomáticas em função das expectativas de Washington. Mas agora, ao ver suas instituições democráticas atacadas por um líder estrangeiro e sua economia punida de forma unilateral, o país se vê obrigado a rever seu papel no tabuleiro internacional. Infelizmente, nem todos os atores políticos nacionais parecem à altura desse desafio. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro e entusiasta da “nova direita brasileira”, protagonizou um dos momentos mais constrangedores da crise. Em vez de defender os interesses do estado que governa — o mais afetado pela taxação —, Tarcísio celebrou a decisão americana, afirmando que os EUA estavam “defendendo a liberdade” ao se posicionarem contra os processos judiciais no Brasil. Sua postura, que beira o servilismo, expõe o quanto parte da elite política brasileira ainda se comporta como vassalo diante de potências estrangeiras. Não se trata de ideologia: trata-se de soberania nacional.A crise, no entanto, pode conter uma oportunidade. Ela evidencia a necessidade de diversificar parcerias internacionais e abandonar de vez o mito de que os Estados Unidos são um aliado natural e eterno. China, Índia, Indonésia e outros países emergentes oferecem caminhos de cooperação baseados em interesses mútuos e respeito à autonomia. No plano regional, é hora de fortalecer o Mercosul e os laços com América Latina e Caribe. O Brasil precisa abandonar o discurso submisso e construir uma política externa à altura de seu tamanho e relevância.A ruptura com os EUA também impacta áreas sensíveis como defesa, tecnologia e cultura. Programas conjuntos estão sendo suspensos, e a Embraer, já fragilizada após o fracasso da fusão com a Boeing, deve enfrentar novos entraves. Até os intercâmbios educacionais e culturais correm risco, numa escalada que remete aos piores momentos da Guerra Fria — só que agora com papéis invertidos.Como na clássica canção de Roberto e Erasmo Carlos, “daqui pra frente tudo vai ser diferente”. E precisa ser. O Brasil não pode mais se contentar com o papel de coadjuvante submisso. É hora de “aprender a ser gente”, amadurecer sua política externa e assumir com coragem as decisões que definirão seu futuro. Os tempos mudaram, e a escolha precisa ser feita “antes do fim”.

 

*Marcelo Rossoni é jornalista
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