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Aqui é a Bia do Bradesco...

27/11/2025 10:05
Aqui é a Bia do Bradesco...
*Por Marcelo RossoniO telefone toca e o coração já se arma. Tocou — perigo. A campainha digital do inferno moderno, vibrando no bolso, anuncia que algum farsante resolveu testar sua sorte. O Brasil virou um grande call center do crime. De manhã, um alerta: “acesso suspeito à sua conta”. À tarde, “compra recusada no seu cartão”. À noite, o clássico “seu CPF foi usado em uma transferência bancária”. O roteiro é o mesmo, só mudam as vozes — e, ultimamente, até elas são falsas.Agora os golpistas imitam gente de verdade. É a nova fronteira da impostura: a voz feita por inteligência artificial. O sujeito liga e jura ser funcionário de banco, com timbre treinado e dicção perfeita. “Aqui é a Bia, do Bradesco”, diz a androide digital. Ou então, num tom paternalista, “fala o serviço de segurança do Banco do Brasil”. E o detalhe: o cidadão nem conta tem em nenhum dos dois. O que era trapaça virou espetáculo de tecnologia aplicada à enganação. O crime se atualizou antes das autoridades.As operadoras de telefonia assistem a tudo de camarote. Ninguém sabe quem vende os chips, planos e pacotes como quem distribui senhas para o purgatório. Nenhum filtro, nenhum controle. O telefone, que um dia simbolizou comunicação, virou o megafone do estelionatário. E as autoridades — polícia, Anatel, Procon, Ministério da Justiça — revezam-se num balé de omissões. Cada uma empurra o problema para a outra, enquanto o cidadão, exausto, tenta bloquear números que renascem a cada hora com prefixos diferentes. Entre uma ligação e outra, chegam os e-mails. Boletos falsos, guias de DAS adulteradas, notificações falsas da Receita, até currículos com vírus disfarçados de boa vontade. É a nova chuva ácida digital. O cidadão abre a caixa de entrada como quem pisa em campo minado. Há uma indústria inteira dedicada a transformar o medo em método. E não há guarda-chuva contra isso — nem antivírus dá conta da criatividade criminosa brasileira.O mais espantoso é o silêncio institucional. Nenhum ministro, nenhum político, nem mesmo os lacradores sobem à tribuna para cobrar das operadoras um controle mínimo sobre as linhas usadas em golpes. Nenhuma campanha pública alerta sobre os riscos. Fala-se em combater fake news, mas não se combate o tele crime cotidiano. Os bancos terceirizam a culpa, com seus manuais de segurança e letras miúdas: se você caiu no golpe, a culpa é sua. Se não caiu, parabéns — mas continue desconfiando. O sistema bancário se protege; o cidadão, não. E o pior é quando o próprio cidadão tenta usar o telefone para algo legítimo. Basta ligar para alguém da família e surge aquela voz fria e burocrática: “o número que você discou não existe”. Existe, sim — é o da minha irmã, das minhas filhas, da minha esposa, pô!. Só que, para a operadora, a ligação não é prioridade. A rede despenca, o sinal some, e o cliente vira um fantasma tentando se comunicar. No fim, recorro ao WhatsApp — a telefonia paralela que nunca falha. É o Brasil: o serviço oficial não funciona, mas o improviso dá conta. Um país inteiro sustentado por um aplicativo verde.Viver aqui é aprender a duvidar de tudo. O telefone já não é canal de voz, é armadilha sonora. O e-mail, uma roleta russa de boletos. O SMS, o bilhete premiado da desgraça. O país naturalizou o absurdo a tal ponto que “tentativa de golpe” soa trivial, quase folclórico. “Hoje choveu phishing”, comenta-se com resignação. “Amanhã deve ter tempestade de SMS.” A gente vai se adaptando ao caos, como quem aprende a morar na beira do vulcão.Os criminosos, por sua vez, tornaram-se profissionais. São cordiais, pacientes, conhecem seu nome, CPF e até a cor do seu cartão. Não improvisam mais — seguem roteiros. Alguns trabalham em centrais clandestinas com metas e bonificação por conversão. É o capitalismo do estelionato, patrocinado pela omissão. E as operadoras, cúmplices por inércia, fingem não saber que suas linhas são o canal por onde passa a voz da fraude.O cidadão comum virou um animal arisco. Desconfia de tudo: do número, da voz, do link, até do próprio banco. Atender ao telefone é ato de bravura. Viver, hoje, é fugir de armadilhas. E quando o governo recomenda “educação digital”, parece zombaria: o povo já é doutor em desconfiança. O que falta é um Estado que defenda, e não apenas observe.Enquanto isso, os criminosos atualizam seus algoritmos. A cada nova tecnologia, um novo truque. Um dia, será possível clonar não só a voz, mas também a calma com que o cidadão diz “não”. E talvez seja esse o golpe final: o de fingirem ser a própria vítima, pedindo socorro a si mesma.O telefone vibra de novo. Um número desconhecido. “Boa tarde, senhor. Aqui é do setor de segurança.” A voz é doce, metálica, quase convincente. A gente suspira, respira fundo, e desliga. Não é medo — é cansaço. Cansaço de viver num país onde o golpe tem sinal, chip e sotaque. Onde o crime fala bonito e o poder público finge não ouvir.*Marcelo Rossoni é jornalista
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