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Capacidade de negociação como ativo eleitoral

02/02/2026 15:09
Capacidade de negociação como ativo eleitoral

A construção silenciosa de Ricardo Ferraço como eixo da sucessão no governo Casagrande


*Por Marcelo Rossoni

Nos últimos meses, a política do Espírito Santo passou a operar menos pelo discurso e mais pela repetição. Não houve anúncio formal, nota oficial ou declaração solene. O movimento se deu de outra forma: pela constância. Em agendas públicas, eventos institucionais e compromissos que antes tinham desenho mais aberto, uma presença começou a se tornar recorrente. Quando a repetição deixa de ser coincidência, passa a ser linguagem.

Ricardo Ferraço foi se consolidando como o par constante de Renato Casagrande. Não como figurante, tampouco como convidado eventual, mas como alguém integrado à cena, ao enquadramento e ao tempo do governador. A política, sobretudo a que se pretende organizada, costuma comunicar mais pelo posicionamento do que pela palavra. Essa posição, nesse caso, tem sido literal.

Casagrande, que construiu sua trajetória evitando gestos bruscos e declarações definitivas fora do tempo, parece ter optado por um método conhecido: o da naturalização. Em vez de anunciar uma escolha, permite que ela se imponha pela rotina. Em vez de criar um fato, deixa que o cotidiano o faça. Ao dividir agendas, deslocamentos e momentos simbólicos, o governador vai desenhando uma narrativa sem precisar escrevê-la.

Ricardo Ferraço, por sua vez, compreendeu o papel. Não há sobressaltos, movimentos autônomos em excesso ou discursos que antecipem etapas. A atuação tem sido de sincronização. A política institucional valoriza esse tipo de comportamento: o que não tensiona, não atropela e não disputa luz antes da hora. A proximidade constante, quando bem administrada, produz familiaridade — e familiaridade, em política, é uma forma silenciosa de legitimação.

Essa legitimação não se constrói apenas por presença física. Ela se consolida quando o personagem começa a representar o governo em agendas que extrapolam o protocolo. A recente missão à China, por exemplo, conduzida por Ferraço, insere esse elemento novo na equação: o da negociação concreta. Ao retornar com tratativas avançadas — uma carta de intenção — para a instalação de uma fábrica da Great Wall Motors no Espírito Santo, com forte indicativo de localização na região de Aracruz, o vice-governador deixou claro que sua atuação não se limita ao acompanhamento, mas envolve entrega.

Não é um detalhe menor. Em um ambiente político marcado por anúncios inflados e resultados escassos, trazer na bagagem a possibilidade de um investimento industrial de alta densidade tecnológica reposiciona Ricardo Ferraço no tabuleiro. Ele deixa de ser apenas o nome associado à continuidade administrativa e passa a incorporar um atributo decisivo em eleições contemporâneas: capacidade de negociação com impacto econômico real.

O gesto ganha ainda mais relevância porque ocorre em um cenário onde as disputas pela sucessão de Casagrande se anunciam de forma difusa, com múltiplos atores testando espaço, linguagem e densidade eleitoral. Nesse contexto, a escolha pela constância não é neutra. Ao caminhar sempre acompanhado do mesmo interlocutor — e ao delegar a ele missões sensíveis —, o governador sinaliza para aliados, prefeitos e quadros intermediários onde está o centro de gravidade do seu campo político.

Há também um cálculo de médio prazo embutido nessa engrenagem. Uma eventual chapa liderada por Ricardo Ferraço tende a olhar além do próximo mandato. Caso eleito e reconduzido ao cargo, ele estaria constitucionalmente impedido de disputar nova eleição em 2030. Isso confere peso estratégico à escolha de um vice-governador, que deixa de ser figura ornamental para assumir papel decisivo na sustentação e na projeção do projeto político.

Nesse desenho, ganha força a hipótese de um vice-governador com grande influência na região da Grande Vitória, alguém com densidade eleitoral própria, capacidade de articulação municipal e trânsito fluido entre prefeitos, lideranças regionais e setores produtivos. Trata-se menos de um gesto de composição e mais de uma operação de ancoragem territorial. Um nome capaz de consolidar apoio em Serra, Vila Velha, Cariacica, Viana, Guarapari e Fundão e, ao mesmo tempo, dividir Vitória com o prefeito Lorenzo Pazolini, também candidato ao trono do Palácio Anchieta.

Essa escolha produziria efeitos imediatos. Com um vice-governador politicamente forte na Grande Vitória, a chapa ganharia musculatura eleitoral e equilíbrio geográfico, ao mesmo tempo em que preservaria a lógica de continuidade administrativa que Casagrande parece empenhado em construir.

A exceção previsível permanece Vitória, onde o prefeito Lorenzo Pazolini, antagonista político do governador, tende a se posicionar como o contraponto direto do projeto e promete levar o confronto às urnas. A disputa, nesse caso, deixaria de ser pulverizada e passaria a ter um foco claro, quase geográfico.

Nada disso elimina o fator decisivo da política: a prova eleitoral. A rotina constrói narrativa, mas não substitui campanha. A constância organiza o tabuleiro, mas não joga a partida. Ainda assim, seria ingênuo tratar como casual um movimento tão persistente quanto discreto. Na política, especialmente na que se pretende racional, quase nada é feito apenas para preencher agenda.

O que se vê, portanto, não é um anúncio, mas um desenho. Não é uma proclamação, mas uma coreografia. Casagrande parece operar no tempo longo, permitindo que o cenário se acomode antes que o conflito se explicite. Ricardo Ferraço, ao aceitar esse papel, se insere no centro da cena não apenas pela presença, mas pelo conteúdo que começa a entregar.

Quando a política deixa de falar alto e passa a entregar resultados, o silêncio já não é vazio — é método. E, muitas vezes, é anúncio.


*Marcelo Rossoni é jornalista

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