*Por Marcelo RossoniNos últimos anos, o Brasil tem assistido ao surgimento de um fenômeno que poderia muito bem figurar no calendário oficial da República: o Bolsa Empresário. Trata-se de uma iniciativa curiosa, elegante em sua discrição e robusta em seus valores. Não há filas, não há entrevistas com assistentes sociais, tampouco visitas de agentes públicos às propriedades. O benefício não requer cadastro único, nem é monitorado por órgãos de assistência. Ainda assim, movimenta cifras que fariam corar de inveja qualquer política pública de transferência de renda.Somente nos três últimos Planos Safra, o governo federal aportou mais de R$1.000.000.000.000,00 (um trilhão de reais) em recursos destinados ao financiamento da agricultura empresarial. Trata-se de um investimento que, apesar do nome pomposo e da narrativa oficial que o cerca, se comporta como um programa social de elite: subsidiado, recorrente, previsível e generosamente calibrado para agradar os grandes players do campo. Enquanto programas como o Bolsa Família precisam enfrentar uma fila constante de justificativas e vigilância social para cada centavo distribuído, o agronegócio se banha em crédito com juros abaixo do mercado, condições facilitadas e contratos que raramente são questionados pela opinião pública ou pelos organismos de controle.Não é necessário muito esforço para perceber que, no Brasil, o campo se transformou não apenas no celeiro do mundo, como gostam de dizer os publicitários de Brasília, mas também na maior incubadora de benefícios estatais que o dinheiro público pode comprar. A retórica é sempre a mesma: o agro é forte, o agro é necessário, o agro alimenta o Brasil e sustenta a balança comercial. Pode até ser verdade, mas entre alimentar a população e alimentar os cofres de quem já nada em fertilizante premium, há uma distância que cabe em vários vagões de soja.Nesse ambiente fértil para a retórica e para o endividamento socializado, nasceu o espírito do Bolsa Empresário. Um programa informal, nunca assumido oficialmente, mas executado com precisão suíça. Ele atende produtores de grande porte, empresários rurais com acesso a tecnologia de ponta, que cultivam terras que muitas vezes ultrapassam o tamanho de municípios inteiros. São os mesmos que se dizem contra a interferência do Estado, mas estendem as mãos para os subsídios quando o crédito barato pinga no início de cada safra. É um liberalismo muito bem irrigado.O mais curioso é que tudo se dá sob o manto da normalidade. O anúncio do Plano Safra acontece todos os anos com pompa e circunstância, em cerimônias que misturam discursos sobre soberania alimentar com celebrações de crédito farto. Presidentes, ministros, representantes do setor e banqueiros discursam sobre o compromisso com o futuro do país. Enquanto isso, a agricultura familiar, aquela que realmente põe comida na mesa de milhões de brasileiros, assiste da arquibancada. Ela também recebe recursos, é verdade, mas o montante é modesto, quase simbólico, quando comparado aos bilhões que regam o topo da cadeia produtiva.O que poucos admitem é que o Plano Safra funciona como uma engrenagem paralela de distribuição de renda – mas para cima. Uma espécie de bolsa seletiva, que só aceita participantes com CNPJ, trator financiado e produção destinada à exportação. É uma política que não chama atenção porque foi habilmente embalada em papel celofane tecnocrático. E como tudo que tem cheiro de produtividade e PIB, passa com louvor pela triagem moral do debate público. Afinal, quem ousaria questionar o direito de um grande produtor rural a um crédito subsidiado? Seria imediatamente acusado de querer sabotar a economia nacional, ou pior, de ser contra o campo.A lógica que se impõe é a de que investir no agro é investir no Brasil. Mas não se diz em qual Brasil. Porque, convenhamos, existe mais de um. Há o Brasil que planta e colhe para o consumo interno, que vive da feira, do pequeno comércio, da agricultura familiar e da produção artesanal. E há o Brasil que exporta em toneladas, que negocia commodities em dólar, que investe em tecnologias que substituem gente por máquinas e que, paradoxalmente, precisa de ajuda do governo para continuar competitivo. Este segundo Brasil é o grande beneficiário do que aqui se chamou, sem qualquer ironia gratuita, de Bolsa Empresário.Não se trata de condenar o investimento no setor produtivo, mas de reconhecer que há uma assimetria brutal na forma como o Estado distribui seus incentivos. Enquanto programas sociais tradicionais enfrentam resistência, desconfiança e revisões orçamentárias constantes, os aportes ao agronegócio são recebidos como inevitáveis, quase sagrados. Criticá-los é, para muitos, um sinal de ingratidão nacional. Mas talvez o que o país precise não seja de gratidão, e sim de coerência.Se é legítimo subsidiar a produção rural em nome da segurança alimentar ou da competitividade internacional, que se diga isso com todas as letras. Mas que se pare também de criminalizar programas como o Bolsa Família, que distribui valores infinitamente menores e que, ao contrário do que se diz, possui efeitos concretos sobre o consumo, o desenvolvimento local e a mobilidade social. No final das contas, o que está em jogo não é apenas o orçamento público, mas a narrativa sobre quem merece ser ajudado pelo Estado.Hoje, o Bolsa Empresário é discreto, eficaz e invisível ao julgamento popular. Ele existe sem o estigma da pobreza, sem o moralismo que pesa sobre os ombros de quem depende da assistência social. Seus beneficiários não são vistos como parasitas, nem são alvo de manchetes indignadas. Eles são empresários, são produtores, são símbolos de sucesso nacional. E por isso mesmo, podem receber bilhões sem que se levante uma só suspeita de privilégio.Talvez o mais irônico de tudo seja perceber que, no Brasil, o verdadeiro mérito não está em sobreviver com pouco, mas em saber colher muito com ajuda pública sem parecer dependente. Essa é a mágica do Bolsa Empresário. Um programa não declarado, mas muito bem executado. Que ninguém sabe onde começou, mas que ninguém parece interessado em terminar.