*Por Marcelo RossoniQuando os moços do mercado — aqueles de terno caro e discursos severos — reclamam do governo, até parece que tiraram um pirulito da boca de uma criança. Um soluço nas contas públicas, uma promessa de aumento no gasto social, e pronto: o chão treme, as bolsas caem, os analistas aparecem na televisão para anunciar o fim dos tempos. Mas quando o governo resolve economizar em cima de quem trabalha, aí não há pânico, nem gritaria. É o contrário: chamam de “coragem política”.A reforma da Previdência foi o exemplo mais requintado dessa moral seletiva. Vendeu-se como medida de justiça e equilíbrio, mas só cortou de quem já tinha pouco. O operário, o caixa de supermercado, o professor da rede estadual — todos eles foram convocados a trabalhar mais, contribuir mais e receber menos. A eles, o discurso do sacrifício. Aos outros — os servidores do Legislativo, do Judiciário e do alto escalão do Executivo —, o silêncio cúmplice da racionalidade técnica.Os economistas de plantão explicaram que era inevitável. Que o país precisava “ajustar a trajetória fiscal” e “preservar a confiança dos investidores”. Frases bonitas, lapidadas em ar-condicionado, que disfarçam o fato de que o aperto ficou concentrado na base. Nenhuma reforma ousou tocar nos privilégios dos que se aposentam cedo com salários integrais, auxílios e pensões generosas. A austeridade, afinal, tem endereço certo: o contracheque de quem não tem lobby forte.Outro dia, o economista e professor Clóvis Abreu Vieira — de barba e cabelos sempre impecáveis, cuidados nos melhores salões da capital, adepto das novidades da moda masculina e dos blazers de corte europeu — me perguntou quem me pautava. Respondi o óbvio: eu mesmo, sou jornalista há exatos 57 anos, Clóvis. Sempre fui — e continuo sendo — o melhor pauteiro da praça. Ele riu, achando que eu exagerava. Mas é preciso certa autonomia para escrever sobre um mundo que se auto elogia enquanto apodrece com perfume paraguaio. E, convenhamos, há muito economista que prefere o aroma do mercado ao cheiro da rua.Os defensores da reforma diziam que o problema era o déficit da Previdência. Talvez tenham razão — o problema é mesmo o déficit, mas não o financeiro. O déficit é moral. Está no abismo entre o discurso da igualdade e a prática da blindagem. Está na naturalidade com que se exige sacrifício do operário e se garante tranquilidade ao magistrado. Está no cinismo com que se prega meritocracia para uns e estabilidade eterna para outros.
A lógica é simples: quando se trata de cortar direitos do povo, chamam de ajuste; quando se trata de preservar os próprios, chamam de segurança institucional. O país virou especialista em reformar o sofrimento. E o mercado, que se diz neutro, aplaude. Para ele, o Brasil só é sério quando o pobre perde alguma coisa.O curioso é que essa divisão entre o Brasil que paga e o Brasil que cobra não é apenas injusta — é também burra. Ao proteger os privilégios do topo, o Estado enfraquece a base que o sustenta. Mas o mercado não vê problema: enquanto os títulos públicos pagarem bem e a dívida estiver “sob controle”, a desigualdade pode continuar rendendo dividendos. O drama de milhões de aposentados é só uma linha de rodapé no relatório de risco.A reforma foi apresentada como um remédio amargo, mas necessário. Só esqueceram de mencionar que alguns tomaram placebo. Os servidores das castas superiores continuaram a viver sob regras generosas, herdeiros de um pacto silencioso entre poder e conveniência. Ninguém mexe com eles, porque mexer seria confessar que o ajuste nunca foi técnico — sempre foi político.E assim seguimos, aplaudindo a disciplina dos pobres e a estabilidade dos ricos. O país que cobra austeridade de quem ganha salário mínimo é o mesmo que financia aposentadorias de luxo com dinheiro público. O mesmo que fala em meritocracia, mas garante vitaliciedade a quem nasceu do lado certo da mesa. O mesmo que chama de populismo qualquer tentativa de justiça, e de responsabilidade toda forma de privilégio.No fim, o mercado e o Estado formam uma dupla harmoniosa. Um reclama, o outro corta. Um exige confiança, o outro entrega obediência. E o povo assiste, cansado, ao espetáculo da coerência seletiva. Chamam isso de modernização, mas tem cara de velharia: um país em que o trabalhador precisa provar que merece envelhecer e o servidor de elite nasce com aposentadoria garantida.Talvez o problema da Previdência nunca tenha sido apenas contábil. É de consciência. Porque o Brasil continua reformando o que sobra do povo para preservar o que sobra do poder. E enquanto isso durar, os moços do mercado seguirão sorrindo — não por confiança, mas por costume.*Marcelo Rossoni é jornalista