Da glória ao ostracismo, a lenta agonia da social-democracia à brasileira
29/07/2025 00:00
*Por Marcelo Rossoni
Nascido sob o calor da redemocratização, o PSDB, partido dos tucanos, surgiu logo após as Eleições Gerais de 1986, como uma promessa de modernização e racionalidade para o país. Fundado por dissidentes do PMDB — entre eles Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra, Franco Montoro e outros militantes progressistas ligados à resistência contra ditadura — o partido se apresentava como um caminho do meio: nem o populismo clientelista da velha direita, nem o fundamentalismo ideológico que enxergavam no PT nascente. Uma “esquerda racional”, como seus fundadores gostavam de definir.Era uma época em que “social-democracia” ainda soava como sinônimo de equilíbrio, e o PSDB encarnava esse espírito. Moderno, urbano, universitário, reformista e avesso aos arroubos retóricos, o partido queria aplicar no Brasil uma agenda de reformas institucionais com sensibilidade social e compromisso fiscal. Mais próximo da tradição europeia do que da latino-americana.E deu certo — ao menos por um tempo.Nos anos 1990, com a inflação descontrolada corroendo os salários e as instituições fragilizadas, o PSDB se tornou protagonista. No governo Itamar Franco, com vários personagens ligados ao PSDB, foi implantado o Plano Real, que derrotou a hiperinflação e pavimentou a eleição de FHC à Presidência em 1994. Era o auge do “polo da racionalidade”.Nos dois mandatos de FHC (1995-2002), o partido comandou reformas estruturantes: privatizações, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a criação do SUS em formato mais robusto, o fortalecimento do Banco Central, entre outras. No campo da educação, ampliou matrículas e criou o Fundef. No da economia, estabilizou a moeda. No debate público, posicionou-se como contraponto ao petismo em ascensão — uma oposição mais pela inteligência do que pela histeria.Nas urnas, o PSDB se consolidou. Tornou-se o partido preferencial da elite urbana, de parte da classe média, da imprensa econômica e dos mercados. Elegia e reelegia governadores em São Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul. Disputou quatro vezes a Presidência contra o PT entre 2002 e 2014 — com Serra, Alckmin, Serra de novo e Aécio. Perdeu todas, mas manteve-se relevante, competitivo. Era, por assim dizer, o “perdedor de luxo” da política brasileira.A derrocada tucana não começou de repente. Agoniza por anemia política, agravada por erros estratégicos, contradições ideológicas e pela perda de identidade diante da radicalização do ambiente político. A primeira ferida grave veio em 2014. Aécio Neves perdeu por margem apertada para Dilma Rousseff e, inconformado, adotou um discurso de não reconhecimento do resultado. O partido embarcou em uma oposição feroz, contribuindo para o clima que culminaria no impeachment de 2016. Ao aderir ao antipetismo mais visceral, o PSDB abriu mão de seu diferencial: o debate com altura, a crítica racional e a moderação. Passou a jogar o jogo da gritaria — um terreno em que sempre foi ruim.Quando assumiu o governo Temer, fruto direto do impeachment, o PSDB teve papel central. Ocupou ministérios, apoiou reformas impopulares e — mais uma vez — ficou com o ônus e não com o bônus. Perdeu a confiança tanto de seus eleitores tradicionais quanto dos novos órfãos do antipetismo, que preferiram Bolsonaro em 2018. Quando Alckmin teve apenas 4,7% dos votos no primeiro turno daquele ano, o aviso estava dado: o partido estava em declínio acelerado.Desde então, o PSDB vem se esfarelando. Dividido entre alas que flertam com o bolsonarismo e outras que se aproximam do lulismo, o partido perdeu o eixo.João Dória tentou reconstruir a imagem tucana a partir de São Paulo, vencendo o governo do estado em 2018 e se destacando durante a pandemia com a defesa e desenvolvimento da vacina contra a Covid 19. Mas dentro do próprio partido, enfrentou resistências e foi covardemente traído e ainda hoje exibe o punhal azul e amarelo fincado covardemente nas costas. Sua tentativa de viabilizar uma candidatura presidencial em 2022 naufragou em um mar de intrigas internas, traições públicas e ressentimentos silenciosos.Naquela eleição, o PSDB sequer teve candidato próprio. O partido deu apoio morno a Simone Tebet, do MDB, enquanto velhos caciques tucanos se espalharam entre Lula e Bolsonaro. Em São Paulo, sua última grande fortaleza, o partido perdeu o governo — e viu o bolsonarismo se estabelecer ali com o arrogante Tarcísio de Freitas.Hoje, o PSDB sobrevive quase como um espectro do que já foi. Tem apenas três governadores (em 2025), perdeu prefeituras importantes, viu suas bancadas minguarem e amarga irrelevância nas redes sociais — onde a política contemporânea se trava. Vive de aparelhos, de restos de fundão eleitoral, de uma nostalgia que poucos ainda compartilham.O PSDB não está em agonia por causas naturais, mas em um processo de suicídio assistido. Negou sua identidade até perdê-la. Abriu mão do centro para tentar ser direita. Mas não foi suficientemente populista para conquistar os quadros que aderiram ao bolsonarismo, nem suficientemente progressista para reconquistar os eleitores que migram entre o PT e o centro democrático.Além disso, o partido falhou em renovar lideranças. FHC envelheceu, Serra se apagou, Alckmin migrou para o lulismo, Aécio virou sinônimo de escândalo, Dória foi descartado pelos próprios correligionários. A nova geração é inexpressiva ou dispersa. E a velha guarda insiste em ditar os rumos — geralmente de maneira desastrada.Seu discurso, antes claro, virou ruído; em tempos de polarização, perdeu a voz; em tempos de redes, perdeu a narrativa e em tempos de identidade, virou ambiguidade.O PSDB foi, talvez, o último grande partido programático do Brasil. Teve um projeto, uma doutrina, uma ética da administração pública. Pagou o preço de ser racional em um país afeito aos gestos teatrais. Mas também errou muito: pela soberba, pelo elitismo, pela falta de autocrítica, pelo cálculo eleitoral que desfigurou sua alma.Está na UTI não apenas um partido. Está “nas últimas” uma certa forma de fazer política: com planos de governo, com debate civilizado, com oposição qualificada. Está morrendo também a esperança de que o centro racional pudesse arbitrar os extremos — ao menos enquanto não surgir a alternativa.
Em seu túmulo político, talvez um dia escrevam: “Aqui jaz o PSDB. Viveu entre a razão e a hesitação. Morreu de irrelevância, como um tucano depenado.”*Marcelo Rossoni é jornalista