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Chutando a escada do neoliberalismo - Como a China cresceu ignorando o discurso da austeridade fiscal

01/09/2025 09:16
Chutando a escada do neoliberalismo - Como a China cresceu ignorando o discurso da austeridade fiscal
*Por Marcelo RossoniPor trás de muitas tragédias econômicas há um discurso moral travestido de responsabilidade. A "austeridade fiscal" — palavras mágicas que servem para justificar cortes em serviços públicos, arrocho salarial e contenção de investimentos — são vendidas como remédio amargo, mas necessário. A promessa é que, com contas equilibradas, o crescimento virá. No entanto, a história recente tem demonstrado o oposto: muitas vezes, o discurso da austeridade fiscal funciona não como estímulo ao crescimento, mas como ferramenta para impedi-lo. Em outras palavras, o rigor fiscal tornou-se uma forma de disciplinar periferias e travar o avanço de nações emergentes no sistema global.Esse raciocínio fica evidente quando se confronta a cartilha do neoliberalismo com a prática adotada pela China nas últimas quatro décadas. Enquanto o Ocidente impunha a seus próprios cidadãos, e especialmente aos países em desenvolvimento, um receituário baseado em corte de gastos, privatizações e abertura irrestrita de mercados, os chineses fizeram justamente o contrário. Controlaram os fluxos de capital, expandiram o investimento público, mantiveram uma forte presença estatal na economia e adotaram uma política monetária que favoreceu o crescimento da renda — e, com ela, da poupança e do investimento.Na lógica ortodoxa, o crescimento depende de poupança e investimento. A narrativa convencional sugere que é preciso "apertar o cinto", reduzir o consumo e acumular recursos, que mais tarde serão transformados em capital produtivo. O problema é que essa lógica inverte a ordem dos fatores: antes da poupança, há a renda; e antes da renda, há o gasto; e antes do gasto, a criação de moeda. Em outras palavras, é preciso que alguém gaste para que outro alguém possa receber — e poupar.Quando um governo decide cortar seus próprios gastos, ele está suprimindo, por definição, a principal fonte de renda de vários setores da economia. Isso vale especialmente em países em que o Estado é o maior investidor. Ao enxugar os investimentos públicos sob a justificativa de "austeridade", as administrações não apenas desaceleram a atividade econômica, mas também impedem que se formem os excedentes que gerariam poupança e permitiriam novos investimentos.Desde os anos 1980, a chamada revolução neoliberal propagou a ideia de que a única política econômica responsável seria aquela que visasse superávit primário, contenção da inflação e liberdade total de mercados. Essa narrativa foi institucionalizada por organismos multilaterais como o FMI e o Banco Mundial e imposta, sobretudo, ao Sul Global. Países latino-americanos, africanos e parte da Ásia foram pressionados a adotar políticas de ajuste que, invariavelmente, resultaram em recessão, desemprego e retrocesso social.Sob essa ótica, a austeridade não é apenas um programa técnico: é também um mecanismo ideológico de controle. Ao convencer os países em desenvolvimento de que não há alternativa senão cortar, privatizar e se submeter às exigências do capital financeiro internacional, o discurso neoliberal mantém a divisão global do trabalho: o centro comanda, e a periferia obedece. A China rompeu com essa lógica. Após a abertura econômica iniciada nos anos 1980, sob a liderança de Deng Xiaoping, o país adotou um modelo híbrido que combinava mecanismos de mercado com forte presença estatal. Mas, ao contrário do que prega o neoliberalismo, os chineses jamais abriram mão do controle sobre a política monetária e fiscal. O Banco Popular da China está subordinado ao governo central e não opera de forma autônoma como os bancos centrais ocidentais. A criação de moeda é usada de forma ativa para financiar investimentos, estimular setores estratégicos e garantir pleno emprego nas zonas urbanas.Durante a crise de 2008, por exemplo, enquanto o Ocidente adotava políticas de arrocho e resgate bancário, a China lançou um pacote de estímulo de US$586 bilhões, voltado para infraestrutura, habitação e energias renováveis. O resultado foi um crescimento sustentado enquanto a Europa afundava na recessão e os Estados Unidos lutavam para recuperar os empregos perdidos.Além disso, o país manteve um sistema bancário majoritariamente estatal, o que lhe conferiu capacidade de canalizar crédito para setores prioritários, mesmo em contextos adversos. A combinação de gasto público, política monetária ativa e planejamento estatal permitiu à China uma ascensão meteórica: de economia agrária pobre, tornou-se a maior potência industrial do planeta, com influência decisiva em áreas como tecnologia, infraestrutura e finanças globais.O sucesso chinês escancara a farsa do dogma neoliberal. País algum na história se desenvolveu com base na austeridade. Nem os Estados Unidos, que usaram pesadamente o gasto público durante o New Deal; nem a Alemanha, que contou com vultosos investimentos estatais no pós-guerra; tampouco o Japão, cuja ascensão envolveu planejamento estatal, proteção à indústria nacional e forte regulação. A austeridade, portanto, é uma receita que só se aplica aos outros. Uma espécie de "chute na escada", para usar a expressão do economista sul-coreano Ha-Joon Chang: depois que os países ricos subiram o degrau do desenvolvimento, chutaram a escada para impedir que os demais fizessem o mesmo.O mito da responsabilidade fiscal — entendido como sacrifício contínuo, mesmo em tempos de recessão — tem sido usado para justificar a paralisia dos Estados diante de seus próprios problemas estruturais. É um discurso que serve aos interesses do capital financeiro, que prefere governos enxutos, sem capacidade de regular, tributar ou intervir na economia. Mas é também um discurso que condena ao fracasso qualquer tentativa de romper com o subdesenvolvimento.A lição que a China oferece ao mundo não é a de um modelo a ser copiado cegamente, mas a de uma ousadia intelectual e política. Ao rejeitar a ideia de que déficit é sempre sinônimo de descontrole e de que o Estado deve se limitar a "deixar o mercado funcionar", o país asiático demonstrou que desenvolvimento exige intervenção, planejamento e, sobretudo, liberdade para gastar e investir.Não se trata de ignorar os limites fiscais, mas de compreendê-los como construções políticas — não naturais —, moldadas por interesses e disputas. O verdadeiro risco não é gastar demais, mas sim deixar de gastar onde é necessário. E o maior desperdício que uma nação pode cometer é o de seu próprio potencial.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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