*Por Marcelo Rossoni
A arte brasileira de perdoar os fortes e enterrar os mortos
Anistia, no Brasil, é como aquele abraço caloroso que só os poderosos recebem. Os outros? Bem, os outros ganham o silêncio, o esquecimento ou uma passagem só de ida para o exílio — quando não vão direto para vala comum.
Em 1979, o país se vestiu de democracia em liquidação. Foi o grande saldão da memória: “Perdoe agora, pague nunca”. Militares que passaram anos sumindo com opositores foram anistiados com selo de qualidade: "conexos". Um termo jurídico tão elástico que cabia tortura, assassinato e uma pitada de ditadura no mesmo pacote.
Enquanto isso, os perseguidos políticos que ainda tinham ossos inteiros comemoravam a chance de voltar. Alguns voltaram mutilados, outros nem voltaram. Mas os que voltaram, voltaram “perdoados”. Como se lutar contra um regime ilegítimo fosse, veja só, um erro juvenil. Quase um capricho.
A anistia geral e irrestrita foi geral e irrestrita — desde que você estivesse do lado certo da farda. Foi como se o Estado dissesse: “Ok, vamos fingir que nada aconteceu. Mas só se você também fingir que não apanhou.” E o país fingiu. Com talento.
Enquanto as mães clamavam por seus filhos, os generais ganhavam aposentadorias tranquilas e bibliografias respeitáveis. Uns sumiram nos porões; outros, nos salões de Brasília. A história, como sempre, foi escrita pelos sobreviventes. E, por aqui, os sobreviventes costumam usar coturno.
Décadas se passaram. O país trocou de roupa, aprendeu a usar celular e até fingiu que acreditava na Comissão da Verdade. Mas o amor brasileiro por anistiar poderosos nunca passou. Apenas mudou de púlpito.
Hoje, líderes evangélicos — que acreditam em ressurreição, mas não em golpe — mobilizam fiéis para uma nova cruzada: salvar os pobres coitados de 8 de janeiro. Aqueles mesmos que invadiram os Três Poderes com fé, patriotismo e uma marreta na mão.
Segundo esses líderes, os patriotas foram “enganados”, “emocionados”, “movidos pelo Espírito Santo e pelo Zap”. Não sabiam o que faziam — como um adolescente invadindo o Capitólio da fé. O vandalismo, coitados, foi só um momento de fraqueza nacional.
Mas justiça para quem? Para o sujeito que defecou no plenário? Para o outro que achava que o AI-5 era um novo modelo de iPhone? Ou para o senhor que levou o filho para assistir à destruição da democracia como se fosse um culto ao ar livre?
A nova anistia vem com louvor, clamor e arrecadação online. Líderes religiosos, entre uma oração e outra, defendem a libertação dos "injustiçados de Brasília", pedem doações, e citam versículos com mais entusiasmo que a Constituição.
E assim, o Brasil fecha mais um ciclo de sua comédia histórica: os que mandam erram, os que obedecem apanham, e os que morrem... bem, esses nem têm tempo de pedir perdão.
A lógica é velha. Primeiro, cala-se os críticos. Depois, perdoam-se os algozes. Por fim, esquece-se tudo, com direito a um documentário meia-boca e uma placa de “Nunca Mais” em alguma esquina da Esplanada.
É claro que, para isso tudo funcionar, é preciso um povo que esquece fácil, uma elite que finge melhor ainda e um Congresso que chama golpe de "manifestações democráticas com excesso de entusiasmo".
Enquanto isso, no subsolo do bom senso, as vítimas de ontem são ridicularizadas como “chorões”, e os golpistas de hoje são rebatizados de “injustiçados”. A Bíblia, usada como escudo; a bandeira, como manto; e a verdade, como pano de chão.
No final, tudo se resume a uma velha máxima nacional: quem pode tudo, não deve nada. E quem deve, ora... se não morreu ou fugiu, que aceite a próxima anistia com gratidão no coração.
Porque, no Brasil, o perdão é seletivo. A justiça, decorativa. E a memória, um arquivo corrompido que ninguém tenta recuperar.
*Marcelo Rossoni é jornalista