*Por Marcelo RossoniOutro dia encontrei um leitor do meu jornal online, o www.vitorianews.com.br, sujeito afável, daqueles que elogiam antes de atacar, como quem oferece flores antes do espinho. Disse que acompanhava meus artigos, que achava o texto “interessante” — um adjetivo que, no dialeto da diplomacia, costuma significar “suspeito”. E então soltou:— Mas você escreve com a mão esquerda.Sou cinquenta por cento descendente de italianos, e naquele momento senti uma leve anemia no calcanhar e o sangue inteiro nas orelhas. Aprendi com minha filha caçula, Giovanna, também jornalista, que quando a coisa estiver feia, respire fundo antes de agir. Assim fiz. Respirei fundo e respondi, no mesmo tom irônico:— Escrevo com a mão esquerda porque uso a direita para comer.Ele não entendeu. Sorriu sem graça, achando talvez que eu me referia a um ritual excêntrico. Mas minha resposta vinha de um velho costume dos beduínos do deserto do Saara: eles reservam a mão direita para comer — o gesto sagrado da sobrevivência — e a esquerda para o resto, inclusive o que não se menciona à mesa. É uma regra de higiene e respeito, nascida em meio à areia e à escassez.Pois bem: aprendi com os beduínos, mesmo sem nunca ter atravessado o Saara, que há mãos para cada coisa. A direita é o lado do alimento; a esquerda, o da escrita. Uma nutre o corpo, a outra alimenta o espírito. Mas o leitor moderno, confinado em seus climas artificiais, esqueceu essa sabedoria ancestral. Acha que o importante não é o gesto, e sim o lado — e transforma até a caneta num teste ideológico.No Brasil, o problema não é o que se escreve, é com que mão se escreve. Escrever com a esquerda virou crime de opinião; com a direita, sinal de boas maneiras. A neutralidade, essa categoria inventada para disfarçar a covardia, tornou-se o novo Deus.Curioso é que ninguém nunca me perguntou com que mão eu penso. Talvez porque pensar, por aqui, já seja ato suspeito.Os beduínos sabiam distinguir o essencial: uma mão limpa o corpo, a outra limpa o pensamento. Nós, ao contrário, misturamos tudo. Há quem use a mesma mão para digitar ofensas e levar comida à boca, sem perceber a contaminação simbólica. Falta-nos areia — e sobra teclado.Desde o episódio, passei a ver o jornalismo como uma tenda no meio do deserto. Cada palavra é um gole de água, cada parágrafo, uma sombra breve. E há sempre alguém querendo transformar o oásis em trincheira.Talvez o leitor tenha apenas confundido “mão esquerda” com “mente torta”. No imaginário nacional, tudo que foge da direita parece pecado. Esqueceram que a escrita é, por natureza, um ato de desobediência: desafia o silêncio, confronta a unanimidade e suja o papel em nome da clareza.Se Leonardo da Vinci, canhoto e genial, vivesse por aqui, seria acusado de pintar com viés. E se Machado de Assis declarasse sua ambidestria, alguém o chamaria de isentão.A verdade é que o teclado é neutro. Não há tecla direita ou esquerda — há apenas espaço. E é no espaço, essa invenção divina entre uma palavra e outra, que o texto respira. O resto é deserto.Escrever com a esquerda, portanto, é apenas um modo de manter a tradição: reservo a direita para o pão, a esquerda para o verbo. Os beduínos entenderiam. Eles, que atravessam a vida com o sol nas costas e a poeira nos pés, sabem que cada gesto tem sua hora.Meu leitor, talvez sem saber, me ofereceu uma metáfora preciosa. Ele olhou a forma, não o sentido. Julgou a mão, não o texto. No fundo, representou toda uma geração que confunde conforto com verdade.Mas sigo escrevendo. Com a esquerda, com a direita, com o que restar de lucidez. Porque há desertos demais e oásis de menos. E enquanto o jornalismo for este percurso de areia e miragens, prefiro continuar com a mão esquerda — a que escreve, a que incomoda, a que não se lava tão fácil.E se outro leitor me vier com o mesmo comentário, já tenho resposta pronta, lavada em ironia e poeira do Saara:— Escrevo com a mão esquerda porque aprendi com os beduínos — cada mão tem seu destino, e o da minha é sujar o papel.