*Por Marcelo Rossoni
O coronel costuma brincar que a culpa de tudo é do Partido dos Trabalhadores. É a forma afetiva que encontrou para medir minha pressão e testar a acústica de seu próprio conservadorismo. Eu o conheço bem demais para cair na armadilha. Um homem correto, disciplinado, moldado pela farda que carrega como tatuagem invisível. Ele pensa como um oficial pensa, e eu penso como um civil que acredita que democracia se constrói com divergências. Seguimos assim, como irmãos que somos e que aprenderam a discutir sem romper o fio da amizade.
Outro dia, quando a imprensa desfiava mais um rosário de golpes financeiros praticados pela alta sociedade, o coronel me enviou a já tradicional provocação. Segundo ele, era tudo culpa do PT. Como se banqueiro, CEO e investidor de tênis importado acordassem pela manhã, consultassem o estatuto do Partido dos Trabalhadores e só então decidissem desviar bilhões. Respondi primeiro com silêncio contemplativo, para não desperdiçar boa munição. Depois, como quem ajeita as peças no tabuleiro, lembrei de minha própria biografia eleitoral, que ele conhece de cor, mas finge esquecer para fins dramáticos.
Votei em Leonel Brizola duas vezes, na esperança de que o fio desencapado da história gaúcha reacendesse algo no país. Hoje, arrependido, confesso que votei em Ciro Gomes também duas vezes, quando ele ainda parecia disposto a brigar com o mundo usando apenas argumentos e um livro de economia debaixo do braço. Apostei em Plínio de Arruda Sampaio, cuja serenidade franciscana jamais foi devidamente compreendida. Confiei em Heloísa Helena, que parecia falar com a lâmina da língua. Apoiei Marina, em tempos de travessia ecológica antes do modismo. E, sim, votei em Dilma Rousseff, movido mais pela convicção de que o país precisava testar novos arranjos de coragem do que pela crença em consensos fáceis. Escolhi também Fernando Haddad e Lula em turnos diferentes, coerente com um voto ideológico que sempre preferiu a utopia possível ao pragmatismo resignado.
Nunca fui petista, confesso — e faço questão de dizer isso com tranquilidade — mas por lucidez sempre reconheci, aqui e ali, algumas virtudes e personagens que orbitam o campo progressista, gente que tenta empurrar o país um milímetro adiante enquanto o pêndulo insiste em voltar para trás.
No segundo turno, fiz o que milhões fazem: escolhi os menos piores. Não por falta de convicção, mas por excesso de realismo. A democracia é esse regime que nos obriga a refletir sobre o mal menor enquanto sonhamos com o bem maior.
Quando contei isso ao coronel, ele riu. Disse que eu era um caso de estudo. Talvez seja. Mas estudo sociológico é a própria República, que nasceu de uma quartelada em 1889 e passou 136 anos tentando provar que é adulta. Desses 136 anos, apenas 17 foram governados por partido de esquerda, o PT.
Os outros 119 ficaram nas mãos de presidentes conservadores, liberais — entre eles Fernando Henrique Cardoso, FHC — militares ou variações discretas do mesmo figurino. Em outras palavras: a esquerda administrou o país por pouco mais de um sétimo da vida republicana. O restante foi um longo desfile de colarinhos engomados, fardas, tecnocratas, oligarquias regionais e projetos de poder que se repetiam com a mesma cadência de uma marcha militar.
Se a culpa fosse exclusivamente do PT, como provoca o coronel, então precisaríamos reescrever a história inteira. Precisaríamos ignorar os escândalos da velha República, as maracutaias discretas da era Vargas, os truques contábeis da ditadura e os dossiês engavetados das últimas décadas.
Precisaríamos crer que o colarinho branco só descobriu a contabilidade criativa em 2003, como se bancos, grupos empresariais e suas engrenagens bilionárias dormissem inocentes até serem corrompidos por uma estrela vermelha. A narrativa não resiste a cinco minutos de arquivo nacional.
E, no entanto, a brincadeira do coronel cumpre seu papel. Ela revela que cada brasileiro carrega um tipo de formação. Ele traz a lógica rígida da caserna, eu trago a teimosia romântica das urnas eletrônicas. Ele confia no comando, eu confio na dúvida. Ele vê ameaça onde eu vejo oportunidade. Mas há uma pedagogia na convivência: seguimos próximos porque aprendemos que afeto não exige unanimidade.
Na última mensagem, depois de ouvir meus votos, minhas contas e minhas estatísticas, o coronel respondeu com algo que, suspeito, foi um elogio involuntário. Disse que eu continuava sendo ingênuo, mas de boa fé. Respondi que ele continuava sendo duro, mas justo. Justo e perfeito! No fundo, essa troca resume mais a República do que muitos tratados acadêmicos. Um país inteiro tentando se entender entre seus Brizolas e seus generais, seus idealistas e seus pragmáticos, seus votos apaixonados e suas escolhas resignadas.
Talvez algum dia consigamos superar essa mania de procurar culpados únicos, como se a política fosse uma novela de vilões e mocinhos. Até lá, continuarei ouvindo as provocações do coronel com o mesmo respeito de sempre. E devolvendo, quando necessário, com a mesma sutileza com que se desarma um mecanismo complicado: examinando a engrenagem, apontando suas falhas e lembrando que, nos golpes realmente lucrativos, não é o trabalhador que aparece na foto, mas o colarinho impecavelmente branco.
*Marcelo Rossoni é jornalista