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Chega de Mamata!

10/07/2025 00:02
Chega de Mamata!
*Por Marcelo Rossoni
O Imposto de Renda brasileiro é uma das mais fascinantes peças de ficção tributária já escritas. Numa terra onde a criatividade tropical é celebrada, nossos legisladores deram um passo além: criaram um sistema em que quem ganha mais paga menos — e quem ganha menos paga mais, proporcionalmente. Uma obra-prima do absurdo. Chegou a hora de encerrar esse capítulo tragicômico da nossa história fiscal e dizer, sem rodeios: chega de mamata, os ricos precisam pagar Imposto de Renda de verdade.Sim, senhores donos de jatinhos, iates e holdings familiares em paraísos fiscais: o fim da era da invisibilidade fiscal está próximo. Preparem-se para um susto, talvez pela primeira vez na vida. Porque, vamos ser honestos, o Brasil já tributa a renda — desde que ela venha do salário. Se for lucro, dividendo, herança ou especulação, aí já é outra história. É como se a Receita Federal fosse um personal trainer: só pega no pé de quem está suando no batente.Atualmente, o trabalhador com carteira assinada e salário médio de classe média paga mais de 20% de IR. Já o investidor bonitão da Faria Lima, com milhões em lucros e dividendos isentos, sorri enquanto escolhe entre o brunch em Paris ou em retiro fiscal naquela ilha famosa do Caribe. Afinal, ele não "recebe salário", ele "colhe os frutos de uma estrutura societária inteligente".Que esperteza!Mas isso vai mudar. Pelo menos é o que prometem as vozes que ecoam nos corredores do poder — e que invariavelmente somem na hora de votar. A última tentativa de tributar dividendos no Congresso foi mais dramática que final de novela das nove: ameaças, choro, ranger de dentes e, claro, lobby. Muito lobby. Os representantes dos verdadeiros donos do país — aquele 0,1% que vive de renda — entraram em ação com a agilidade de quem não sabe o que é fila do SUS, mas sabe muito bem o que é offshore.E como se não bastasse a isenção dos dividendos, os ricos ainda se beneficiam de uma jabuticaba que parece saída do melhor laboratório de alquimia tributária: os "juros sobre capital próprio", uma invenção brasileira que permite deduzir da base de cálculo um pagamento feito... a si mesmo. Sim, no Brasil, se você é dono de empresa e paga juros a você mesmo, isso é considerado uma despesa. Gênio não, né? Só falta receber um Nobel da Contabilidade Criativa. Enquanto isso, os trabalhadores seguem na ralação, financiando o Estado com seu suor e sua carne moída. Professores, enfermeiros, servidores públicos e milhões de trabalhadores da iniciativa privada veem o leão rugir — mas só na sua direção. O leão, aliás, é um animal injustiçado: virou mascote de um sistema que tem mais a ver com um gato de luxo, que ronrona no colo dos donos do PIB.A desculpa de sempre é que tributar os ricos “assusta os investidores” e “inibe o crescimento”. Como se países desenvolvidos como Alemanha, França, Canadá ou Austrália, que tributam dividendos e grandes fortunas, fossem repúblicas soviéticas em crise. A verdade é que quem faz chantagem com a economia nacional diante da mera menção de justiça tributária não é investidor: é refém emocional com cofre blindado.Queremos um Imposto de Renda mais justo? Então vamos começar pelo óbvio: tributar dividendos, sim. Criar alíquotas mais altas para quem ganha mais, sim. Isentar quem ganha menos, sim. E, por que não, tributar grandes fortunas, heranças bilionárias e offshores, também sim. Afinal, o nome é imposto de renda, nãoimposto de salário.E que ninguém venha dizer que isso é “guerra de classes”. Guerra é o que se vê hoje: uma classe trabalhando e a outra planejando como pagar menos. Uma classe sendo auditada, a outra criando trustes. Uma pagando o imposto na fonte, a outra pagando o cafezinho no Leblon com cartão da empresa de consultoria que presta serviço só para a própria holding.É hora de virar esse jogo. Chega de regressividade, de injustiça, de engodo fiscal. Chega de fingir que quem ganha R$5 mil e quem ganha R$500 mil por mês devem estar sujeitos às mesmas regras. Chega de usar eufemismos como “otimização tributária” quando o que há, na prática, é um desvio ético institucionalizado.Queremos um país em que o rico pague imposto como todo mundo. Um país em que o mérito não seja uma desculpa para a desigualdade, mas um compromisso com a equidade. Um país em que o Estado tenha recursos para investir em educação, saúde, infraestrutura — e que esses recursos venham também de quem lucra com o próprio capital, não só do suor alheio.Por isso, senhores e senhoras do andar de cima: está na hora de encarar a realidade. De fazer parte do Brasil de verdade. De sair das planilhas e vir para a vida real. Preparem-se, porque o leão, este eterno vegetariano fiscal, está fazendo dieta de carne nobre. E desta vez, o prato principal são vocês.

 

*Marcelo Rossoni é jornalista
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