*Por Marcelo RossoniEnquanto tantos se deitavam na tranquilidade das marés mansas, Brizola insistia em remar contra a tempestade. Leonel Brizola foi um político que nunca aceitou os caminhos fáceis. Preferia a luta à acomodação, a denúncia ao silêncio, o risco à conveniência. Foi um homem moldado pela resistência e que fez da contestação a sua forma de existir na política.O episódio que o lançou como figura nacional foi a Campanha da Legalidade, em 1961. Após a renúncia de Jânio Quadros, os militares tentaram impedir a posse de João Goulart. Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, armou-se de microfone e fez da Rádio Guaíba uma trincheira contra a ruptura constitucional. O país quase mergulhou numa guerra civil. Mas Goulart assumiu e Brizola emergiu como o jovem líder que enfrentava generais de peito aberto.Pouco tempo depois, veio o golpe de 1964. O Brasil mergulhou em vinte anos de ditadura, e Brizola foi forçado ao exílio. Passou pelo Uruguai e por outros países, sempre carregando a fama de conspirador incansável. De longe, articulava, denunciava, sonhava com a retomada da democracia. Para os generais, era uma ameaça que não desaparecia; para seus seguidores, um símbolo de esperança. Quase quinze anos viveu nessa condição de estrangeiro forçado, com os olhos voltados para o retorno.Quando voltou, encontrou um país transformado e uma armadilha política. Desejava reassumir o PTB, partido criado por Getúlio Vargas e símbolo do trabalhismo que reivindicava como herança. Mas o regime militar, temendo sua força, manobrou. A legenda foi entregue a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio, considerada dócil e palatável. Brizola ficou sem a sigla histórica, mas não sem caminho. Fundou o PDT em 1979 e ali fincou sua bandeira.A ironia não tardou a se revelar. O PTB, negado a Brizola para não virar arma contra o regime, se degradou. Nas décadas seguintes, caiu nas mãos de Roberto Jefferson, que se tornou pivô do escândalo do mensalão e mais tarde aliado de Jair Bolsonaro. A cena mais grotesca viria anos depois: acuado pela Polícia Federal em sua casa, Jefferson recebeu os agentes a tiros de fuzil, como personagem de faroeste. Do trabalhismo de Getúlio ao tiroteio transmitido em tempo real, o percurso do PTB ilustra com sarcasmo a capacidade do Brasil de desfigurar seus símbolos.Brizola seguiu em outra trilha. Elegeu-se governador do Rio de Janeiro duas vezes e ousou na educação. Com Darcy Ribeiro, lançou os CIEPs, escolas de tempo integral que ofereciam alimentação, esporte, cultura e ensino de qualidade. Para muitos, era utopia; para outros, ameaça à ordem estabelecida. O projeto, ainda que incompleto, traduzia sua convicção de que não há soberania sem educação. E mostrava que Brizola não tinha medo de propor mudanças estruturais, mesmo quando sabiam que elas incomodariam os donos do poder.Nos anos 1980 e 1990, enfrentou outro inimigo poderoso: a Rede Globo. Enquanto a maioria dos políticos fazia reverência para aparecer em horário nobre, Brizola denunciava manipulações e afrontava diretamente o império midiático. A Globo moldava consciências, e ele não aceitava que um país fosse governado por edições de telejornal. Pagou caro por isso, sendo ridicularizado e atacado, mas manteve a coragem de apontar o dedo quando quase todos preferiam o silêncio.Em 1982, no Rio de Janeiro, Brizola denunciou que a totalização dos votos em papel, entregue à empresa Proconsult, estava contaminada por manipulações que invertiam tendências e distorceram o resultado. Enquanto os números oficiais oscilavam a favor do candidato do regime, as apurações paralelas e a checagem jornalística indicavam outra fotografia das urnas. A tensão se espalhou pelo país e a contagem virou disputa política em tempo real.Foi nesse ambiente que Brizola chamou a imprensa internacional, descreveu em detalhes as inconsistências e expôs as engrenagens invisíveis da apuração. O contraste entre a soma oficial e os boletins coletados por equipes independentes derrubou a narrativa da virada artificial. No fim, a manobra não se consumou e seu nome apareceu na dianteira, confirmando o que as ruas e as urnas já sugeriam.Tentou chegar à presidência em 1989 e em 1994. Falou sobre a soberania, educação, nacionalismo e justiça social. Chegou perto, mas não venceu. Ainda assim, manteve sua coerência. Jamais buscou o aconchego do colo quente do poder. Preferiu seguir sendo lembrado como o político que não se curvou, que não trocou convicções por favores, que não se rendeu à correnteza fácil.O contraste entre Brizola e Roberto Jefferson é quase cruel. De um lado, o líder trabalhista que dedicou a vida a defender educação, consciência nacional e soberania popular. Do outro, o político que transformou o PTB em balcão de negócios e terminou cercado pela Polícia Federal em um espetáculo grotesco, com helicópteros no ar e tiros disparados do próprio quintal. Essa comparação, ainda que incômoda, diz muito sobre o que o Brasil poderia ter sido e sobre o que acabou se tornando.Brizola repetia que o Brasil é uma nação que ainda não se fez. Olhando para essa trajetória, é difícil não concordar. O país segue ensaiando sua grandeza, mas tropeça em contradições e farsas. Brizola encarnou essa contradição: foi ao mesmo tempo o símbolo da ousadia e da resistência e a prova de como o país resiste a se reinventar de fato.Não era um santo, tampouco um político perfeito. Exagerou, perdeu batalhas, colecionou desafetos. Mas foi um homem de convicções, disposto a remar contra a tempestade mesmo sabendo que o custo seria alto. Essa postura, no Brasil, raramente é recompensada. Ele pagou o preço e deixou uma marca que permanece.No fim, a imagem que fica é a do peixe teimoso que insiste em nadar contra a maré. O país seguiu seu caminho tortuoso, entre golpes, crises e farsas. O PTB virou palco de escândalos e perdeu sua essência. Mas a memória de Brizola resiste, lembrando que a política não precisa ser feita apenas de acomodações. Ele mostrou que é possível resistir, mesmo sem o amparo do colo quente do poder.Brizola foi, em vida, personagem de história. O político que enfrentou generais e monopólios midiáticos, que sonhou com escolas de tempo integral, que denunciou as engrenagens invisíveis do país. Nadou contra a corrente, perdeu e venceu batalhas, mas nunca se deixou levar pela maré. E talvez por isso continue sendo lembrado, décadas depois, como uma exceção num país acostumado a acomodar-se.*Marcelo Rossoni é jornalista