Por Marcelo Rossoni
A movimentação já não é mais discreta — e tampouco recente —, mas começa a ganhar contornos mais definidos no tabuleiro da política do Espírito Santo. Lorenzo Pazolini, hoje pré-candidato ao Governo do Estado, intensificou a agenda pelo interior e passou a consolidar alianças que, embora esperadas, indicam que sua candidatura deixou de ser um ensaio para se tornar um projeto.
Ao percorrer municípios fora da Grande Vitória, Pazolini tem adotado uma estratégia que mistura presença física e narrativa de gestão. Ao seu lado, nomes com trânsito político relevante ajudam a abrir portas e, sobretudo, a sinalizar viabilidade. O deputado federal Evair de Melo e o ex-presidente da Assembleia Legislativa Erick Musso acompanham parte desse roteiro, compondo um entorno que não apenas agrega, mas comunica.
Em política, como se sabe, quem anda junto também fala — mesmo quando não diz nada.
A mensagem levada ao interior é direta: eficiência. Pazolini aposta na experiência à frente da Prefeitura de Vitória como vitrine administrativa. Obras, ajustes de contas públicas e reorganização da máquina municipal são apresentados como prova concreta de capacidade de gestão. É um discurso que encontra eco, especialmente em regiões onde a cobrança por resultados costuma ser mais objetiva do que ideológica.
E, até aqui, tem funcionado.
O interior, historicamente mais permeável a candidaturas que se mostram presentes e acessíveis, tende a responder bem a esse tipo de abordagem. Prefeitos e lideranças locais valorizam proximidade e entrega — ou, no mínimo, a promessa bem estruturada de ambas. Nesse cenário, Pazolini constrói terreno, ainda que sem euforia.
Mas a política do Espírito Santo raramente se resolve longe da Grande Vitória. E é justamente aqui que o quadro se mostra mais desafiador.
Prefeitos de municípios estratégicos como Cariacica, Serra, Viana, Guarapari e Fundão já se posicionaram ao lado do governador Ricardo Ferraço. Trata-se de um alinhamento que vai além da formalidade: envolve estrutura, influência local e, principalmente, capilaridade eleitoral.
Em outras palavras, não é apenas apoio — é presença organizada.
Esse bloco cria uma espécie de cinturão político na Região Metropolitana que não se rompe com facilidade. Para quem está de fora, resta a tarefa de construir caminhos alternativos — o que, convenhamos, exige mais do que agenda cheia e discurso calibrado.
Nesse contexto, Vila Velha surge como uma peça interessante no quebra-cabeça. O eleitor do município, que raramente se prende a alinhamentos definitivos com antecedência, tem demonstrado um comportamento que mistura sinais e silêncios.
O prefeito Arnaldinho Borgo, hoje no PSDB, chegou a ensaiar proximidade com Pazolini, inclusive em eventos públicos marcados por informalidade — o Carnaval, sempre generoso com imagens políticas. Fotos, aparições conjuntas, gestos de afinidade. Tudo dentro do script esperado para quem observa de fora.
Mas a mesma figura também mantém agenda ao lado de Ricardo Ferraço, sem esforço aparente para esconder o movimento. O que poderia parecer contradição é, na prática, apenas uma leitura pragmática do momento político. Em tempos de indefinição, manter interlocução com todos os lados costuma ser menos arriscado do que escolher cedo demais.
É a velha política do “aguardar os próximos capítulos”, ainda que ninguém admita em voz alta.
Enquanto isso, Pazolini segue apostando naquilo que tem em mãos: presença, articulação e um discurso ancorado na ideia de eficiência. Não há improviso na estratégia. Há método — e uma tentativa clara de ampliar sua base para além da capital.
Ainda assim, há um ponto que merece atenção.
A eleição estadual não se decide apenas com retrospecto administrativo. A memória de gestão ajuda, dá lastro e constrói imagem, mas não substitui articulação política ampla. É nesse campo — menos visível, porém mais determinante — que candidaturas costumam ganhar ou perder densidade.
No caso de Pazolini, o avanço no interior indica competitividade. Já a resistência encontrada na Região Metropolitana aponta para um desafio que não se resolve apenas com números ou narrativas.
Será preciso costura.
E, em política, costura exige mais do que linha e agulha. Exige paciência, timing e, sobretudo, disposição para dividir espaço — algo que, curiosamente, raramente aparece nos discursos, mas sempre define os resultados.
Até outubro, muita coisa ainda pode mudar. Apoios se reorganizam, alianças se redesenham e convicções, não raramente, se tornam negociáveis.
Afinal, no ambiente político, poucas coisas são definitivas. E quase tudo é circunstancial.
Marcelo Rossoni é jornalista