Por Marcelo Rossoni
Há personagens que passam pela política como quem visita um gabinete climatizado: entram com currículo, saem com biografia — e, no meio do caminho, deixam algumas pegadas que insistem em aparecer.
Aridelmo Teixeira, egresso do NOVO, é um desses casos curiosos. Figura respeitada no mundo acadêmico, foi sócio de uma instituição de ensino que, no Espírito Santo, beira o status de grife —, onde números costumam fechar melhor do que discursos —, ele também experimentou o tempero da vida pública. E não foi como figurante. Durante a gestão de Lorenzo Pazolini, do Republicanos, na Prefeitura de Vitória, ocupou posição de peso, dessas que não aparecem apenas na foto, mas também na vírgula das decisões.
A passagem foi técnica, como convém ao perfil. Planilhas no lugar de palanque, indicadores no lugar de improviso. Um ambiente onde tudo precisa fazer sentido — inclusive o silêncio. Só que política, ao contrário da contabilidade, não fecha no fim do mês. Há sempre um número fora da coluna, uma variável que não aceita controle e um imponderável que insiste em se apresentar sem aviso prévio.
E talvez tenha sido justamente esse choque de lógicas que tenha preparado o terreno para o capítulo seguinte.
Encerrada a experiência institucional, Aridelmo não optou pelo recolhimento discreto que costuma acompanhar quadros técnicos após deixarem o serviço público. Não houve retiro, nem intervalo. Houve, sim, uma mudança de palco — e de tom. Sai o gabinete, entra a vitrine digital. E, com ela, uma linguagem menos acadêmica e mais… digamos, sonora.
Suas aparições nas redes sociais não passam despercebidas. Não há ali a cautela típica de quem mede palavras como quem revisa balanços. Ao contrário. O que se vê é uma sucessão de críticas, denúncias e exposições que atingem, com frequência, figuras conhecidas da política capixaba. Em ritmo quase seriado, como se cada publicação fosse um episódio de uma temporada que não admite intervalos comerciais.
Para o observador mais atento, a impressão é de que o roteiro já está pronto — e vem sendo exibido antes mesmo do início oficial da campanha. Se a ideia era surpreender no horário eleitoral, talvez tenha havido um pequeno problema de calendário. O conteúdo já circula, já repercute e, em alguns casos, já se esgota antes de chegar ao palco tradicional.
Há quem veja nisso estratégia. Antecipar o debate, ocupar espaço, pautar a conversa. Em tempos de atenção fragmentada, quem fala primeiro costuma levar vantagem — ainda que nem sempre leve razão. Outros preferem interpretar como um reposicionamento de imagem: do técnico que explica para o crítico que confronta.
E há, claro, quem enxergue apenas barulho.
Mas não se pode ignorar que, ao adotar esse tom mais incisivo, Aridelmo acabou por construir uma presença pública distinta daquela que o projetou. O professor que antes organizava ideias agora também organiza embates. E, convenhamos, embates rendem mais cliques do que projetos.
A política, nesse ponto, costuma ser implacável com perfis híbridos. Cobra coerência de quem transita entre o cálculo e o confronto. Exige posicionamento de quem prefere análise. E, sobretudo, testa a resistência de quem decide trocar a previsibilidade dos números pela volatilidade da opinião pública.
Não deixa de ser curioso que alguém vindo de um ambiente onde cada dado precisa ser validado tenha mergulhado em um espaço onde a percepção, muitas vezes, vale mais do que a evidência. É uma troca de método. Ou, para usar uma expressão mais direta, uma mudança de jogo.
Enquanto isso, o tabuleiro segue em movimento. De um lado, políticos tradicionais tentando preservar capital eleitoral. De outro, vozes que surgem ou se reinventam, apostando na exposição contínua como ferramenta de influência. No meio, o eleitor — ora espectador, ora alvo, ora juiz de um processo que raramente oferece intervalos para reflexão.
No caso de Aridelmo, resta uma dúvida que ainda não encontrou resposta definitiva: trata-se de uma incursão pontual nesse novo estilo ou do início de uma trajetória mais consistente no campo político? A resposta, como de costume, não virá das redes sociais — embora passe por elas.
Até lá, o público acompanha. Entre uma denúncia e outra, entre um vídeo e outro, entre uma crítica e outra, vai se formando uma narrativa que mistura técnica e tensão, cálculo e confronto. Uma espécie de híbrido político que ainda busca forma definitiva.
E talvez esse seja o ponto mais interessante de todos: quando o discurso chega antes da campanha, o risco não é apenas perder o ineditismo. É transformar o debate em eco — onde tudo já foi dito, repetido e, em certa medida, assimilado.
No fim, sobra a sensação de que o espetáculo começou mais cedo. E, como todo espetáculo antecipado, corre o risco de chegar à estreia oficial já com cara de reprise.
Marcelo Rossoni é jornalista