Por Marcelo Rossoni
Vitória entrará para a história política a partir do dia 6. Pela primeira vez desde a fundação da cidade, uma mulher assumirá o comando da Prefeitura. Com a renúncia de Lorenzo Pazolini para ser candidato ao cargo de governador na próxima eleição, a vice-prefeita Cris Samorini passa a ocupar o cargo e inaugura um capítulo inédito na administração municipal.
O fato é histórico por si só, mas o momento político amplia ainda mais seu significado. A mudança de comando ocorre em ano eleitoral, em meio a rearranjos partidários, reposicionamentos estratégicos e antecipação de movimentos visando a disputa pelo governo do Estado. A saída de Pazolini não representa apenas uma troca administrativa, mas altera o tabuleiro político tanto na capital quanto no cenário estadual.
A ascensão de Cris Samorini ao comando da Prefeitura não ocorre por acaso nem de forma improvisada. Desde o início da atual gestão, a vice-prefeita manteve atuação direta na administração municipal. Além da função institucional, ela foi nomeada pelo prefeito para comandar a Secretaria Municipal de Desenvolvimento da Cidade e Habitação, uma das pastas mais estratégicas da administração, responsável por áreas como planejamento urbano, desenvolvimento e habitação. Na prática, isso fez com que participasse diretamente de projetos estruturantes, decisões administrativas e do planejamento da cidade. Sua presença na gestão sempre foi ativa, o que torna a transição administrativa um processo natural dentro da própria estrutura de governo.
Do ponto de vista administrativo, a tendência é de continuidade dos projetos em andamento, sem rupturas estruturais, mas com possível mudança de estilo de gestão. E é justamente nesse ponto que a nova prefeita pode imprimir sua marca pessoal.
Ao longo da história, quando mulheres chegam a cargos de comando no setor público, costuma-se observar uma forma de gestão muitas vezes mais voltada ao diálogo, à organização administrativa, ao planejamento e à mediação política. Não se trata de estabelecer comparação de competências entre homens e mulheres, mas de reconhecer que trajetórias e experiências diferentes costumam produzir formas diferentes de governar. A administração pública não é apenas gestão de obras e números; é também gestão de pessoas, prioridades sociais, escuta da população e construção de consensos políticos.
Isso não significa, de forma alguma, retirar os méritos da gestão de Lorenzo Pazolini. Pelo contrário. Ele deixa a Prefeitura com uma administração estruturada, com projetos em andamento, obras em execução e uma base administrativa organizada. Sua saída não representa ruptura administrativa, mas sim uma transição política dentro de um projeto maior, que agora se desloca para o cenário estadual.
A mudança, portanto, não é de governo, mas de comando. E essa diferença é importante.
Cris Samorini assume uma máquina pública em funcionamento, com equipe formada, planejamento em andamento e projetos em execução. Seu desafio não será iniciar uma nova administração do zero, mas imprimir seu estilo, sua forma de decisão e sua maneira de conduzir a política municipal.
Sua trajetória profissional não nasceu dentro da política tradicional. Vinda do setor empresarial e do associativismo industrial, ela construiu carreira em entidades representativas da indústria, chegando à presidência da Federação das Indústrias do Espírito Santo - Findes. Esse caminho costuma formar gestores com visão administrativa, foco em resultados, planejamento estratégico e capacidade de negociação institucional, características que podem influenciar diretamente o perfil da nova administração municipal.
Ao mesmo tempo, a Prefeitura de Vitória é, por natureza, um espaço político permanente. Governar a capital exige diálogo constante com a Câmara Municipal, com o Governo do Estado, com o setor empresarial, com movimentos sociais e com a população. A capacidade de articulação política será tão importante quanto a capacidade administrativa.
A chegada de uma mulher ao comando da capital também possui um simbolismo que ultrapassa a política administrativa. Vitória passa a integrar o grupo de capitais brasileiras que já tiveram prefeitas, algo que durante décadas parecia distante da realidade política capixaba. Não se trata apenas de ocupar o cargo, mas de representar uma mudança gradual na cultura política, historicamente dominada por homens.
A política, como a sociedade, muda lentamente. Mas muda.
A posse de Cris Samorini como prefeita não é apenas um ato administrativo decorrente de uma renúncia. É um marco histórico para a cidade, um movimento político relevante para o Estado e um episódio que pode influenciar o cenário eleitoral dos próximos anos.
Enquanto Lorenzo Pazolini passa a olhar para o Espírito Santo como projeto político estadual, Vitória passa a ser administrada, pela primeira vez, por uma mulher.
E isso, por si só, já coloca a cidade em uma nova página de sua história política.
Marcelo Rossoni é jornalista