Aloízio Santos: um homem entre Brejo Grande e Cariacica
06/08/2025 17:20
*Por Marcelo RossoniEm 1972, talvez em março ou abril — não me lembro bem, faz muito tempo — encontrei o meu amigo Aloízio Santos em Aracaju. Eu estava na cidade a trabalho, fazendo uma reportagem para O Globo, quando nos reencontramos por acaso. À época, ele ainda não era a figura pública consolidada que se tornaria nos anos seguintes, mas já demonstrava a energia política que o marcaria por toda a vida.Cumprida a pauta, enviei o material – texto e fotos - para a redação, por meio do telex e telefoto, que era o máximo em tecnologia da época. Aloízio não me deixou retornar ao Rio de Janeiro naquele dia. Fez questão de me levar até sua terra natal, o pequeno e caloroso Brejo Grande, no extremo norte de Sergipe. Fomos recebidos com festa, banda de música, fogos e abraços apertados de conterrâneos orgulhosos do filho ilustre que, embora radicado no Espírito Santo, nunca esqueceu suas origens.A cena ficou cravada na minha memória: um homem ainda jovem, já calejado pelo convívio com a dura realidade de Brejo Grande e de Cariacica, mas profundamente ligado à sua história. Não era apenas gratidão pelo passado: era identidade. Aloízio nunca cortou o cordão umbilical com o povo, fosse no interior sergipano ou nos bairros de terra batida da Grande Vitória.Naquela visita, percebi algo que o tempo só reforçou: ele não era um político comum. Tinha carisma espontâneo, um faro apurado para as dores do povo e uma habilidade ímpar de transitar entre os salões do poder e os becos mais esquecidos das periferias. Não à toa, sua trajetória viria a marcar décadas da política do Espírito Santo.Do Brejo Grande ao Congresso Nacional, Aloízio Santos se fez ponte. Foi ponte entre a simplicidade do sertão e a complexidade urbana da Grande Vitória; entre o improviso de quem aprende fazendo e a racionalidade de quem ocupa cargos estratégicos. Foi, sobretudo, a ponte entre os mais pobres e o Estado.Formado em Direito pela UFES, ainda nos anos 1970, deu início a uma carreira pública que mesclou técnica, intuição e popularidade. Começou como vice-prefeito de Cariacica, tornou-se deputado federal por três vezes e comandou a prefeitura do mesmo município por dois mandatos. Seu nome se espalhou pelos bairros como sinônimo de obras, ruas asfaltadas, praças construídas, promessas feitas — muitas delas cumpridas, outras tantas adiadas.Era, como se dizia à época, um “homem de palavra”. Sabia ouvir, sabia negociar, sabia entregar. Mas também sabia como ninguém se manter no jogo. Alternou entre MDB, PMDB, PSDB e PDT sem fazer alarde. Não por oportunismo cínico, mas por uma visão pragmática da política: para ele, mais importante que a sigla era estar em condições de fazer — e fazer rápido.Anos depois daquele reencontro em Sergipe, fui visitá-lo já consolidado como liderança política no Espírito Santo. Em uma dessas conversas que mantínhamos com frequência surpreendente, Aloízio me levou certa vez ao bairro São Geraldo, pertinho de Campo Grande, para me mostrar uma casa que estava construindo. Era uma construção enorme, imponente — quase destoante do entorno modesto. Ele falava da obra com entusiasmo genuíno, como quem exibe um troféu conquistado com esforço próprio. Não sei se chegou a concluir a casa, mas me impressionou o brilho nos olhos com que a descrevia: ali não era apenas concreto e tijolo, era símbolo de uma conquista pessoal, uma marca do seu lugar no mundo.A casa, como muitas de suas realizações políticas, parecia carregada de significado. Para ele, tudo tinha propósito: seja uma rua asfaltada, um posto de saúde ou uma moradia. Tudo era gesto político — e, ao mesmo tempo, gesto pessoal.Foi em Cariacica que construiu seu nome. A cidade, marcada por desigualdades históricas, encontrou nele um prefeito disposto a enfrentar a precariedade com ações diretas. Suas gestões, nos anos 1990 e 2000, coincidiram com um momento de rápida urbanização e crescimento populacional desordenado. Responder a isso exigia mais do que planos: exigia ação, articulação, presença.Aloízio apostou em infraestrutura, educação básica, mobilidade e parcerias com o governo estadual. Nem sempre acertou. Em alguns casos, priorizou obras visíveis em detrimento de políticas estruturantes. Mas acertou o suficiente para se reeleger com folga, para manter influência mesmo fora do cargo, para legar à cidade uma memória de trabalho — e, sim, de afeto político.A morte, em 2007, aos 67 anos, encerrou a trajetória de um homem que já havia se tornado símbolo. Mas o nome Aloízio Santos continuou ecoando, seja nas placas de obras, nos discursos de ex-aliados, nos bairros que ele ajudou a transformar — e, mais recentemente, nas homenagens formais: a estação aquaviária de Cariacica que leva seu nome; o trecho da BR-262, entre Cariacica e Viana, rebatizado como Rodovia Deputado Aloízio Santos.Mais que isso, seu nome sobrevive politicamente através do filho, Marcelo Santos, atual presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Marcelo segue os caminhos do pai ao buscar uma vaga no Congresso Nacional e é pré-candidato a deputado federal, com grande chance de ser eleito. Assim como o pai, ele consolidou-se como articulador, conquistou bases próprias, modernizou o discurso, mas manteve o legado de proximidade com o povo — e a capacidade de diálogo com o poder.Volto, então, àquela visita a Brejo Grande. À banda de música. Aos abraços. À sensação de ver um político de verdade sendo recebido não como autoridade, mas como um dos seus. Aloízio era isso: um dos seus. E talvez aí esteja o segredo de sua permanência. Não era apenas mais um nome entre tantos. Era alguém que carregava consigo a memória da escassez, da luta, da migração, do trabalho, do esforço para ser ouvido.Seu estilo pode não agradar a todos. Seu pragmatismo pode soar antiquado aos olhos das novas gerações. Mas seu impacto é inegável. Aloízio Santos representa uma era da política do Espírito Santo que ainda pulsa, ainda influencia, ainda molda decisões — direta ou indiretamente.A política muda, os rostos mudam, os discursos mudam. Mas figuras como Aloízio Santos permanecem como marcos: lembram que é possível fazer política com os pés no chão, com a mão no ombro do povo, com a cabeça voltada para o agora — mesmo que, às vezes, se perca de vista o futuro.Em tempos de crises de representação, de distanciamento entre eleitos e eleitores, vale lembrar de quem, com todas as falhas e limites, nunca se escondeu. Que andava pelas ruas, que pegava na enxada nas fotos de campanha, mas que também aparecia no pós-campanha. Que preferia o calor das praças ao ar-condicionado dos gabinetes.