Terça-feira, 20 de Outubro de 2026 | 16h59m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Círculo do Poder

A transparência, segundo Idalberto Moro

08/05/2026 14:10
A transparência, segundo Idalberto Moro

Por Marcelo Rossoni

Durante muitos anos, o Sistema Fecomércio-ES funcionou quase como aquelas antigas casas comerciais do interior: sólidas, respeitadas, organizadas, mas discretas ao extremo. Fazia-se muito; falava-se pouco. Às vezes, tão pouco que parte da sociedade sequer compreendia a dimensão do que era realizado pelo conjunto formado pela Federação do Comércio, Sesc e Senac no Espírito Santo. Havia inclusive quem colocasse os “S” do Sesc e do Senac na conta do chamado “Custo Brasil” — discurso muito comum entre neófitos em economia ou entre os graduados nas universidades instantâneas das mensagens de WhatsApp, onde certos neoliberais costumam transformar slogans em teses acadêmicas.

Não havia exatamente desconfiança. O problema era outro. Faltava vitrine. Faltava conexão. Faltava comunicação entre as próprias engrenagens do sistema. Cada entidade parecia caminhar por corredores paralelos, ainda que todos levassem ao mesmo destino.

Foi nesse ambiente que Idalberto Moro assumiu a presidência da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Espírito Santo para o ciclo 2022–2026. E talvez a principal mudança implantada não tenha sido estrutural, financeira ou administrativa. Foi cultural.

Ao lado do diretor regional do Sesc-ES, Luiz Toniato, e do diretor regional do Senac-ES, Richardson Schmittel, Moro promoveu algo aparentemente simples, mas que durante anos parecia improvável dentro da tradição institucional do sistema: fez as entidades conversarem entre si — e também com a sociedade.

A apresentação dos números alcançados entre 2022 e 2026, realizada para jornalistas, convidados e representantes de diversos setores, serviu como uma espécie de prestação pública de contas. Em tempos de discursos grandiosos e resultados invisíveis, o gesto acabou se transformando quase numa inovação administrativa.

O encontro mostrou investimentos, expansão de unidades, crescimento de atendimentos, modernização de estruturas, cursos profissionalizantes, ações sociais, programas culturais e planejamento estratégico até 2030. Mas o dado mais relevante talvez não estivesse apenas nas planilhas projetadas nos telões. Estava, sobretudo, na forma como o sistema decidiu se apresentar.

Durante décadas, parte das grandes instituições brasileiras cultivou uma liturgia quase monástica: trabalhava-se em silêncio, comunicava-se por notas protocolares e evitava-se exposição excessiva. Em alguns casos, parecia existir certo receio de humanizar as próprias ações, como se eficiência administrativa e proximidade social fossem conceitos incompatíveis.

Em determinados momentos, a impressão transmitida era quase a de que algumas instituições tinham vergonha do próprio trabalho social que realizavam — como se divulgar resultados, mostrar investimentos ou apresentar ações à sociedade pudesse ser confundido com exibicionismo institucional.

Na gestão de Idalberto Moro, essa lógica começou a mudar.

A Fecomércio-ES deixou de atuar apenas como uma entidade de representação empresarial para assumir também um papel mais visível de articulação social e econômica. O Sesc ampliou sua presença em áreas ligadas à educação, saúde, cultura e assistência social. Já o Senac reforçou investimentos em formação profissional, inovação e capacitação técnica, especialmente num mercado de trabalho cada vez mais exigente e impaciente com improvisações.

Talvez aí esteja um dos pontos centrais da atual gestão: a tentativa de integrar desenvolvimento econômico com algum nível de sensibilidade social — coisa que, convenhamos, nem sempre caminhou junta na tradição empresarial brasileira.

Luiz Toniato, no Sesc, ajudou a consolidar uma linha administrativa voltada à ampliação de serviços e ao fortalecimento das ações comunitárias. Richardson Schmittel, no Senac, tornou-se um dos defensores da necessidade de aproximar qualificação profissional e realidade prática do mercado. Já Idalberto Moro assumiu o papel de articulador político e institucional desse conjunto.

Não se trata apenas de administrar estruturas robustas. O Sistema Comércio movimenta orçamento, patrimônio, influência institucional e milhares de atendimentos diretos à população. O desafio, portanto, não é pequeno, mas tem que ser transparente.

A transparência, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como publicação de números frios em relatórios burocráticos. Transparência envolve mostrar à sociedade onde os recursos são aplicados, quais resultados são obtidos e de que forma as entidades impactam concretamente a vida das pessoas.

Esse é um discurso que dialoga diretamente com um tempo em que instituições tradicionais passaram a ser pressionadas não apenas por eficiência, mas também por legitimidade pública.

E há um detalhe curioso nesse processo.

Durante muito tempo, o Sistema Fecomércio parecia confortável em falar apenas para dentro. Empresários conversavam com empresários; dirigentes conversavam com dirigentes; técnicos produziam relatórios para técnicos. A sociedade observava tudo de longe, quase como quem vê a movimentação de um prédio importante sem jamais entrar nele.

A atual gestão resolveu abrir algumas portas para mostrar seus números, seus investimentos e seus feitos.

Nenhuma instituição quase centenária abandona décadas de cultura organizacional da noite para o dia. Mas o movimento de aproximação tornou-se perceptível.

A própria decisão de apresentar balanços públicos e metas futuras até 2030 revela uma tentativa de construir previsibilidade institucional — palavra elegante para dizer que o sistema quer deixar claro para onde está indo.

E isso ocorre num período particularmente delicado para o comércio, os serviços e o turismo. Os últimos anos foram marcados por mudanças tecnológicas aceleradas, transformação das relações de trabalho e novos hábitos de consumo. Em certos momentos, administrar entidades desse porte exigiu mais do que experiência empresarial; exigiu capacidade de adaptação.

A ironia discreta dessa história é que, em pleno século XXI, uma das grandes novidades institucionais acabou sendo justamente algo que deveria parecer elementar: dialogar.

Dialogar entre entidades. Dialogar com empresários. Dialogar com funcionários. Dialogar com a imprensa. Dialogar com a sociedade.

No fim das contas, talvez a principal herança da gestão 2022–2026 não esteja apenas nas obras, nos investimentos ou nos números apresentados em auditórios climatizados. Pode estar na tentativa de substituir a antiga cultura dos corredores silenciosos por outra mais aberta, integrada e visível.

Uma mudança que, para estruturas historicamente formais como Fecomércio, Sesc e Senac, representa quase uma pequena revolução administrativa — dessas que não costumam fazer barulho, mas alteram lentamente o rumo das instituições.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


Compartilhe este post