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Adeus, Malandro Garça

30/10/2025 08:14
Adeus, Malandro Garça
*Por Marcelo RossoniMorreu o jornalista João Luiz Garcia, conhecido — e quase jamais chamado de outro modo — como Malandro Garça. Era desses apelidos que grudam não por zombaria, mas por precisão: o sujeito realmente tinha algo de ave e algo de boemia. O riso fácil, o andar leve, a elegância meio torta de quem sabe que o mundo é sério demais para ser levado a sério.Durante anos, Garcia foi um nome marcante do jornal A Tribuna, onde praticou o jornalismo com aquela combinação rara de leveza e exatidão que poucos dominam. Tinha faro de repórter e alma de cronista. Gostava de ouvir, de entender, de deixar o texto respirar — como quem sabe que uma boa história precisa de pausa, não de pressa. No fundo, escrevia como vivia: sem manual de instruções.Trabalhamos juntos por quase dez anos — eu na pauta, ele na coluna de restaurantes, vinhos e personagens que só ele conseguia descobrir. O expediente começava às seis da manhã e terminava às treze, mas Garcia chegava sempre como se fosse o primeiro dia de férias. Trazia uma anedota nova, uma receita improvável ou um comentário bem-humorado sobre o noticiário. Falava das viagens à Europa com o saudoso Mazinho Ferreira e das refeições que preparava para a esposa, Rita — a “Tilda”, como dizia, com aquela ternura que era a sua marca registrada.A redação ganhava outro clima quando apareciam Ronaldo Montalvão, editor de Política, e Roberto Junquilho, diretor de Redação. Era o trio que transformava qualquer reunião em conversa leve e divertida. O riso vinha antes da pauta, e o trabalho, quando chegava, parecia menos árduo. Havia, naquele tempo, um pacto silencioso entre nós: o jornal podia ser sério, mas ninguém era obrigado a parecer sisudo.Certa vez, Garcia me convidou para almoçar na casa da mãe, dona Mariquinha. Era sexta-feira, e o cardápio trazia farofa de fubá torrado com caldinho de feijão. Lembro-me bem: havia também salada e carne de porco frita, dessas que estalam na frigideira e perfumam a casa inteira. Impossível esquecer. O sabor me levou de volta à infância, à casa da minha avó Melânia, em Itaguaçu. Foi um almoço breve, mas desses que duram para sempre, porque a amizade, às vezes, se sela num prato de comida.Muito antes de ser jornalista, o Garça já negociava histórias. Aos doze anos, colecionava discos e fazia negócios na Galeria Sete — aquele corredor que liga a Rua Sete à 13 de Maio, no centro. Ali, entre o cheiro de vinil e as conversas infindáveis, aprendeu o valor da curiosidade e o preço da boa prosa. Talvez tenha sido ali, na loja do Jairo Maia, que o menino João Luiz descobriu que viver podia ser uma forma de reportagem. O Malandro Garça também era homem de música, anfitrião nato e promotor de encontros. Durante anos, organizou bailes lendários no Álvares Cabral — festas que começavam como evento social e terminavam como crônica coletiva. Havia ali um pacto não escrito: todos eram iguais diante da música, da cerveja e da alegria. Era o jornalismo dele em versão dançante — leve, plural e teimosamente humano.Esses bailes entraram na memória afetiva de Vitória. Noites de violões, gargalhadas e abraços, embaladas por quem acreditava que a amizade também pode ser uma forma de arte. Nos bailes do Garça, o repórter e o músico, o editor e o amigo, o cidadão e o boêmio se confundiam. E ninguém parecia disposto a desfazer o engano.Mesmo aposentado, continuava jornalista — talvez porque jamais tenha aprendido a não ser. Lia tudo, comentava tudo, ironizava quase tudo. Ria dos absurdos do cotidiano com a serenidade de quem já tinha visto coisa pior — e, se não viu, preferia acreditar que sim. Contava causos com precisão cirúrgica e humor de botequim. Era o raro tipo de homem que conseguia rir sem crueldade e ironizar sem ferir.Guardo uma lembrança que nunca me deixou. No sepultamento de Ronaldo Montalvão, nosso velho companheiro de redação, o Garça se aproximou de mim com seu chapéu Panamá e perguntou, meio sério, meio brincando: — Malandro, quando será a nossa vez? Fiquei quieto. Há perguntas que não se respondem. Lembrei-me do próprio Montalvão, que um dia foi ao meu jornal acertar o envio mensal de uma cesta básica para a família de um amigo doente. Garcia era como Montalvão — às vezes extravagante, mas discretamente generoso.Deixa Rita e o filho Leonardo, a quem dedicava o tipo mais bonito de amor: aquele que se expressa no riso entre uma garfada e outra. E deixa também uma multidão de amigos que aprenderam com ele que leveza não é ausência de dor — é a arte de atravessá-la sem perder o humor.O jornalismo capixaba perde um grande nome. Mas os amigos perdem algo maior: o prazer de tê-lo por perto, de ouvi-lo, de rir com ele. Era desses raros que fazem a vida parecer um pouco mais divertida apenas por existir.Vai em paz, Malandro Garça. Que o baile continue em outro salão, com boa música, boa mesa e aquele sorriso que vinha sempre antes da história — e às vezes era a melhor parte dela.*Marcelo Rossoni é jornalista.
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