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A verdade e seus passeios pela guerra

21/08/2025 00:05
A verdade e seus passeios pela guerra
*Por Marcelo Rossoni   Dizem por aí que, na guerra, a primeira vítima é a verdade. E como toda boa vítima, ela raramente tem chance de defesa. É atingida logo no primeiro disparo — não por bala perdida, como ocorre quase que diariamente na cidade do Rio de Janeiro, mas por propaganda bem calculada. É a baixa que ninguém lamenta, que não sai no jornal nem vira hashtag. Com sorte, ressurge anos depois, pálida, nos rodapés dos relatórios independentes, quando já não interessa mais a ninguém. Israel, por exemplo, leva a segurança muito a sério — e não é de hoje. Tem um serviço secreto que beira o mítico. O Mossad já virou personagem de série, filme, veja Fauda na Netflix, e teoria da conspiração. É capaz de eliminar inimigos em qualquer canto do mundo com a precisão de um relógio suíço e a frieza de um cirurgião. Cientistas iranianos, membros do Hezbollah, generais distraídos — todos já sentiram na pele, ou no tímpano, o que significa cair na mira da inteligência israelense. Daí o susto geral quando o Hamas, em outubro de 2023, atravessou a fronteira de Gaza com metralhadoras, motos e um plano que parecia saído de um videogame de guerrilha. O resultado, segundo fontes ocidentais, foram 1.200 mortos e cerca de 250 sequestrados em solo israelense. E a pergunta que ecoou mundo afora: como ninguém viu? A resposta foi um silêncio constrangido nos gabinetes de segurança. Ou, quando muito, uma explicação vaga: “não era um ataque previsível”. A inteligência mais temida do planeta foi pega cochilando — ou, talvez, distraída demais vigiando o Irã. Porque, veja bem, o ataque ao Irã já estava no script. Israel vinha, há meses, limpando o terreno. Primeiro, destruiu depósitos de armas e explodiu “pages” nos ouvidos dos integrantes do Hezbollah no Líbano, como quem ajeita os móveis antes da faxina pesada. Depois, bombardeou a Síria como quem tira o pó dos cantos. Só então chegou a vez do alvo principal. Em junho de 2025, com a bênção e a cobertura aérea dos Estados Unidos, vieram os ataques “cirúrgicos” — uma expressão adorada por diplomatas e porta-vozes militares quando se quer dizer “vai morrer gente, mas a gente escolheu onde”. Foram atingidas instalações nucleares em Fordow, Natanz e Isfahan. Morreram cientistas, soldados e civis — de 600 a 1.200, dependendo do jornal que você leu. Milhares ficaram feridos. Os EUA usaram bombas “bunker buster” — nome simpático para artefatos capazes de atravessar concreto e explodir sonhos atômicos. Os danos foram, segundo analistas, “extremamente severos”. O Irã, claro, prometeu resposta. E respondeu. Com mais de mil drones e uns 400 mísseis, lançou uma ofensiva contra Israel que assustou mais a imprensa do que a defesa aérea. O Domo de Ferro, segundo relato de jornais ocidentais, interceptou a maioria dos ataques, mas não todos. Vinte e oito civis israelenses morreram, mais de três mil se feriram. Nada desprezível — mas, para quem esperava o Apocalipse versão xiita, foi um susto administrável. As bombas do Irã arranharam, mas não derrubaram. No meio da confusão, governos mundo afora correram para proteger os seus. O Brasil, por exemplo, agiu rápido e, com todas dificuldades impostas pelo governo israelense, repatriou dezenas de cidadãos. Famílias, turistas, profissionais em missão, e até os evangélicos que foram se banhar na água sagrada do rio Jordão — todos trazidos de volta antes que virassem estatística internacional. Foi uma operação com poucos holofotes, mas com muito alívio nos bastidores do Itamaraty. E não foi a única. Com o prolongamento do conflito e o agravamento da situação humanitária em Gaza, outros brasileiros ficaram presos num cenário que alternava entre bombardeios e apagões. Viver em meio a drones, tanques e túneis não estava no roteiro de quem buscava apenas um futuro melhor — fosse por laços familiares ou por fé religiosa. As fronteiras fechadas, o cerco permanente, a escassez de água e comida fizeram da Faixa de Gaza um labirinto onde a sobrevivência virou proeza diária. Ainda assim, a diplomacia brasileira persistiu. Foram muitos dias de articulação com Israel, Palestina, Egito, ONU e até com atores informais. A cada trégua temporária, tentava-se uma nova rodada de evacuação. E, com paciência geopolítica, teimosa e silenciosa, o governo brasileiro conseguiu o que poucos acreditavam ser possível: a repatriação de centenas de brasileiros que residiam na Faixa de Gaza. Gente comum — professores, donas de casa, crianças — que voltou ao país sem pompa nem medalhas, mas com vida. Num mundo onde tanta gente morre sem saber por quê, isso já é uma vitória suficiente. A única vítima brasileira foi a jornalista Daniela Lima, demitida da GloboNews na manhã de segunda-feira, 4 de agosto de 2025, supostamente por seus comentários sobre a “ineficiência dos mísseis iranianos”!  Claro que isso não muda o curso da guerra, nem limpa o sangue das calçadas. Mas num cenário em que as grandes potências discutem soberania com drones e diplomacia com ogivas, pequenos gestos humanitários ganham outro peso. O Brasil, nesse caso, optou por não discursar — e sim agir. Enquanto tanques avançaram e sirenes tocavam, aviões FAB pousaram em solo brasileiro com famílias inteiras, exaustas, mas salvas. Sem desfile e sem narrativas inflamadas. Apenas vidas resgatadas. A Verdade, aquela ingênua, talvez tenha sorrido de canto de boca antes de voltar a se esconder atrás da fumaça. Porque, na guerra, ela quase nunca é bem-vinda.   *Marcelo Rossoni é jornalista
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