Terça-feira, 20 de Outubro de 2026 | 17h01m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Círculo do Poder

A trajetória política de Ricardo Ferraço e o novo ciclo no Espírito Santo

06/04/2026 13:43
A trajetória política de Ricardo Ferraço e o novo ciclo no Espírito Santo

Por Marcelo Rossoni

A posse de Ricardo Ferraço no governo do Espírito Santo, após a renúncia de Renato Casagrande para disputar o Senado, não representa apenas uma substituição administrativa prevista pela legislação eleitoral. O momento tem significado político mais amplo. Marca a chegada ao comando do Estado de um político que percorreu praticamente todas as etapas da vida pública e também simboliza a continuidade de um ciclo político iniciado ainda nos anos de governo de Paulo Hartung e consolidado posteriormente pelas gestões de Renato Casagrande.

Ricardo Ferraço construiu sua trajetória política de forma gradual, começando na política municipal, como vereador em Cachoeiro de Itapemirim. A política municipal costuma ser o primeiro espaço de formação de lideranças, e foi ali que ele iniciou a construção de sua base política e de sua rede de relações, especialmente com lideranças regionais e prefeitos do interior, característica que o acompanharia ao longo de toda a carreira.

Depois da Câmara Municipal, Ferraço chegou à Assembleia Legislativa, onde se consolidou como liderança estadual e chegou à presidência do Legislativo. A presidência da Assembleia é um dos cargos politicamente mais estratégicos do Estado, pois exige negociação permanente, formação de maioria e diálogo constante com o Executivo e com os municípios. Foi nesse ambiente que ele consolidou seu perfil de articulador político e negociador.

Na sequência, foi deputado federal e posteriormente senador da República. Em Brasília, construiu uma imagem de parlamentar moderado, com atuação voltada principalmente para temas ligados à economia, infraestrutura, logística e desenvolvimento regional. Sua atuação política sempre esteve mais associada a pautas econômicas e estruturais do que a debates ideológicos ou confrontos políticos nacionais.

Além da experiência no Legislativo, Ricardo Ferraço também acumulou experiência no Executivo estadual. Ele foi vice-governador em mais de um período, participando diretamente da estrutura de governo e da administração estadual. Primeiro, foi vice-governador na gestão de Paulo Hartung, período em que participou do processo de reorganização administrativa e fiscal do Estado. Anos depois, voltou ao cargo de vice-governador nas gestões de Renato Casagrande, o que o manteve no centro das decisões políticas e administrativas do governo estadual por vários anos consecutivos.

Essa trajetória faz com que Ricardo Ferraço seja um dos poucos políticos capixabas que passaram pelo Legislativo municipal, Legislativo estadual, Câmara dos Deputados, Senado da República e Executivo estadual antes de chegar ao governo do Estado. Trata-se de uma carreira política longa e construída de forma gradual, baseada mais na articulação política e na construção de alianças do que em posicionamentos ideológicos.

Politicamente, Ricardo Ferraço costuma ser classificado como um político de centro, com perfil desenvolvimentista e forte relação com o setor produtivo. Sua atuação política sempre esteve próxima de setores como indústria, comércio exterior, logística portuária, agronegócio e infraestrutura, áreas estratégicas para a economia do Espírito Santo. Essa característica ajudou a consolidar sua relação com empresários, prefeitos do interior e lideranças regionais.

Outro aspecto importante de sua trajetória é a origem política familiar. Ele é filho de Theodorico Ferraço, uma das figuras políticas mais tradicionais do sul do Espírito Santo, especialmente em Cachoeiro de Itapemirim. Isso significa que sua trajetória política também está inserida dentro de uma tradição política regional, algo comum na política brasileira, especialmente em estados onde a política municipal e regional tem grande influência na formação de lideranças estaduais.

A chegada de Ricardo Ferraço ao governo não representa uma ruptura administrativa, já que ele fazia parte do mesmo grupo político que governava o Estado. O que ocorre, na prática, é uma mudança de perfil no comando do Executivo dentro de um mesmo ciclo político. Paulo Hartung, Renato Casagrande e agora Ricardo Ferraço representam, com diferenças de estilo e perfil, uma mesma linha de condução administrativa baseada em estabilidade fiscal, organização administrativa e alianças políticas amplas.

Se Hartung ficou marcado pela reorganização financeira e administrativa do Estado, e Casagrande pela estabilidade administrativa e continuidade do modelo de gestão, Ricardo Ferraço assume o governo com perfil mais político e de articulação, mantendo a base administrativa construída ao longo desses governos, mas com estilo próprio de condução política.

O Espírito Santo passa, portanto, a viver uma nova fase política que não representa ruptura, mas continuidade com mudança de estilo. A posse de Ricardo Ferraço simboliza não apenas a ascensão de um político ao governo, mas a continuidade de um ciclo político que atravessa diferentes governos e lideranças, agora sob novo comando.

Mais do que uma simples substituição prevista pela legislação eleitoral, o momento representa o ponto final de uma trajetória política construída ao longo de décadas e o início de uma nova etapa no cenário político capixaba, agora sob o comando de um governador com longa experiência institucional e forte capacidade de articulação política.


Marcelo Rossoni é jornalista


Compartilhe este post